#CONTATOS COM O AUTOR www.academiadeinteligencia.com.br e-mail: jcury@mdbrasil.com.br Tel: (0xx17) 3342-4844

##CopyrightEditora Academia de Inteligncia 2001

Produtora Executiva Suleima Cabrera Farhate Cury Capa e projeto grfico Lau Baptista Reviso Cludia J. Alves Caetano Editorao eletrnica lau.dgn - design & comunicao
C982m Cury, Augusto Jorge O mestre da vida / Augusto Jorge Cury  So Paulo: Academia de inteligncia, 2001. 200p.; 21cm.  (Anlise da inteligncia de Cristo) ISBN
85-87643-04-5 1. Jesus Cristo. 2. Jesus Cristo  Psicologia. I. Ttulo. II. Srie CDD 232

Todos os direitos desta edio reservados  Editora Academia de Inteligncia Telefax: (17) 3342-4844 Endereo na Internet: http://www.academiadeinteligencia.com.br
E-mail: academiaint@mdbrasil.com.br

#Dedico este livro a todos aqueles que nodesistemdesi mesmos,equedescobriram que a vida  o maior de todos os espetculos  um espetculo dado pelo Autor da existncia.
quelesque,mesmocomlgrimas,anseiam pelo direito de ser livres e felizes...

#SUMRIO
Prefcio ----------------------------------------------------------------------------------Captulo 1 As Causas Sociais do Julgamento ----------------------------------------------
-Captulo 2 O Mestre da Vida Paralisando os Soldados ----------------------------------Captulo 3 O Poderoso e Dcil: Um Exmio Psicoterapeuta --------------------------Captulo
4 Rejeitado e Torturado na Casa de Ans ---------------------------------------Captulo 5 Condenado na Casa de Caifs pelo Sindrio --------------------------------Captulo
6 Os Homens do Imprio Romano na Histria de Cristo: O Pano de Fundo -------------------------------------------Captulo 7 O Julgamento pelo Imprio Romano ------------------------
------------------Captulo 8 Dois Herodes Violentando Jesus ------------------------------------------------Captulo 9 Trocado por um Assassino. Os aoites e a Coroa
de Espinhos ----------------------------------------------Captulo 10 A ltima Cartada da Cpula Judaica ------------------------------------------Captulo 11 O
Mais Ambicioso Plano da Histria -----------------------------------------Captulo 12 A Inteligncia de Deus: O Todo Poderoso tem O que Aprender? ----------------------------------
---------------Captulo 13 As Lies e Treinamento da Emoo do Mestre da Vida -------------------------------------------------------09 13 31 45 57 81

107 119 133

141 155 179

209

225

#Prefcio

s nos alegramos pelo fato da coleo "Anlise da Inteligncia de Cristo" estar sendo publicada em diversos pases e ajudando milhares de leitores. Meu desejo inicial
era de publicar apenas trs livros. Todavia, a personalidade de Cristo  to espetacular que  medida que comecei a investig-la mais profundamente percebi que trs
livros seriam insuficientes. Pensava, por exemplo, em escrever um livro sobre os enigmas e as lies de vida presentes no julgamento e na morte de Jesus. No foi
possvel. H tantos eventos presentes no seu julgamento e crucificao que os abordarei em dois livros. Esses momentos da histria de Cristo so to complexos e
relevantes que mudaram as pginas da histria. Da sua priso ao ltimo suspiro na cruz decorreram menos de 24 horas, mas foi o suficiente para que se contasse a
histria antes de Cristo (a.C.) e depois de Cristo (d.C.). Toda vez que escrevemos o ano em que estamos, testemunhamos que Jesus Cristo dividiu a histria. Um dia,
eu e o leitor morreremos e, com o passar do
9

N













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

tempo, cairemos nas raias do esquecimento. No mximo algumas pessoas mais ntimas se lembraro de ns e sentiro o calor da saudade. Todavia, o mestre dos mestres
 inesquecvel. As reaes emocionais e os pensamentos que teve no pice da dor fogem completamente ao que se poderia esperar de um homem no seu caos. Neste livro,
"O Mestre da Vida", analisaremos as profundas lies que eles nos deixou durante sua vida e particularmente durante sua priso, julgamento e condenao  morte.
A maneira como ele superou sua dor, venceu o medo, suportou a humilhao pblica e preservou sua lucidez num ambiente inspito nos deixa atnitos. Este livro termina
quando ele sai sangrando da fortaleza Antnia, a casa de Pilatos, sentenciado  morte e carregando a cruz. No prximo livro, "O Mestre do Amor", estudaremos os fatos
fundamentais que ocorreram na sua longa caminhada at o Glgota e os fenmenos misteriosos e palavras inigualveis que ele proferiu durante a sua crucificao. Jesus
foi um mestre do amor at o seu corao silenciar-se. Outro livro que far parte desta coleo ser "O Mestre Inesquecvel". Nele investigaremos o perfil psicolgico
dos discpulos antes da morte do seu mestre, tais como seus conflitos, dificuldades, temores e no que eles se transformaram nas dcadas seguintes. Estudaremos a
mais profunda revoluo ocorrida em pessoas incultas. Galileus iletrados e sem grandes qualificaes intelectuais desenvolveram as funes mais importantes da inteligncia,
sofreram uma profunda mudana no cerne de seu esprito e alma e, por fim, incendiaram o mundo com a mensagem do carpinteiro da vida. Os leitores que no tiveram
oportunidade de ler os livros seqencialmente no precisam se preocupar, pois eles podem ser lidos separadamente.
10













































































#Prefcio

Agradeo a todos os leitores, entre os quais reitores de universidades, mdicos, psiclogos, professores, empresrios, jovens, adultos, bem como aqueles que no
tiveram condies de fazer um curso superior, mas que so igualmente dignos, que nos tm enviado e-mails e cartas animadoras, revelando que abriram as janelas de
suas vidas e arejaram suas emoes aps a leitura destes livros. Alegro-me tambm porque muitas pessoas procedentes de diversas religies nos escreveram dizendo-se
encantadas com a personalidade do mestre dos mestres, expressando que reacenderam a chama de amor por ele e que atravs deste amor tm aplainado as suas diferenas.
Animo-me em saber que ateus tm sido ajudados por estes textos e que pessoas pertencentes a religies no crists tm igualmente comentado que suas vidas ganharam
um novo alento aps a leitura desta coleo. Estou contente pelo fato de diversas faculdades de pedagogias e outros cursos, bem como escolas secundrias estarem
adotando estes livros, objetivando estimular a arte de pensar e as funes mais importantes da inteligncia tanto dos professores como dos seus alunos. Apesar deste
avano, ainda demorar muitos anos para que a Psicologia e a Educao percebam o erro que cometeram por no ter investigado a personalidade de Jesus Cristo e utilizado
sua riqussima histria, bem como o treinamento da emoo e os mecanismos psquicos e pedaggicos que ele utilizava para prevenir doenas psquicas e gerar homens
livres, felizes e lderes do seu prprio mundo. As reaes de encantamento pelo "mestre da vida" que as pessoas tm manifestado com esta coleo no so frutos de
minha habilidade como escritor, mas da excelncia do personagem que descrevo. Tenho convico das minhas
11













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

limitaes e das deficincias da linguagem para descrever a sua grandeza. Torturado, ele demonstrou grandiosa coragem e segurana. No extremo da dor fsica, produziu
frases poticas. No topo da humilhao social, expressou serenidade. Quando no havia condies de proferir palavras, ensinou pelo silncio, pelo olhar, pelas reaes
tranqilas e, algumas vezes, pelas suas lgrimas.

12













































































#

















































































































CAPTULO 1

AS CAUSAS SOCIAIS DO JULGAMENTO

#As Causas Sociais do Julgamento


assos apressados, rostos contrados, uma preocupao intensa permeava uma escolta de soldados que caminhavam numa noite densa. Tinham ordens expressas para prender
um homem, apenas um homem. Ele no usava armas e nem pressionava as pessoas a segui-lo, entretanto agitava toda uma nao, perturbava as convices dos seus lderes,
dilacerava os preconceitos sociais, propunha princpios de vida e discursava sobre as relaes humanas de uma maneira nunca vista. Jerusalm era uma das maiores
e mais importantes cidades do mundo antigo. Era bero de uma cultura milenar. Os homens daquela cidade viviam da glria do passado. Agora, estavam sob o jugo do
imprio romano e nada os animava. Entretanto, apareceu algum que mudou a rotina da cidade. Nela no se comentava outra coisa, a no ser sobre um homem que fazia
atos inimaginveis e possua uma eloqncia espantosa. Um homem que se esforava para no ser assediado, mas no tinha xito, pois quando abria a sua boca, incendiava
os coraes. As pessoas se apinhavam, acotovelavam-se, para ouvi-lo.
15

P

#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

O carpinteiro de Nazar com suas mos entalhava madeira; com suas palavras, a emoo humana. Como pode algum com as mos to grossas ser to hbil em penetrar nos
segredos da alma humana? Embora fosse to dcil, os lderes da sua sociedade tentaram assassin-lo vrias vezes por apedrejamento e no conseguiram. Tentaram faz-lo
cair em contradio, tropear em suas palavras, mas sua inteligncia deixava seus opositores atnitos. Sua fama aumentava a cada dia. Milhares de pessoas aprendiam
o alfabeto do amor. Ficava cada vez mais difcil conseguir prend-lo. Entretanto, um fato novo deu um alento aos seus inimigos. Um dos discpulos, contrariando tudo
o que viu e ouviu dele, resolveu tra-lo. O amanh  um dia incerto para todos os mortais. Jesus, para o espanto dos seus discpulos, comentava que sabia de todas
as coisas que lhe sobreviriam. Que homem  este que penetrava no tnel do tempo e se antecipava aos fatos? Sabia que ia ser trado. Ento, resolveu facilitar sua
priso, pois, segundo sua firme convico, havia chegado o momento de passar pelo mais dramtico caos pelo qual um ser humano pode passar. Todos fogem do crcere,
ele o procurou. Ento, longe da multido, o mestre de Nazar foi apenas com seus discpulos para um jardim, retirado de Jerusalm. Era uma noite fria e densa. Neste
jardim, como vimos no livro " O Mestre da Sensibilidade", ele dobrou o rosto sobre seus ps e, gemendo de dor, orava profundamente. Preparou-se para suportar o insuportvel.
Sabia que ia ser mutilado pelos seus inimigos. Aguardava a escolta de soldados.
16













































































#As Causas Sociais do Julgamento


Jesus ficou incontrolavelmente famoso
Estava ficando insustentvel a presena de Cristo em Jerusalm. Os homens afloravam de todos os cantos e cidades para v-lo. O assdio da multido ficou mais intenso,
porque poucos dias antes de sua morte, ele fez algo espetacular por seu amigo Lzaro em Betnia, uma pequena cidade ao redor de Jerusalm. Freqentemente perdemos
o contato com nossa histria. Os amigos e as belas e singelas experincias do passado se tornam pginas que dificilmente folheamos. Jesus, ao contrrio, apesar de
ser to famoso, nunca se esquecia das coisas singelas nem abandonava as pessoas simples que o amavam. Lzaro havia morrido h quatro dias. Ns sepultamos muitos
amigos que esto vivos, nunca mais nos lembramos deles. Jesus, ao contrrio, no se esquecia nem dos que tinham morrido. Por isso, foi visitar seu miservel amigo
Lzaro. O que se pode fazer para uma pessoa em estado de putrefao? Depois de 15 minutos de completa parada cardaca, sem manobras de ressuscitao, o crebro 
lesado de maneira irreversvel, comprometendo reas nobres da memria. Tal situao pode causar determinado grau de deficincia mental, pois milhes de informaes
se desorganizam, impedindo que os quatro grandes fenmenos que lem a memria e constroem cadeias de pensamentos sejam eficientes nesta magna tarefa intelectual*.
* Cury, Augusto J., Inteligncia Multifocal, Editora Cultrix, So Paulo, SP, 1998).

17

#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida


A memria de Lzaro havia se tornado um caos
Se 15 minutos sem irrigao sangunea podem lesar o crebro, imagine o que no acontece em quatro dias de falecimento, como no caso de Lzaro. No h mais nada a
fazer. Todos os segredos da memria deste homem se perderam de maneira irreparvel. Bilhes, trilhes de informaes contidas no crtex cerebral e que aliceravam
a construo da sua inteligncia se transformaram num caos. No h mais histria de vida nem personalidade. A nica coisa a ser feita era tentar consolar a dor das
suas irms, Maria e Marta. Toda vez que no havia mais nada para se fazer, aparecia o mestre da vida causando um tumulto nas leis da biologia e da fsica. Quando
todo mundo estava desesperado, ele reagia com tranqilidade. Lzaro era uma pessoa conhecida e muitos judeus estavam l consolando as suas irms. Quando Maria viu
o mestre, lanouse sobre seus ps e chorou. Ao v-la chorar, bem como os judeus presentes, sua emoo mergulhou num profundo sentimento. Jesus chorou. Chorou ao
ver a dor, o destino e a fragilidade humana. O homem Jesus chorava ao ver as lgrimas dos homens. Somos muitas vezes insensveis  angstia dos outros, mas de seu
olhar nem mesmo escapava o sentimento de inferioridade de uma prostituta ou de um leproso. Ao chegar no lugar onde estava sepultado Lzaro, pediu que retirassem
a pedra da tumba. Aflita, Marta argumentou sensatamente que seu irmo j cheirava mal, pois havia falecido h quatro dias. Marta olhava para o mundo possvel; Jesus,
para o impossvel. Com uma segurana inabalvel, acalmou-a, dizendo que no temesse, mas apenas cresse.
18

#As Causas Sociais do Julgamento

Retirada a pedra, Jesus no foi analisar clinicamente seu amigo, no foi verificar a condio de seus rgos, nem muito menos se importou com o assombramento das
pessoas com sua atitude. Manifestando um poder incompreensvel, de quem est acima das leis da cincia, ordenou que Lzaro sasse para fora. Para perplexidade de
todos, um homem envolvido em ataduras sujeitou-se  sua ordem e saiu imediatamente ao seu encontro. Bilhes de clulas nervosas ganharam vida. Os arranjos eletrnicos
que organizam as informaes no crtex cerebral se reorganizaram. O sistema vascular se recomps. Os rgos foram restaurados, o corao voltou a pulsar, enfim,
a vida comeou novamente a fluir de todos os sistemas daquele cadver. Como isto  possvel? Nunca na histria, at os dias de hoje, um homem clinicamente morto,
cujo corao parou de bombear o sangue h vrios dias, recuperou a vida, a memria, a identidade e a capacidade de pensar, como no caso de Lzaro. Jesus era verdadeiramente
um homem, mas concentrava dentro de si a vida do Criador. Para ele no havia morte, tudo o que ele tocava ganhava vida. Que homem  este que faz atos que a medicina
nem em seus delrios sonha em realizar?

Retirando a pedra
H uma considerao a fazer nesta passagem. Ele fez um dos maiores milagres da histria. Contudo, antes de faz-lo, pediu para que os homens retirassem a pedra da
tumba. Se tinha tanto poder para ressuscitar um homem, por que no tinha poder para remov-la? Primeiro  necessrio tirar a pedra do medo, da insegurana, do desespero,
para que ele possa intervir.
19













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

Sem o crer do homem, sem sua cooperao, ele pode agir, mas raramente age. Para Jesus Cristo, o maior milagre no  a cura sobrenatural de um corpo doente, mas superar
o medo, a infelicidade e a ansiedade de uma alma doente.

A morte  o maior problema dos mortais
Os psiquiatras s conseguem ter determinado sucesso no tratamento de uma pessoa psiquicamente doente, porque os antidepressivos, ansiolticos e antipsicticos atuam
no metabolismo de um crebro vivo, pois num crebro morto no h nada para se fazer. Os mdicos dependem da existncia da vida para exercer sua profisso, com exceo
dos legistas. A medicina nasce quando o homem  concebido e morre quando ele falece. A maior derrota da medicina  a morte. Pelo desejo do mestre de Nazar, seu
amigo Lzaro saiu do caos cerebral para a plena sanidade. Muitos testemunharam este fato. Ser que este acontecimento poderia ser considerado um delrio coletivo?
No! O relato dessa passagem evidencia que Jesus no fez um discurso atuando na emoo das pessoas, no induziu o sonho e a fantasia humana. Alis, em todos os seus
atos sobrenaturais havia uma estrita economia de palavras e uma eloqncia dos gestos. Alm disso, ele resgatou a vida de Lzaro ante a desconfiana dos presentes.
A fama de Jesus, que j era enorme, se tornou incontrolvel depois que trouxe Lzaro  vida. Os lderes judeus, que j haviam tentado mat-lo sem xito, tentavam
conter a fama de Jesus, mas no tinham sucesso.
20













































































#As Causas Sociais do Julgamento

Desanimados, diziam uns para os outros: "eis que o mundo vai adiante dele"1. Ou os lderes judeus o eliminavam ou se rendiam a ele.

Os motivos sociais que levaram Jesus ao julgamento
Os comportamentos do mestre de Nazar incomodavam a todos que se preocupavam mais com a aparncia do que com a realidade, aqueles que tinham sede pelo poder e amavam
o individualismo. At seus discpulos ficavam incomodados com sua postura. Alguns deles clamavam para que ele no se ocultasse, que se manifestasse claramente ao
mundo. Gostariam de ver a cpula judaica e romana se dobrar diante dele. Desejavam ver o seu mestre no mais alto patamar social, acima de todos os homens, e quando
estivessem l, queriam desfrutar de sua posio. Entretanto, ele os chocava com seu comportamento. Apesar de ser to poderoso, queria ter o mais baixo status social.
Apesar de ser livre como nenhum homem, almejava ser um escravo da humanidade. No concebiam a idia de algum to grande gostar de se fazer to pequeno. Esqueceram-se
de sua origem, no se recordavam de que por se fazer to pequeno o mestre os alcanou. Uma nica vez aceitou estar acima dos homens, quando esteve pendurado na cruz
e se tornou um espetculo de vergonha e dor. Como pode uma pessoa que tinha tudo para ter todos os homens aos seus ps ter preferido estar aos ps do mundo?
21













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida


No conseguia ser ocultado
Jesus era um fenmeno social impossvel de ser ocultado. Embora preferisse uma vida simples, sem ostentao, ele no conseguia se ocultar. A cpula judaica tinha
medo de que Jesus pudesse ser encarado como um movimento revolucionrio contra Roma. Muitos movimentos sediciosos j tinham sido sufocados impiedosamente pelo imprio
romano, mas o "fenmeno" Jesus era, com certeza, o maior e o mais incontrolvel de todos. O mestre da vida no era apenas seguido por inmeras pessoas, mas causava
algo no territrio da emoo delas. Elas se apaixonavam por ele. Numa terra em que imperava o medo, a labuta social e as incertezas da vida, o amor floresceu como
na mais bela primavera. Homens ricos e pobres, cultos e iletrados, que nunca aprenderam as lies mais bsicas do amor, aprenderam a admirar e a amar um carpinteiro.
Muitos se remoam em seus leitos esperando os primeiros raios de sol para procurar aquele que lhes havia dado um novo sentido de vida. A relao afetiva que Jesus
tinha com a multido era insuportvel para a cpula judaica. Ficavam apavorados com a possibilidadedeumaintervenodeRomanosmovimentospopularesem tornodomestredeNazar.Perderiamseu
scargoseasbenessesdopoder quearelaocomoimpriolhespropiciava.Naquelapoca,atosumo sacerdoteeraeleitopelapolticaromana*. Contudo,noapenasomedodaintervenoromanaospreocupava.
Estudaremos que a inveja tambm os torpedeava. Nunca tiveram uma
* Josefo, Flvio, A histria dos Hebreus, Editora CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 1990)

22

#As Causas Sociais do Julgamento

pequena dose do prestgio de que o nazareno desfrutava. Outro assunto intragvel era que os lderes de Israel no podiam aceitar as acusaes que Jesus fazia contra
eles. Entretanto, o que mais os perturbava era o fato daquele simples homem se declarar o "Cristo", o ungido de Deus, o filho do Deus altssimo.

Criticando o falso moralismo dos fariseus
Jesus era um homem corajoso. Conseguia dizer o que pensava mesmo quando colocava sua vida em risco. Dizia que os fariseus limpavam o exterior do copo, mas no se
importavam com seu contedo. O mestre era delicado com todas as pessoas, inclusive com seus opositores, mas em algumas oportunidades criticou com contundncia a
hipocrisia humana. Disse que os mestres da lei judaica seriam drasticamente julgados, pois atavam pesados fardos para as pessoas carregarem, mas eles nem com um
dedo o suportavam2. Quantas vezes tambm no somos rgidos como os fariseus, exigindo das pessoas o que elas no conseguem suportar e nem o que ns mesmos conseguimos
realizar. Exigimos calma dos outros, mas ns somos impacientes, irritadios e agressivos. Pedimos tolerncia, mas ns somos implacveis, excessivamente crticos
e intolerantes. Queremos que todos sejam estritamente verdadeiros, mas ns simulamos nossos comportamentos, disfaramos nossos sentimentos. Desejamos que os outros
valorizem o interior, mas somos consumidos pela esttica social. Temos de reconhecer que s vezes damos excessiva ateno  esttica social, ao que as pessoas pensam
e falam de ns, mas no nos preocupamos com aquilo que corri nossa alma.
23













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

Podemos no prejudicar a outros com nosso farisasmo, mas nos autodestrumos por no intervirmos em nosso mundo, por no sermos capazes de fazer uma faxina em nossos
pensamentos negativos, inveja, cime, dio, orgulho, arrogncia, autopiedade.

Abalando os lderes de Israel com suas parbolas
Certa vez, o mestre foi convidado para comer na casa de um fariseu3. Era um sbado. Havia muitos convidados e todos o observavam. Estavam atentos para ver alguma
falha nele, principalmente se desrespeitaria o sbado curando algum. Como sempre acontecia, mais uma pessoa miseravelmente doente apareceu e mais uma vez ele abalou
a rigidez dos moralistas. Antes de fazer um milagre, fitou os convidados e perguntou-lhes se um filho ou um boi casse num poo em dia de sbado, se eles no o socorreriam
imediatamente. Ningum lhe deu resposta, ficaram emudecidos; alguns, envergonhados. O mestre da vida aproveitou a ocasio para contar-lhes mais uma parbola que
combatia frontalmente a necessidade compulsiva de prestgio e poder social. Como exmio contador de histrias, falou-lhes que se eles fossem convidados para um casamento
no deveriam procurar sentar-se nos primeiros lugares, para que vindo o noivo no os retirasse daquela posio para dar lugar a pessoas mais importantes que eles.
Estimulouos a procurarem o ltimo lugar, para que, quando viesse o que lhes convidara e pedisse para que se sentassem num lugar mais privilegiado, fossem honrados
diante dos demais convivas. Nesta mesma passagem, este brilhante contador de histrias foi mais longe. Dilacerou o individualismo, o
24













































































#As Causas Sociais do Julgamento

egocentrismo e a troca de favores que permeiam o consciente e o inconsciente humano. Abordou um princpio chocante que raramente  praticado, mesmo por aqueles que
se dizem hoje seus mais ardentes seguidores4. Pediu-lhes que quando preparassem um jantar no convidassem os poderosos, os ricos e os amigos, porque eles tm como
retribuir. Estimulou-os a convidar os cegos, os coxos, os aleijados e os pobres, pois eles no tm como dar qualquer retribuio. Segundo ele, a retribuio seria
dada por aquele que v em secreto, pelo Autor da vida. Desejava que cuidssemos dos aleijados, no apenas dos que tm o corpo mutilado, mas tambm dos que no conseguem
andar nesta turbulenta existncia. Almejava que ajudssemos os cegos, no apenas os que no enxergam com olhos, mas os que so cegos pelo medo, pela dor da depresso,
pelas perdas e frustraes. Quem ama as pessoas desprezadas como ele amou? Quem acaricia os humildes de nossa espcie e os honra como seres humanos mpares? Quem
empresta seu tempo, sua ateno, sua emoo para aquecer os feridos de alma? Com suas palavras simples e profundas o mestre golpeou drasticamente no apenas os fariseus,
mas todos ns. O egosmo, o orgulho e o individualismo so "vrus" da alma que nunca morrem. Voc pode control-los, mas nunca elimin-los. Se no os combater continuamente,
eles um dia eclodiro sorrateiramente, infectando nossa emoo e nos distanciando paulatinamente das pessoas.

Um amor que valoriza cada ser humano
O Mestre se preocupava com todas as pessoas que sofriam.
25













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

O amor que tinha por elas o incomodava. Ele gastava tempo procurando aliviar suas dores, resgatar sua auto-estima, estimulando-as a no desistir da vida. Desejava
ardentemente que cada pessoa no se sentisse inferior diante do desprezo e das dificuldades sociais que viviam. A emoo do mestre era imensurvel; a dos fariseus,
estreita. Se algum almejasse ser seu discpulo, tinha de alargar os horizontes do seu pequeno mundo e incluir as pessoas, tinha de se deixar ser invadido por um
amor que o impelisse a cuidar delas. Cristo dizia que os sos no precisavam de mdicos. Os fariseus, embora estivessem doentes em sua alma, se consideravam abastados,
plenamente sadios, portanto no precisavam dele. Para o mestre, o importante no era a doena do doente, mas o doente da doena. O importante no era o quanto as
pessoas estavam doentes, o quanto erraram ou estavam deprimidas e angustiadas, mas o quanto elas reconheciam suas misrias emocionais. Os que tinham coragem para
reconhecerse doentes, sentiam mais o calor do seu cuidado. Os moralistas, por serem auto-suficientes, nunca se aqueceram com as chamas de sua emoo.

Princpios que ultrapassam o sonho de todo humanista
Ningum estabeleceu princpios humansticos e elevou a solidariedade a degraus to altos como o mestre dos mestres da escola da vida. Nem os filsofos que usaram
o mundo das idias para combater frontalmente as injustias humanas se preocuparam
26













































































#As Causas Sociais do Julgamento

tanto com a dor humana. Nem o mais humano dos capitalistas, que divide os lucros das suas empresas com seus funcionrios e usa parte dos seus bens para fazer doaes
sociais, foi to longe em honrar as pessoas mais desprivilegiadas. At mesmo os idelogos marxistas no atingiram patamares to altos em seus devaneios humansticos.
Ele criticava contundentemente a falta de humanidade dos fariseus e dos mestres da lei. Opunha-se ao julgamento preconcebido que faziam das pessoas,  arrogncia
deles; mas sua crtica no era grosseira, mas suave. Ele usava simples e sbias parbolas para os incentivar a pensar e reciclar os fundamentos de suas vidas. Os
fariseus lavavam as suas mos antes de comer, mas aceitavam que o lixo psicolgico entulhasse suas vidas. Eram ousados em apontar o dedo para os erros dos outros,
mas eram tmidos para reconhecer suas prprias fragilidades. Todos os que no tm coragem para apontar o dedo para si mesmos nunca corrigiro as rotas da sua histria.

Um homem na contramo de todos os paradigmas religiosos
A cpula judaica considerava-se representante de Deus na terra. Os assuntos de Deus eram a especialidade deles. Com a chegada de Jesus, todos deveriam estar extasiados,
alegres e dispostos a servi-lo e a abandonar todos os preconceitos religiosos. Entretanto, como poderiam servir a um Cristo que nasceu num estbulo e cresceu numa
cidade desprezvel, fora da esfera dos doutores da lei? Como poderiam ser ensinados por um Cristo que se escondeu na pele de um carpinteiro e tinha as mos grossas
oriundas de um trabalho pesado? Como poderiam amar
27













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

e se envolver com algum que era amigo de pecadores, que acolhia as prostitutas e jantava na casa dos malditos coletores de impostos? No conceito dos fariseus da
poca, o filho do Altssimo deveria ter nascido em Jerusalm, em bero de ouro, ter a pele rosada, no se misturar com a plebe nem se envolver com pecadores. Jesus
era a anttese de tudo que imaginavam sobre o Cristo. No podiam se dobrar aos ps de um homem que os combatia dizendo que eles procuravam os primeiros lugares nos
jantares e nas sinagogas e faziam longas oraes com o objetivo de serem elogiados pelos homens5. Por todos estes motivos, o mestre de Nazar era drasticamente rejeitado
pela cpula judaica. Ele literalmente atordoava os sacerdotes e todos os partidos de Israel: os fariseus, os saduceus e os herodianos. Cada vez que Jesus abria a
boca, perturbava o sono da cpula judaica. Embora, em alguns momentos, os membros desta cpula o admirassem e ficassem confusos com sua sabedoria, o consideravam
autor da maior heresia que algum j proferira na face da terra. No podia ser ele o Cristo, este teria de combater Tibrio e todo o imprio romano e no eles, os
zelosos da religio judaica. Diante de tal blasfmia, os lderes de Israel decidiram que ele tinha de morrer rapidamente. Por isso, como estudaremos, o seu julgamento
foi acelerado. Muitos dos que estudam o julgamento de Cristo no tm noo da seqncia dos eventos e da rapidez com que eles aconteceram. Os lderes judeus tentaram
mat-lo anteriormente, mas falharam. Agora ele estava famoso demais. A multido tinha de ser pega de surpresa e o nus da sua morte tinha de recair sobre a poltica
romana. Como fazer isto? Uma tarefa dificlima. Uma
28













































































#As Causas Sociais do Julgamento

grande revolta poderia acontecer. Ento, Jesus, para a nossa surpresa, facilitou este processo. Foi ao Jardim do Getsmani se entregar sem qualquer tumulto. A cpula
judaica desejava mat-lo, mas ela jamais imaginava que ele tambm tinha um desejo ardente de morrer. Veremos que ele no fez literalmente nada para se safar do seu
julgamento injusto, humilhante e torturante. Nunca os homens tiveram tanto desejo de matar uma pessoa sem saber que ela mesma estava to disposta a morrer. Jamais
se teve notcia de um homem to feliz e socivel, que contemplava os lrios dos campos e se colocava como a fonte do prazer humano, que desejasse atravessar a mais
humilhante e sofrida travessia da morte! Sem dvida, ele teve a personalidade mais interessante e intrigante da histria.

29













































































#

















































































































CAPTULO 2

O MESTRE DA VIDA PARALISANDO OS SOLDADOS

#O Mestre da Vida Paralisando os Soldados


Perturbando os soldados
As tentativas fracassadas para prend-lo no eram apenas devido ao assdio da multido, mas tambm porque ele era um ru incomum, algum que confundia at os soldados
incumbidos de prend-los. Certa vez, a cpula judaica enviou uma grande quantidade de soldados para aprision-lo. Era uma grande festa judaica. No ltimo dia da
festa, mesmo sob o risco iminente de ser preso, Jesus levantou-se e mais uma vez deixou estarrecidos todos seus ouvintes. Nem os soldados escaparam de ficar boquiabertos.
Maravilhados, os soldados no conseguiram prend-lo. Comentei no livro "Mestre dos Mestres" que a Psiquiatria, com todo arsenal antidepressivo, trata das depresses
e dos demais transtornos emocionais, mas no sabe como fazer o homem feliz. O mestre nesse discurso comentou altissonante que ele poderia gerar um prazer pleno no
homem que nele cresse, um prazer que fluiria do cerne do esprito e da alma humana. Nas sociedades modernas, a indstria do entretenimento
33

#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

expressa pelo cinema, shows, turismo, esportes, parques de diverses,  um dos setores que mais cresce no mundo. Porm, um paradoxo salta aos olhos. Nunca tivemos
uma indstria de entretenimento to grande e um homem to triste, propenso ao stress e a diversas doenas psquicas. O homem moderno tem picos de prazer, mas no
tem uma emoo estvel, contemplativa e feliz. Qual  o termmetro da qualidade de vida no mundo atual? A Psiquiatria. Quanto mais importante for a psiquiatria nas
sociedades modernas mais os indicadores apontam que nossa qualidade de vida est piorando. Infelizmente, nossos consultrios esto cheios. A psiquiatria e a psicologia
clnica tero grande importncia no terceiro milnio, pois teremos um homem cada vez mais doente, um homem que gerencia mal seus pensamentos e protege inadequadamente
sua emoo diante dos estmulos estressantes O discurso de Jesus sobre o prazer pleno se confronta com o alto ndice dos transtornos emocionais da atualidade. Os
soldados ficaram petrificados. Voltaram de mos vazias. Os que os enviaram ficaram indignados ao ouvi-los dizer que no o prenderam porque "nunca algum falou como
este homem"6. No pra por aqui o choque que esses soldados levaram. A noite em que foi preso foi coroada de eventos surpreendentes. Os soldados ficaram paralisados
diante do suposto criminoso. Vejamos os eventos.

O traidor e a escolta
O discpulo traidor veio com uma grande escolta que portava lanternas e tochas. A escolta era composta de uma "coorte"7. Uma coorte romana contm cerca de trezentos
a
34













































































#O Mestre da Vida Paralisando os Soldados

seiscentos homens. Era uma quantidade grande de soldados para prender apenas um homem. Mas o fenmeno Jesus justificava. Os soldados esperavam peg-lo desprevenido.
Mas foi ele quem os surpreendeu. Antecipando-se aos fatos, despertou seus amigos dizendo-lhes que havia chegado a hora de ser preso. Horas antes, na ltima ceia,
o mestre disse que um dos discpulos iria tra-lo. No citou seu nome, pois no gostava de constranger e expor ningum publicamente. Quando Jesus fez referncia
ao traidor, Judas teve uma oportunidade de ouro para refletir e se arrepender, mas ele no conseguia enxergar com os olhos do corao. Todavia, percebendo-lhe a
mente incauta, o mestre teve uma atitude ousada. Ao invs de censur-lo disse-lhe para fazer depressa o que tencionava8. Traindo seu mestre pelo preo de um escravo,
Judas combina entreg-lo. Tomou a frente da escolta e dirigiu-se ao jardim onde ele estava. Aqui h um fenmeno subjacente que precisamos compreender. Era de se
esperar que o traidor se protegesse atrs dos soldados e, sob a luz das tochas e lanternas, apontasse de longe quem ele estava traindo. Judas, embora estivesse cego,
tateava o amor do seu mestre. Sabia que ele era to dcil que no corria risco algum se estivesse  frente da escolta. Tal reao acontece ainda hoje. Mesmo os que
hoje rejeitam Jesus Cristo, quando dele se aproximam, quando lem suas biografias, percebem que ele no oferece risco algum para suas vidas. O nico risco  o de
ser contagiado pelo seu amor. A escolta de soldados no conhecia a amabilidade e gentileza de Jesus, s sabiam que tinham a misso de prender aquele que magnetizava
as multides e "perturbava" a nao de Israel.
35













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

J analisei diversos tipos de personalidade, inclusive a de grandes homens da histria. Nessas andanas analticas pude constatar que as pessoas, ainda que sejam
ilustres polticos, artistas, esportistas ou intelectuais, so comuns e previsveis. O mestre de Nazar era totalmente incomum e imprevisvel. Ele era capaz de surpreender
quando menino, quando adulto, quando livre, quando preso, quando julgado, quando crucificado e at quando seu corao, falido, batia pela ltima vez e seus pulmes
combalidos emitiam um brado inesperado. A sua priso tem diversos eventos inusitados. Se pegarmos os textos dos quatros evangelhos e os sobrepormos, poderemos conferir
que os soldados, no ato de sua priso, ficaram extasiados com vrios fatores. Os eventos foram to atordoantes que eles caram literalmente por terra ao dar voz
de priso a Jesus. Em psicologia, a arte de interpretar  a arte de se colocar no lugar do outro e ver o mundo com seus olhos, com as variveis que o envolvem, embora
toda interpretao tenha limites. Vamos nos colocar no lugar dos soldados e na perspectiva deles vamos observar as cenas, os gestos de Judas e as palavras de Jesus.

Trado com um beijo
Comentei o beijo de Judas no primeiro livro da coleo. Ao ler esse texto, um leitor procurou-me dizendo que tinha aprendido uma grande lio com essa leitura. Comentou
que tinha um inimigo e que freqentemente pensava em mat-lo. Entretanto, ao ver a atitude de Jesus diante do seu traidor, ficou to sensibilizado que ocorreu uma
revoluo na sua maneira de pensar a vida. Procurou este inimigo, apertou-lhe a mo e o
36













































































#O Mestre da Vida Paralisando os Soldados

perdoou. A conseqncia imediata  que ele desacelerou seus pensamentos, reciclou suas idias negativas e desentulhou sua emoo. Deste modo, resgatou novamente
o prazer de viver. Como disse: a pior vingana que fazemos aos inimigos  perdo-los, pois perdoando-os nos livramos deles. Apesar de ter comentado o beijo de Judas
no primeiro livro, gostaria de retom-lo sinteticamente e abord-lo sob a possvel tica daqueles que estavam incumbidos de prender o mestre de Nazar.  estranho
ter sido trado com um beijo. Algumas tradues dizem que Judas o beijou afetuosamente. A escolta de soldados precisava de uma senha, mas provavelmente no raciocinara
no enigma que ela trazia. Os soldados s foram cair em si depois que o fato ocorreu. Viram Judas beijar afetuosamente aquele que era considerado o mais perigoso
homem para Israel. Ficaram pasmados, no imaginavam que o agitador da nao fosse to dcil. Muito menos Judas, que devia se conhecer muito pouco, tinha conscincia
do motivo pelo qual deu esse cdigo de identificao para consumar sua traio. Se acordasse para a dimenso desse cdigo, talvez retrocedesse. Judas no poderia
tra-lo com injrias e nem difamao, pois seu mestre s sabia amar e se doar. Talvez, um dia, se formos trados por algum, nossos traidores tenham argumentos para
nos atacar e usem uma senha mais grosseira para nos identificar. Mas o mestre do amor era inatacvel. S um beijo poderia identific-lo.

Tratando com amabilidade o seu traidor
A atitude tranqila do mestre da vida no era a esperada
37













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

para uma pessoa que estava sendo trada e nem na iminncia de ser presa. Os soldados no estavam entendendo o que estava acontecendo. Esperavam indignao e revolta
de Jesus para com seu traidor, mas viram um beijo, momentos de silncio e reaes de amabilidade. Parecia mais um encontro de amigos. E era. Por Jesus, Judas ainda
era considerado um amigo. Ns freqentemente rompemos com as pessoas. As frustraes que elas nos causam ferem mortalmente nosso encanto por elas. O homem que dava
a outra face no tinha inimigos. A atitude do mestre no era a de um pobre coitado, mas a de um homem indescritivelmente forte, algum que sabia proteger sua emoo
e arejar as reas mais ntimas de seu inconsciente. Jesus encontrou a liberdade jamais sonhada pela psiquiatria. Com um desprendimento inimaginvel, chamou seu traidor
de amigo no ato da traio e deu-lhe mais uma preciosa oportunidade para refazer a sua histria9. Cristo nunca descarregava em ningum as suas angstias. Momentos
atrs a sua alma gemia de dor. Minutos atrs, seus pulmes respiravam ofegantes, seu corao estava taquicrdico, os sintomas psicossomticos perturbavam seu corpo
e o suor sanguinolento testemunhava que estava no topo do stress. Tinha, portanto, todos os motivos para descarregar sua tenso em Judas, mas foi de uma gentileza
potica com ele. Diferente dele, freqentemente descarregamos nossas tenses nas pessoas que menos tm culpa por nossa ansiedade. Quando nossa frgil pacincia se
esgota, ferimos as pessoas que mais amamos. A histria registrou um momento raro no ato da traio de Judas: uma cena de terror se transformou numa cena de amor.
Ao contemplar a cena, os soldados no entenderam nada do que estava acontecendo.
38













































































#O Mestre da Vida Paralisando os Soldados


Insistindo para ser preso
Outro fato incomum que abalou os soldados  que Jesus insistiu para ser preso, um fato quase que inacreditvel. A escolta sabia que uma voz de priso gera tumulto
e ansiedade. O ru resiste em se entregar, fica tenso, agressivo e, s vezes, incontrolvel. No conseguia entender, contudo, porque o homem odiado pela cpula judaica
se entregava com tanta tranqilidade e espontaneidade. Aps ouvir Jesus chamar Judas de amigo e lev-lo a refletir sobre o ato de traio, ele se volta aos prprios
soldados e, antes que eles o tocassem, perguntou "A quem buscais?"10. Responderam: "a Jesus, o Nazareno". Diante desta resposta, ele se identificou: "Sou eu". Os
soldados ficaram atemorizados com sua resposta, alguns caram no cho. Talvez se perguntassem: Como  possvel que o homem que curou cegos, ressuscitou mortos e
debateu com os fariseus nas sinagogas esteja se entregando voluntariamente? Como pode algum sob o risco da morte se entregar dessa maneira? Prender aquele que alvoroava
Jerusalm parecia ser uma tarefa difcil e perigosa, mas se transformou na mais suave execuo. Ficaram paralisados. No conseguiram pr as mos nele. Diante da
inrcia deles, Jesus insistiu: "a quem procurais?". Responderam novamente: "A Jesus, o Nazareno". Com ousadia de quem no teme a morte, respondeu: "J vos declarei
que sou eu" 11. O relato dos discpulos que presenciaram a cena evidencia que os papis foram trocados. A escolta de soldados estava presa pelo medo e o prisioneiro
estava livre.
39

#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

 exceo da profunda angstia que o mestre dos mestres teve no jardim do Getsmani, gerada porque ele reproduziu o clice da cruz no palco de sua mente e se preparou
para tomlo, nada o abalava. O mestre de Nazar gerenciava sua inteligncia nas mais turbulentas situaes, navegava nas guas mais agitadas da emoo. Sabia se
refazer rapidamente, mesmo profundamente frustrado. A traio de Judas e a negao de Pedro podem t-lo angustiado, mas logo ele se recomps. Nem o conhecimento
prvio de todas as etapas do seu martrio o fez sucumbir nas raias do medo. H muitas pessoas que sofrem por antecipao. Imaginam problemas que no aconteceram
e sofrem como se j tivessem acontecido. No sabem gerenciar sua ansiedade e pensamentos antecipatrios. Nada  to bela e, ao mesmo tempo, to ingnua quanto a
emoo. At intelectuais tropeam no territrio da emoo como se fossem crianas. Pequenas coisas so capazes de roubarlhes a tranqilidade. Ela compra com alto
preo todos os pensamentos negativos, mesmo aqueles que s cabem no imaginrio. Infelizes so os homens que so livres por fora, mas esto encerrados no crcere
da emoo conduzidos pelo medo da crtica, com a necessidade de ter uma imagem social inatacvel e com as preocupaes excessivas com os problemas da vida. Infelizmente,
no lugar que mais deveramos ser livres, muitas vezes estamos presos*. O mestre da vida queria passar pelo maior de todos os testes: ser julgado pelos lderes da
religio judaica, aqueles que
* Cury, Augusto J., A Pior Priso do Mundo, Editora Academia de Inteligncia, So Paulo, 2000.

40













































































#O Mestre da Vida Paralisando os Soldados

supostamente cuidavam dos assuntos de Deus, e por aqueles que dominavam o mundo, o imprio romano.

Protegendo seus discpulos
No terminaram a os eventos inusitados ocorridos no ato da priso. Aps insistir com os soldados para prend-lo, teve um gesto de grande nobreza e afetividade.
Intercedeu pelos seus discpulos. Pediu que no os prendessem. Desejava que nenhum deles se perdesse, no aceitava que ningum fosse ferido12. Quando estamos debaixo
de um srio risco de vida, os instintos prevalecem sobre a capacidade de pensar. No h espao para refletir sobre a situao que nos ameaa. Notem que sob grande
tenso, tais como nos acidentes, no nos lembramos das pessoas e de muitos eventos que ocorreram ao nosso redor. Afunilamos a razo e direcionamos nossos instintos
para a fuga ou, em alguns casos, para a luta. Com Jesus isso no acontecia. Ele conseguia perceber os sentimentos das pessoas mesmo nas situaes turbulentas. Conseguia
pensar no bem estar delas mesmo sabendo que estava para morrer lentamente nas mos dos seus inimigos. Se tivssemos um pouco da sua estrutura emocional, as relaes
humanas deixariam de ser um deserto para ser um jardim. Somente uma pessoa que vive o topo da serenidade  capaz de no travar sua mente nas situaes tensas e de
se preocupar com as pessoas que o rodeiam. Os soldados certamente no acreditavam no que estava acontecendo. Alguns deles devem ter sido capturados pelo amor de
Cristo e se tornaram seus seguidores aps a sua morte.
41













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida


O herosmo de Pedro e a proteo aos soldados
Os discpulos no compreendiam plenamente o homem que seguiam. Sabiam que ele era poderoso, sbio, seguro, corajoso, que se colocava como filho de Deus e que discursava
sobre um reino de um outro mundo. Tudo era novo para eles. Sabiam que seguiam um homem que fazia atos inimaginveis, mas no compreendiam at aquele momento quem
ele era e qual a sua verdadeira misso. Pedro aprendeu a amar Jesus e no aceitava a sua partida. No percebeu que, ao ser preso, assumiu plenamente a condio humana
e que no faria mais nenhum dos seus milagres. Jesus sempre confundiu a todos que passavam por ele. Seus discpulos viviam perguntando quem ele era. Algumas vezes
mostrava um poder que deixava todos embasbacados, outras vezes dormia ao relento e, ainda outras, gastava tempo penetrando na histria de uma pessoa considerada
da pior estirpe social. Por amar Jesus, mas no conhec-lo com profundidade, Pedro resolveu proteg-lo. Teve um ato de herosmo que poderia ter gerado inmeras mortes,
tanto dos soldados como dos discpulos. Numa reao impensada, desconsiderou as longas mensagens de tolerncia do seu mestre, desembainhou a espada e decepou a orelha
de um dos soldados. Pedro esperava que Jesus fizesse mais um dos seus milagres, capaz de livr-lo daquela priso e deixar a todos perplexos. Jesus, que demonstrava
no desejar fazer milagres, para aplainar os nimos, abre uma exceo, retoma o seu poder. Numa reao apressada, cura o soldado. No fez um grande milagre, apenas
o suficiente para pacificar a situao. Um grande ato
42

#O Mestre da Vida Paralisando os Soldados

sobrenatural poderia evitar que fosse preso, mas ele queria ser preso, a sua hora havia chegado. Nesta situao confusa  possvel vermos a sabedoria e habilidade
do mestre de Nazar. Se no agisse rpido, seus discpulos poderiam morrer e os soldados poderiam se ferir. Como mestre da vida, no queria nem uma coisa nem outra.
Somente uma pessoa com grande lucidez e uma viso multifocal dos conflitos sociais  capaz de debelar rapidamente o clima de violncia. O prisioneiro j liderava
os soldados. Mais de trezentos homens fortemente armados no revidaram  agressividade de Pedro. Comandados por Jesus, eles contiveram seus impulsos. Raramente uma
pessoa  capaz de deixar completamente sua segurana de lado para gerenciar os nimos alheios.

Morrer era seu destino: o clice
Aps reger os soldados, ele se volta para Pedro e acha tempo para lhe dar mais uma lio. Disse-lhe uma frase impactante, que Pedro s entenderia tempos mais tarde:
"No beberia eu o clice que meu Pai me deu?"13 O clice de Cristo era cercado de mistrio. Os discpulos no entendiam que por um lado ele seria julgado e morto
pelos homens, mas, por outro, isso estava nos planos de seu Pai. Que Pai  este que permite o caos do seu filho? Que plano  esse que envolve um julgamento e morte
to drstica? No final deste livro estudaremos o maior e mais ambicioso plano da histria. Por mais que os discpulos abrissem seus ouvidos e as janelas de suas
mentes no concebiam a idia de que seu mestre
43













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

fosse julgado, torturado e morto pelos seus opositores. Jesus havia dado sentido a suas vidas. O sentimento angustiante pela perda do mestre tinha fundamento. No
importa a religio que algum segue ou mesmo se no segue classicamente nenhuma, todos os que se aproximaram das chamas, seja por estar na sua presena ou por ler
as suas biografias ou evangelhos, conseguiram atravessar seus invernos existenciais mais aquecidos e enxugar suas lgrimas com a esperana.Na histria, mesmo depois
de sculos de sua partida, sempre existiram homens, originrios de todas raas e culturas, dispostos a dar a sua vida por ele e por sua causa. Pedro era muito frgil
perto de Cristo, no tinha nenhuma condio de proteg-lo, ainda mais diante de to grande escolta. Sua reao, embora irracional, era justificada. Para os discpulos,
perd-lo era retornar ao mar da Galilia, lanar as redes e retroceder na compreenso dos mistrios da vida... O amor recusa a solido. Quem ama no aceita a perda,
ainda que o tempo alivie parcialmente a dor da ausncia. Quem no aprendeu a amar a sua vida, as pessoas que o rodeiam e aquilo que faz no entender a linguagem
estranha e bela do amor. O mestre ensinou aos seus frgeis discpulos os fundamentos dessa linguagem. Perd-lo era ficar sem o leme de suas vidas.

44













































































#

















































































































CAPTULO 3

O PODEROSO E DCIL: UM EXMIO PSICOTERAPEUTA

#O Poderoso e Dcil: Um Exmio Psicoterapeuta


Um poder descomunal
Os eventos enigmticos que nortearam a priso de Jesus ainda no acabaram.O mais misterioso deles ainda estava por vir. Aps revelar a Pedro que ele tinha de ser
preso, comentou que no precisava de sua proteo. Numa frase intrigante revela um segredo aos discpulos que eles no conheciam. Disse: "Acaso pensasquenopossorogaraomeuPai,eelem
emandarianestemomento maisdedozelegiesdeanjos?"14. Disse sem meias palavras que, se quisesse, poderia ter imediatamente sob seu controle mais de doze legies de
anjos. No exrcito romano cada legio tem cerca de trs a seis mil soldados. Quantos anjos compem cada legio que Cristo mencionou e qual o poder que esses anjos
tm para atuar no mundo fsico? Ele era de fato misterioso. Quando interpretamos a personalidade de algum devemos dar ateno quilo que as pessoas pouco do valor.
A frase que Jesus disse tem vrias implicaes. Ela indica que ele tem um poder descomunal, um poder
47

#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

muito maior do que demonstrara ter e muito maior do que os discpulos desconfiavam que tivesse. Tambm indica que ele atuava num mundo no fsico e que se quisesse
poderia controlar um enigmtico exrcito de anjos. Ainda indica que, se desejasse, poderia terminar a qualquer momento o seu julgamento, as sesses de tortura e
a sua crucificao. No original grego, Jesus usa nesta passagem termos militares para demonstrar seu poder. Nenhum mortal poderia proferir uma frase como esta com
tanta convico a no ser que estivesse delirando, tendo um surto psictico. Jesus poderia estar delirando? Como pode algum to lcido, coerente, inteligente, que
superava as intempries como se fosse um maestro da vida estar tendo um surto psictico? Cristo em momento algum abandonou a sua lucidez. Estudaremos no livro posterior
algo que beira ao impossvel. Mesmo morrendo, quando todas as suas foras se esgotavam, ele ainda era ntimo da sabedoria e capaz de desferir golpes impensveis
de inteligncia. Era to sereno que, como vimos, dois ou trs minutos antes de comentar seu poder, teve os gestos que nem os mais ilustres pensadores conseguiriam
ter no foco de tenso que passou. Chamou seu traidor de amigo e deu-lhe oportunidade para que ele corrigisse os pilares de sua vida. Este homem to lcido e que
acabou de receber voz de priso disse que tinha sob seu controle exrcitos incomparavelmente mais fortes do que os do imperador romano. Apesar de fazer tal afirmao,
ele disse que se esquivava de uslo. Quem pode compreend-lo? No perdemos a oportunidade de mostrar nosso poder. Jesus, ao contrrio, aproveitava as oportunidades
para ocult-lo. Cristo no falou de anjos de maneira misticista, mas segura
48













































































#O Poderoso e Dcil: Um Exmio Psicoterapeuta

e sem alardes. No disse que cria em anjos, mas que legies de anjos se submetiam a ele. Embora respeite a crena das pessoas, independente de quem seja e do que
cr,  criticvel o misticismo que desrespeita a capacidade de pensar e a conscincia crtica. Temos uma tendncia a crer em tudo sem respeitar a nossa prpria inteligncia.
O mestre dos mestres sempre valorizou a inteligncia humana e estimulou seus discpulos a alargar os horizontes do pensamento e no restringi-los. Devemos nos perguntar:
Quem so esses seres chamados anjos? Eles possuem conscincia? Tm vontade prpria? Vivem emoes? Como lem a memria e constroem cadeias de pensamentos? Quando
foram criados? Por que foram criados? Onde habitam? Que essncia os constitui? So imortais? Qual  o seu poder e que habilidade tm para atuar no mundo fsico?
No quero entrar nesta seara, mas essas questes evidenciam que os fenmenos que envolviam a histria de Jesus eram um poo de mistrios. Ningum que estuda a sua
personalidade pode reclamar de tdio. A cada reao ele nos deixa embaraados. Aps corrigir a Pedro, ele se volta para os soldados e com segurana comenta que no
era preso como um criminoso. Relata que estava diariamente disponvel no templo e em tantos outros lugares pblicos. Assim disse saber que seus inimigos o procuravam,
que no tinha medo de ser preso e que no ofereceria resistncia no ato da priso. No momento em que mais precisava usar a fora, ele usa o dilogo.  impossvel
no esfregarmos as mos na cabea e nos perguntarmos: Quem  este homem que atravessou as pginas da histria e fez tudo ao contrrio do que temos feito?
49













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida


Um exmio psicoterapeuta
Ao se entregar e ser manietado, seus discpulos perceberam o inevitvel. Seu mestre de fato viveria o martrio sobre o qual sempre os alertou. Nada o faria desistir
do seu destino, "nem os exrcitos dos cus" que disse que teria sob seu comando. Ento, eles se dispersaram amedrontados e confusos, como ovelhas sem pastor. Exatamente
como Jesus havia predito. Precisamos fazer algumas consideraes importantes sobre este assunto. Como ele conseguiu prever a disperso dos discpulos? Do ponto de
vista da sua humanidade, ele analisava o comportamento humano e percebia as dificuldades do homem em lidar com suas emoes nos focos de tenso. Ele sabia que quando
o mar da emoo estava calmo, o homem era um bom navegante, mas quando estava agitado, ele perdia o controle das suas reaes. De fato, no h gigantes no territrio
da emoo. Pessoas sensatas e lcidas tm seus limites. Sob um foco de tenso, muitas perdem sua sensatez. Alguns so seguros e eloqentes quando nada os contraria,
mas sob o calor da ansiedade, se comportam como meninos. O mestre da vida era um excelente psiclogo. Sabia que o medo controlaria o territrio de leitura da memria
dos seus discpulos, dissipando a lucidez e travando a capacidade de pensar. No exigiu nada deles quando ele foi preso, apenas previu que, quando o medo os envolvesse,
eles se esqueceriam dele, fugiriam inseguros. Ns exigimos o que as pessoas no podem nos dar. Quase todos os dias, tenho longas conversas com maridos, esposas,
pais, filhos, pedindo para ser tolerantes, no conservarem mgoas e raivas uns dos outros, explicando que no  possvel dar o que se no tem.  necessrio plantar
para depois colher.
50

#O Poderoso e Dcil: Um Exmio Psicoterapeuta

Plantar diariamente a segurana, a solidariedade, a honestidade, a perseverana, a alegria nos pequenos detalhes da vida, a capacidade de expor e no impor as idias,
para muito tempo depois colher essas funes nobres da inteligncia. Se esperasse muito dos seus discpulos, ele se frustraria excessivamente com o abandono deles,
com a traio de Judas e a negao de Pedro. Neste caso, poderia desistir do seu martrio. Entretanto, educava-os, mas no esperava resultados imediatos. Quem quer
ser um bom educador tem de ter a pacincia de um agricultor. Se quisermos ter dias felizes no devemos esperar resultados imediatos. s vezes, educamos nossos filhos
com o maior carinho e eles nos frustram com seus comportamentos, parece que tudo que ensinamos foram como sementes lanadas em terra rida. Mas sutilmente, sem percebermos,
essas sementes um dia eclodem, criam razes, crescem e se tornam belas caractersticas de personalidade. O mestre da vida entendia os limites das pessoas, por isso
amava muito e exigia pouco, ensinava muito e cobrava pouco. Esperava que o amor e a arte de pensar florescessem pouco a pouco no terreno da inteligncia. Por dar
muito e exigir pouco, ele protegia sua emoo, no se decepcionava com as pessoas quando elas o frustravam e nem as sufocava com sentimento de culpa e incapacidade.
Por que predisse que seus discpulos o abandonariam no momento mais angustiante de sua vida? Disse que eles o abandonariam para proteg-los contra o sentimento de
culpa, de incapacidade, de auto-abandono que surgiriam momentos depois que refletissem sobre suas fragilidades. Ele se preocupava no apenas com o bem estar fsico
dos discpulos, mas queria que eles no desistissem de si mesmos quando fracassassem.
51













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

Tal comportamento evidencia a face de Jesus como psicoterapeuta. No era apenas um mestre, um mdico, um amigo, um educador e um comunicador do mais alto nvel,
mas era um excelente psicoterapeuta. Ele conseguia prever as emoes mais sutis e angustiantes dos seus discpulos antes delas se encenarem no palco de suas mentes,
e dava-lhes subsdio para que as superassem quando surgissem. Quantos se suicidam como Judas, por estarem decepcionados consigo mesmos? Quantos, diante dos erros,
se envergonham e retrocedem em sua caminhada? Quantos no se esmagam com sentimento de culpa e vivenciam crises depressivas diante das suas falhas? Jesus sabia que
o homem  o pior carrasco de si mesmo. Por isso, estava sempre querendo tornar leve o fardo da vida, libertar a emoo do crcere. Ningum que andava com o mestre
de Nazar vivia se martirizando. At uma prostituta sentia-se aliviada ao seu lado. Algumas derramavam lgrimas sobre ele, por trat-las com tanto amor, por dar
continuamente uma oportunidade a elas. Ser que as pessoas se sentem aliviadas ao nosso redor? Ser que lhes damos condies para que elas rasguem a sua alma e nos
contem seus problemas? No poucas vezes, ao ver a queda das pessoas, as criticamos ao invs de ajud-las a se levantar. O mais excelente mestre da emoo sabia que
seus discpulos o amavam, mas ainda no tinham estrutura para vencer o medo, o fracasso, as perdas. Previu que eles o abandonariam para que eles conhecessem a si
mesmos e compreendessem suas limitaes. Fossem fortes aps as derrotas. O comportamento de Jesus mais uma vez concilia caractersticas quase que irreconciliveis.
Ele demonstrou ter um poder incompreensvel, capaz de arregimentar exrcitos de
52













































































#O Poderoso e Dcil: Um Exmio Psicoterapeuta

anjos. O que podemos esperar de uma pessoa to forte? Autoridade, julgamento, rigidez, imposio de normas, crtica contundente aos erros. Todavia, eis que nele
encontramos afetividade, tolerncia, compreenso das falhas, gentileza e ausncia de cobranas.  horrvel conviver com algum disciplinador e que quer que todos
vejam o mundo apenas com seus olhos, mas  agradvel conviver com algum malevel, capaz de enxergar com os olhos dos outros. A personalidade de Jesus  encantadora.
Raramente algum que esteve no topo do poder desceu para perscrutar os sentimentos mais ocultos do ser humano.Quem quisesse ser um discpulo de Jesus, jamais poderia
se diplomar na vida e nem desistir de si mesmo. O mestre da vida no procurava gigantes nem heris, mas homens que tivessem a coragem de levantar-se aps cair, de
retomar o caminho aps fracassar.

Perdoando-os antes do fracasso
Raramente uma pessoa presta ateno aos detalhes que norteiam o comportamento de Jesus Cristo. Seu cuidado afetuoso era fascinante. Ele j os estava perdoando antes
mesmo que eles fracassassem. Quem  que abandonado  capaz de ter nimo para cuidar daqueles que o abandonaram? Uma ofensa causada por um filho ou uma frustrao
gerada por um amigo ou colega de trabalho nos irrita e a conseqncia imediata  a impacincia. Quantas vezes dissemos: "Essa pessoa no tem jeito mesmo!". Certa
vez, o mestre disse aos seus discpulos que se uma pessoa errasse e viesse pedir-lhes perdo, eles deveriam perdo53













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

la. Se ela viesse no mesmo dia e errasse sete vezes e as sete vezes pedisse perdo, as sete vezes deveriam ser perdoadas. Outra vez disse que deveramos perdoar
as pessoas setenta vezes sete. Na verdade queria dizer que devemos perdoar sempre, continuamente, ainda que a pessoa seja a mais teimosa e obstinada do mundo. O
mais dcil psiclogo infantil ensina aos pais a ter calma na educao dos filhos se o filho cometer duas ou trs vezes o mesmo erro num mesmo dia. Como  possvel
ter a pacincia e tolerncia que ele preconizava? Se o nosso foco de ateno for os erros das pessoas, ento perderemos a calma diante da repetio do comportamento
inadequado delas, mas se o foco de ateno for as pessoas dos erros, a vida que pulsa dentro delas, comearemos a mudar a nossa atitude. Dar-lhes-emos sempre uma
nova chance. E se aprendermos com o mestre dos mestres a nos doar sem esperar a contrapartida do retorno, daremos um salto maior ainda, pois aprenderemos a proteger
nossas emoes. Aprenderemos a ter uma felicidade que no depende muito das circunstncias externas. A felicidade que Jesus tinha, que emanava de dentro para fora,
pouco dependia dos resultados exteriores. No deveramos pensar que a maneira de Jesus ser como educador era passiva, ao contrrio, era revolucionria. Todos que
observavam sua calma, sua inteligncia fenomenal, sua segurana e capacidade de nunca perder a esperana em ningum comeavam a mudar completamente a sua maneira
de ver a vida. Assim, ainda que errassem muito, elas, por andar na sua presena, iam transformando e reciclando a sua rigidez, orgulho, agressividade. Os discpulos
jamais se esqueceram das lies
54













































































#O Poderoso e Dcil: Um Exmio Psicoterapeuta

preciosas que ele lhes deu. Ele morreria, mas se tornaria um "Mestre Inesquecvel". Os discpulos foram temporariamente acidentados pelo medo. Pedro, Tiago, Joo,
Bartolomeu, Filipe, Tom, Mateus, enfim, todos os seus amados amigos fugiram. Ele foi preso, ficou s. Embora no amasse a solido, no quis companhia, pediu aos
soldados que deixassem seus amigos partirem. O mundo assistiria, a partir de agora, a uma noite de terror e ao mais injusto dos julgamentos. Um julgamento regado
a dio, a escrnio e a tortura. Jesus foi preso em plena condio de sade. Contudo, ficaremos estarrecidos com a violncia e os maus tratos que recebeu. Em menos
de doze horas, seus inimigos destruram seu corpo antes de crucific-lo... O mestre do perdo foi tratado sem nenhuma tolerncia. Nunca algum que se preocupou tanto
com a dor humana foi tratado de maneira to impiedosa.

55













































































#

















































































































CAPTULO 4

REJEITADO E TORTURADO NA CASA DE ANS

#Rejeitado e Torturado na Casa de Ans


A seqncia dos eventos no julgamento de Jesus
Antes de entrar no dramtico julgamento vivido por Jesus, quero comentar sinteticamente algo sobre como, quando e por que os evangelhos foram escritos. Jesus andou
por cerca de trs anos e meio com os discpulos. Freqentemente havia um intervalo de tempo de semanas e meses entre uma passagem e outra descrita nestes livros.
A grande maioria de suas palavras e comportamentos no foi registrada. Apenas alguns eventos que causaram maior impacto nos seus discpulos  que foram escritos
nos quatros evangelhos e podem ser considerados como quatro biografias sintticas. O nico momento da vida de Jesus que foi relatado evento por evento, hora por
hora foi seu julgamento e sua crucificao. Na noite em que foi preso at ser crucificado foram menos de doze horas e da crucificao  sua morte foram cerca de
seis horas. Apesar do curto perodo, os relatos destes momentos so cruciais. Foram, sem dvida, os mais longos e os mais
59

#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

importantes relatos de um nico perodo de sua vida. Segundo as suas prprias palavras, ele veio para esta hora e esperava ansiosamente por ela.15 A deciso de escrever
o que o mestre dos mestres viveu no foi tomada durante o perodo em que os discpulos andaram com ele e nem logo aps a sua morte. Demorou muitos anos. O mais antigo
evangelho, o de Marcos, foi provavelmente escrito entre 50-60 d.C., portanto, mais de 20 anos depois da partida de Jesus. O evangelho de Lucas foi provavelmente
escrito no ano 60 d.C., o de Mateus entre 60-70 d.C. O evangelho de Joo foi o mais tardio, escrito provavelmente entre 85-90 d.C., portanto mais de meio sculo
depois da morte do mestre. Escrever depois de um longo tempo aps a sua morte fez com que o relato de algumas passagens tenha perdido alguns detalhes ou tenha sido
escrito dando nfase diferente a alguns fatos. Por esse motivo, existem algumas pequenas distines nas mesmas passagens descritas nos evangelhos, tal  o caso do
julgamento de Jesus Cristo. Todos os quatro evangelhos o relatam, mas com dimenses e detalhes diferentes uns dos outros. Essas diferenas atestam que Jesus foi
um personagem histrico real, como conclu nos livros anteriores. Seria impossvel para a mente humana criar um personagem como ele. O que motivou os discpulos
a escreverem sobre Jesus Cristo em diferentes pocas foi a intensa histria de amor que tiveram com ele. O mestre da vida foge completamente ao que se poderia esperar
de um homem to forte e inteligente como ele. O carpinteiro de Nazar encantou a emoo de milhares de homens e mulheres. Durante as primeiras dcadas desta era
no havia nada escrito sobre ele. Como ento as pessoas que no o conheceram
60













































































#Rejeitado e Torturado na Casa de Ans

eram nutridas pelos seus ensinamentos? Pelos relatos vivos das pessoas que conviveram estreitamente com ele, principalmente dos discpulos. Os discpulos deviam
gastar horas e horas recordando uns com os outros cada palavra, cada gesto, cada pensamento de Jesus. Deviam prender a respirao, embargar a voz e, algumas vezes,
derramar lgrimas por record-lo. Os pescadores da Galilia que outrora cheiravam a peixe, agora exalavam uma doce fragrncia de amor.

A organizao dos livros chamados evangelhos
O material que os discpulos usaram para escrever os evangelhos foi organizado atravs de pesquisas e anotaes detalhadas. Tal  o caso de Lucas, que no conheceu
Jesus, mas, como ele mesmo disse, investigou detalhadamente os fatos relacionados  sua vida16. Algumas passagens talvez tenham sido escritas na poca em que Jesus
andava com os discpulos. Mateus era um coletor de impostos, devia saber escrever.  provvel que tenha anotado algumas parbolas no momento em que o mestre as proferiu
e depois as ajuntou para escrever seu evangelho. Mas creio que poucas passagens tenham sido escritas presencialmente. Por qu? Porque os discpulos no acreditavam
que Jesus se separaria deles. Ele discursava tanto sobre a vida eterna que no imaginavam que ele morreria to precocemente. Os evangelhos tm uma sntese, uma lgica,
uma coerncia que impressiona qualquer pesquisador. Qualquer pessoa deveria l-los, mesmo que no tenha interesse pelo cristianismo. At os cientistas deveriam l-los,
pois ns que pesquisamos, mais do que qualquer outro ser humano, temos a conscincia de que
61













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

somos meninos perturbados diante dos mistrios da existncia. Ler esses livros abrir as janelas de nossa mente, nos introduzir num profundo processo reflexivo
e, no mnimo, nos far crescer em sabedoria. Muitos crem que os evangelhos foram escritos sob inspirao divina. A inspirao divina entra na esfera da f; portanto,
extrapola a investigao deste livro. Independentemente da inspirao divina, os escritores dos evangelhos usaram uma investigao detalhada para elaborar seus textos.
Por isso no so cpias uns dos outros e se completam mutuamente. Alguns deles descrevem incompletamente algumas passagens, outros detalham melhor certas situaes.
Esse fato fica particularmente evidente no julgamento de Jesus. Somente Lucas relata que Jesus passou pelas mos de Herodes Antipas, o filho de Herodes, "o Grande",
o rei que queria mat-lo quando tinha dois anos. Entretanto, o registro mais detalhado sobre o julgamento de Jesus na casa de Caifs, o sumo sacerdote, no est
em Lucas, mas no evangelho de Mateus. Por outro lado, Mateus no traz explicaes detalhadas sobre o que aconteceu com Jesus diante de Pilatos. Ele encerra esta
passagem dizendo que ele foi aoitado por Pilatos; em seguida, condenado e imediatamente tomou a cruz em direo ao Glgota. Todavia, ocorreram fatos importantssimos
depois dos aoites. Se lermos apenas Mateus, compreenderemos o julgamento feito pelo sindrio, composto pelos lderes da religio judaica, mas ficaremos obscuros
com respeito ao julgamento realizado pela poltica romana. Precisamos ler o livro de Joo para termos tal clareza. O evangelho de Joo registrou determinados fatos
e alguns dilogos entre Jesus e Pilatos que no foram registrados pelos outros escritores. Por exemplo, ele vai alm de Mateus e
62













































































#Rejeitado e Torturado na Casa de Ans

relata que depois dos aoites Jesus ainda passou por outros sofrimentos, foi coroado com espinhos, zombado pela coorte de soldados e ainda voltou a ter um dilogo
particular com Pilatos. Muitos soldados que estavam presentes nestas cenas se tornaram discpulos de Jesus aps sua morte. Alguns carrascos foram contagiados pelo
seu amor. Eles deram seus testemunhos aos escritores dos evangelhos sobre o drama que Jesus passou em seu julgamento e a violncia com que foi tratado. Alguns fariseus
que o amavam ocultamente tambm contriburam para esses relatos. Fundamentados nestes relatos, estudaremos, a partir de agora, o mais misterioso e amvel dos homens
no momento em que sofre o mais violento e inumano julgamento. Dessa histria de dor vivida pelo mestre da vida poderemos extrair profundas lies para reescrever
alguns captulos fundamentais de nossa prpria histria. Jesus foi julgado e torturado por quatro pessoas: Ans, Caifs, Pilatos e Herodes.

Interrogado por Ans
Aps ser preso, a primeira casa para a qual os soldados levaram Jesus foi a de Ans. Este j havia sido sumo sacerdote, que representava o topo da hierarquia da
religio judaica. No ano em que Jesus foi julgado, o sumo sacerdote era seu genro, Caifs. Como vimos, Jesus havia se tornado incontrolavelmente famoso. Todavia,
o mestre se entregou to subitamente que ningum sabia que ele tinha sido preso, a no ser seus discpulos. Ans estava tenso, tinha medo de que a multido, ao
63













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

despertar, soubesse que ele estava encarcerado. Ento, to logo Jesus chegou, comeou a interrog-lo sobre seus discpulos e sua doutrina17. No queria de fato interrog-lo,
apenas encontrar motivos para que Jesus fosse morto. O mestre sabia que ali se iniciara uma das etapas do seu falso julgamento. Estava convicto de que Ans no estava
interessado em saber sobre seu pensamento, seu propsito. O clima era perturbador. Centenas de pessoas compostas por soldados e serviais o rodeavam. Almejavam saber
como ele reagiria longe das multides que o assediavam. Talvez quisessem v-lo pela primeira vez tmido, tenso, amedrontado. Contudo aquele homem parecia inabalvel.
Diferente de ns, ele no se curvava ao medo. Diante da presso de Ans para que abrisse a sua boca, ele d uma resposta que soa como uma bomba diante do ambiente
ameaador. Diz: "Eu falei abertamente ao mundo, eu sempre ensinei nas sinagogasenoTemplo,ondetodososjudeusserenem,enadadisseem segredo." 18. Sua resposta no termina
assim. Respaldado por uma slida autoconfiana, ele fita Ans e os soldados que o rodeiam e sem nenhuma sombra de medo acrescenta: "Por que me interrogas? Pergunta
aos que me escutaram. Eles bem sabem o que eu disse". Esta resposta, que  a primeira em seu julgamento, tem vrias implicaes que sero analisadas a seguir.

Falando francamente ao mundo
Ele disse, sem titubear, a Ans e aos presentes que tinha falado abertamente ao mundo. Ningum foi to franco como Jesus. No tinha medodefalaraquiloquepensava.Nosimulavaossegredo
sdesuaalma.
64













































































#Rejeitado e Torturado na Casa de Ans

Em determinadas situaes, sua segurana estava ameaada, por isso a melhor coisa que poderia fazer para se proteger era se calar, mas nada o fazia calar-se. Mesmo
sob o risco de ser linchado por seus opositores, ele no se calava. Sua coragem mudou a histria. Falou palavras que no apenas abalaram o mundo de sua poca, mas
tambm nos deixam fascinados e pasmos nos dias de hoje. Discorreu sobre pontos jamais discursados, abordou assuntos jamais pensados pela psicologia, filosofia, educao
ou religio.

Interrogando o seu interrogador
 prprio de um ru ficar quieto, tmido e ansioso diante de um tribunal. O mais violento dos homens vira uma criana quando lhe retiram o poder. Alguns, atravs
de seus advogados, pedem clemncia e negam todas as acusaes que lhes fazem. Jesus estava l sem nenhum advogado. No precisava, pois sua inteligncia era imbatvel.
Ele j sara de situaes mais dramticas que aquela. Com habilidade magistral, ele abria as janelas da mente dos seus opositores provocando a inteligncia deles.
Confusos, eles o deixavam e retornavam para casa. Agora, ele se deixou prender e est em seu julgamento. Todos queriam a sua morte e, por incrvel que parea, ele
tambm a desejava. Os acusadores queriam matar para anular a vida e ele queria morrer para dar a vida. Em seu julgamento, ele no lutou a seu favor, se entregou
integralmente  deciso humana. O mestre da vida disse menos de vinte pensamentos neste julgamento, todos com significados inimaginveis, mas nenhum deles objetivava
libert-lo. Ao contrrio, tais pensamentos colocariam mais lenha na fogueira do dio que seus inimigos nutriam por ele, mas no se importou. Revelou claramente sua
65













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

identidade e sua misso, ainda que com palavras sintticas. Quando estava livre, evitou dizer quem ele era; quando estava preso e pressionado a se intimidar, fez
relatos espetaculares sobre sua pessoa, principalmente a Caifs e a Pilatos. No pediu clemncia a Ans. Disse que todos os seus discursos tinham sido feitos publicamente
e que se ele quisesse resposta deveria interrogar os que o ouviram. Com tal resposta, ousada e incomum para um ru, ele mostrou claramente que sabia que seu julgamento
era um teatro, que ningum estava interessado de fato nos seus discursos porque sabiam o que ele havia dito. Portanto, se queriam mat-lo pelo que falou, ele estava
tambm disposto a morrer por esta causa.

Esbofeteado com violncia por um soldado
Os soldados que estavam presentes tinham conhecimento de que os lderes judeus, por diversas vezes, j haviam tramado a sua morte sem sucesso. Uma parte dos soldados
estava confusa, admirava-o, mas no tinha fora para proteg-lo. Outra parte, provavelmente a maior dela, estava totalmente influenciada pelos lderes de sua nao.
Manipulados por esses, tambm o odiavam, ainda que no soubessem claramente os motivos. Quando no deu resposta a Ans e o recomendou a perguntar a milhares de judeus
o que ele havia dito publicamente, o clima de violncia contra ele veio  tona. Imediatamente, um soldado vira-se e desfere-lhe uma violenta bofetada, sem lhe dar
aviso. Os soldados daquela poca eram escolhidos entre os melhores e maiores homens. Eles treinavam atirar lanas e manipular espadas, portanto a musculatura e a
fora das mos
66













































































#Rejeitado e Torturado na Casa de Ans

eram muito desenvolvidas. Portanto, o golpe que Jesus recebeu desse soldado foi traumtico e dolorido. Deve ter lhe causado vertigem e edema (inchao) em sua face.
Diante de um ato to violento, gostaria de analisar trs brilhantes caractersticas da personalidade que Jesus j demonstrou neste primeiro golpe fsico e que iria
regular seu comportamento em todas as suas torturas. Primeiro, ele pensava antes de reagir; segundo, nunca devolvia a agressividade que lhe faziam; terceiro, era
capaz de estimular os seus agressores a penetrarem dentro de si mesmos e repensarem a sua violncia. A maneira como ele reagiu foge completamente s reaes previsveis
que temos diante de situaes de risco e de dor, sejam elas fsicas ou psicolgicas. Para expor essas trs caractersticas, precisamos compreender alguns fenmenos
que constroem os pensamentos e participam do funcionamento da mente*.

O gatilho da memria
O gatilho da memria  um fenmeno inconsciente que faz as leituras imediatas da memria diante de um determinado estmulo. O medo sbito, as respostas impensadas,
as reaes imediatas so derivadas do gatilho da memria. Diante de uma ofensa, um corte nas mos, uma freada de um carro ou uma situao de risco qualquer, o gatilho
da memria  acionado, gerando uma leitura rapidssima da memria, produzindo as primeiras cadeias de pensamentos e as primeiras reaes emocionais. Somente em segundos
ou fraes de segundos depois que
* Cury, Augusto J., Inteligncia Multifocal, Editora Cultrix, So Paulo, 1998.

67













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

o gatilho  acionado  que o "eu" (vontade consciente) inicia seu trabalho para administrar o medo, a ansiedade, a angstia que invadiu o territrio da emoo. Isso
explica porque  difcil administrar as reaes psquicas. Grande parte de nossas reaes iniciais no  determinada pelo "eu", mas detonada pelo gatilho inconsciente
da memria. Uma pessoa agredida, ofendida, sob o risco de vida, ou seja, sob um foco de tenso, raramente conseguir administrar seus pensamentos. Nessas situaes,
ela reage sem pensar. Para retomar as rdeas de sua inteligncia, o "eu" ter de gerenciar os pensamentos negativos, atravs de duvidar deles e criticlos. Assim,
ela sai do foco de tenso e se torna lder do seu mundo. Todavia, freqentemente somos frgeis vtimas dos processos ocorridos em nosso mundo psicolgico. Quem 
que pensa antes de reagir nas situaes tensas? No exija das pessoas terem lucidez quando so feridas, ameaadas e esto ansiosas. Seja paciente com elas, pois
o gatilho da memria estar gerando medo, raiva, dio, desespero, que, por sua vez, travam a liberdade de pensar. Quando nossas emoes esto exaltadas, reagimos
por instinto e no como seres pensantes. Jesus foi ofendido por diversas vezes em pblico. Mas no se deixava perturbar. Em algumas situaes, foi expulso das sinagogas,
mas mantinha sua emoo intacta. Correu risco de vida em algumas oportunidades, mas estava livre ao invs de estar tenso. A mesma coragem que o movia para falar
o que pensava, ele tinha para proteger sua emoo diante dos estmulos estressantes. Quando o gatilho da memria gerava uma reao ansiosa imediata em sua emoo,
ele, com uma incrvel habilidade, tomava as rdeas do seu ser e no se deixava controlar pela sua emoo. S se permitia ser controlado por ela para amar.
68













































































#Rejeitado e Torturado na Casa de Ans

Perdemos com facilidade a pacincia com os filhos, com amigos, com as pessoas que nos frustram. Infelizmente, sob um foco de tenso, tanto psiclogos como pacientes,
tanto executivos como funcionrios, tanto pais como filhos detonam o gatilho da memria e produzem reaes agressivas que os controlam, ainda que por momentos. Ferimos
a ns mesmos e no poucas vezes causamos danos s pessoas que mais amamos. Fazemos delas uma lata de lixo de nossa ansiedade. Detonado o gatilho, reagimos impulsivamente
e minutos, horas ou dias depois, adquirimos conscincia do estrago que fizemos. Somos controlados pela nossa emoo. Algumas pessoas nunca mais se esquecem de um
pequeno olhar de desprezo produzido por um colega de trabalho. Outras nunca mais retornam a um mdico se ele no lhes deu a esperada ateno. Se uma pessoa no aprender
a administrar o gatilho da memria, viver a pior priso do mundo: o crcere da emoo*. Os dependentes de drogas vivem o crcere da emoo, porque, quando detonam
este fenmeno, no conseguem administrar a ansiedade e o desejo compulsivo por uma nova dose da droga. Os que possuem a sndrome do pnico vivem o medo dramtico
de que vo morrer ou desmaiar, gerado tambm por este gatilho. Do mesmo modo, quem tem claustrofobia, transtornos obsessivos compulsivos (TOC) e outras doenas que
produzem intensa ansiedade  vtima do gatilho da memria. Tal fenmeno  fundamental para o funcionamento normal da mente humana, mas se ele produz reaes doentias
e pensamentos negativos inadministrveis, contribui para gerar uma masmorra interior. Jesus sabia navegar pelas guas da emoo num ambiente
* Cury Augusto J., O Crcere da Emoo, Academia de Inteligncia, So Paulo, no prelo.

69













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

turbulento. Ele transitava pelas agressividades, pelas perdas e frustraes da vida sem se deixar abater. Como exmio mestre da inteligncia, sabia gerenciar o gatilho
da memria, no deixava que ele detonasse a agressividade impulsiva, o medo sbito, a ansiedade compulsiva. Portanto, sempre pensava antes de reagir, nunca devolvia
a agressividade dos outros e, como veremos, estimulava seus agressores a repensar sua agressividade.

O exemplo do gatilho da memria num tribunal
Certa vez, ouvi uma histria interessante que aconteceu num tribunal. Um homem estava sendo julgado por assassinato. Havia cometido um crime cruel. Matou um homem
por um motivo torpe: a vtima jogou, numa discusso, um copo d'gua no seu rosto. Humilhado, ele o assassinou. O ru era indefensvel. Pegaria a pena mxima. O promotor
discursava eloqentemente sobre a periculosidade do mesmo. Dizia que algum to violento no poderia estar em nenhum outro lugar seno atrs das grades. Como pode
algum matar um ser humano por ter sido agredido com um copo d'gua? O advogado de defesa no tinha argumentos. Tudo parecia estar perdido. Ento, de repente, teve
uma idia. Resolveu reproduzir a cena do crime. Comeou a criar um clima de atrito com os membros do jri. Ento, subitamente, pegou um copo com gua e, no calor
da discusso, sem que esperassem, atirou gua em seus rostos. O juiz interpretou o gesto do advogado como um grande desacato. Os membros do jri ficaram profundamente
irados
70













































































#Rejeitado e Torturado na Casa de Ans

com a insolncia. Ento, imediatamente, pediu desculpas e explicou os motivos de sua atitude. Disse que tramou agredir os membros do jri e jogar gua neles para
que eles olhassem para o ru com os olhos dele, na pele dele. Comentou que tentou simular o clima do assassinato, gerar uma emoo nos membros do jri semelhante
a que seu cliente sentiu no momento em que a vtima lhe atirou gua no rosto. Diante disto, ele fitou o jri e encerrou sua defesa dizendolhes: "se vocs ficaram
irados quando lhes atirei a gua, entendero o que aconteceu com meu cliente. Infelizmente, todos ns cometemos atos impensveis quando estamos tensos. Ele no 
perigoso, jamais planejara aquele assassinato, e havia se arrependido da sua atitude impulsiva. Por favor, julguem meu cliente baseados em sua conscincia, em sua
emoo". O veredicto final foi a absolvio. O advogado de defesa, sem ter conscincia, levou os jurados a compreender o fenmeno do gatilho da memria. Infelizmente,
desculpamos a violncia dos outros pela nossa violncia. Quanto mais se afloram os estmulos estressantes atravs da competio predatria, do individualismo, da
crise do dilogo, da velocidade das transformaes sociais, mais o homem moderno reage sem pensar, mais volta ao tempo das cavernas. Assim, pouco a pouco nos psicoadaptamos
 agressividade. Aceitamos a violncia como normal, como parte inerente da rotina social. O mestre de Nazar no reagia com violncia, mesmo quando ferido. Ele no
apenas no se deixava ser invadido pela agressividade dos outros como tambm no devolvia a violncia que lhe causavam, mas era capaz de conduzi-los a refletir sobre
os fundamentos de sua ira. Quem  este homem que governa sua emoo num
71













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

ambiente em que todos ns nos afogaramos nas guas da raiva e do medo? Somos uma espcie to bela, mas to complicada. Somos to complicados que roubamos de ns
mesmos nossa tranqilidade e o direito de sermos felizes.

Estimulando a arte de pensar do agressor
No momento em que o soldado desfere-lhe a bofetada, ele diz-lhe: "Se fiz o mal, d testemunho do mal..." 19. Sua resposta era muito dcil para tanta violncia, era
muito inteligente para tanta irracionalidade. O soldado o golpeou fisicamente e ele golpeou sua insensatez sem agressividade. Levou seu agressor a pensar no seu
comportamento. Conduziu-o a avaliar a sua histria e pediu para que desse testemunho da sua maldade, sua agressividade e seu crime. O mestre vivia a arte da antiviolncia,
sua humanidade atingiu os sentimentos mais altrustas. Pensava muito mais no bem estar dos outros do que em si mesmo. O soldado o agrediu para ganhar crdito diante
de Ans20. Ele o espancou dizendo que ele no deveria falar daquele modo com o "sumo sacerdote". Com os ouvidos zunindo e tonteado pela violncia do trauma, Jesus,
com gentileza, completa a frase "... se fiz o bem porque me feres?". O soldado no era capaz de dar testemunho contra Jesus, sua conduta era intocvel. Ele o feriu
gratuitamente, apenas para ganhar espao dos seus lderes. Infelizmente muitos homens na histria reagiram sem pensar nas conseqncias de suas reaes. Preferiram
agradar seus lderes a honrar sua prpria conscincia. Venderam por um preo muito baixo algo invendvel. Jesus mantinha sua dignidade. Foi gentil com seu agressor.
72













































































#Rejeitado e Torturado na Casa de Ans

Como pode algum humilhado publicamente e ferido violentamente ter disposio para ser dcil com um homem que o espanca? O que faramos se algum nos desse um tapa
no rosto? A reao do mestre de Nazar foge aos limites instintivos do homem. Um tapa no rosto  socialmente humilhante.  pior do que receber um copo d'gua no
rosto. Contudo, ao contrrio do ru que a pouco descrevi, ele, alm de amvel, estimulou seu agressor a abrir as janelas de sua mente. Sua personalidade no foi
apenas superior  mdia dos homens. Ela foi nica, exclusiva. Ningum reagiu como ele no pice da dor e da humilhao social. Se Jesus tinha o poder que dizia ter,
por que no fez aquele soldado prostrar-se aos seus ps? Entretanto, se agisse com poder, se revidasse a agressividade, ele seria como qualquer um de ns, no seria
livre. Os fracos mostram a fora da ira, mas os fortes mostram a fora do perdo. Se ele destrusse aqueles homens, seria forte por fora, mas fraco por dentro. Seria
controlado pelo seu dio e pela raiva, mas nada o controlava. Preferiu conscientemente ser fraco por fora, mas livre por dentro...

Dormindo com o inimigo
Todas as experincias que vivemos no palco de nossas mentes so registradas involuntariamente na memria pelo fenmeno RAM. E, se estas experincias tiverem alta
carga de tenso, o registro ser privilegiado, ocupando reas nobres de nossa memria. Aqui h um grande aprendizado a ser feito. Se uma pessoa nos perturbou, nos
prejudicou ou nos humilhou de alguma
73













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

forma e se desenvolvemos raiva, dio ou medo dela, saiba que ela ser registrada de maneira privilegiada na parte central de nossa memria, que chamo de MUC (Memria
de Uso Contnuo). Se imaginarmos a memria como uma grande cidade, a MUC  a rea em que mais circulamos e realizamos nossas atividades profissionais e sociais.
Por estar registrado na MUC, ela ser lida preferencialmente e participar de grande parte de nossos pensamentos. Assim, pensando que a raiva, dio ou reao fbica
de afastamento nos livrar de nosso agressor, nos enganamos. Ele almoar, jantar e dormir conosco, pois ocupar a rea central de nossa memria consciente e inconsciente
e, conseqentemente, ocupar grande parte de nossos pensamentos que, por sua vez, afetaro a qualidade de nossas emoes. Por isso, quando temos um problema no
deixamos de pensar nele. Quanto mais averso sentirmos por algum, mais ele ocupar nossos sonhos e nos convidar a ter insnia. Da prxima vez que algum o frustrar,
lembre-se de que se no tomar cuidado, voc dormir com ele. O mestre de Nazar no dormia com seus inimigos, pois nenhum homem era seu inimigo. Os fariseus podiam
odi-lo e amea-lo, mas todo o dio de um homem no o qualificava para ser seu inimigo. Qual a razo? A razo era que ningum conseguia transpor sua capacidade
de proteger a sua emoo. No permitia que a agresso dos outros tocasse sua alma. Conheo a histria de filhos que nunca mais segredaram nada aos seus pais depois
que estes os frustraram. Conheo tambm pessoas que nunca mais reataram a amizade com seus amigos depois de uma pequena discusso. Eles abriram as comportas de sua
emoo e deixaram que um episdio turbulento destrusse para sempre um belo relacionamento.
74













































































#Rejeitado e Torturado na Casa de Ans

O mestre dos mestres no se deixava ser invadido pelas injrias, calnias, frustraes e violncia dos que o circundavam. Ele viveu a bela frase de Galileu Galilei:
"Devemos escrever os benefcios em bronze e as injrias no ar". Nenhum comportamento humano comprometia a sua paz e o fazia desanimar. Era livre no lugar em que
mais facilmente somos prisioneiros, livre em sua emoo. Por isso, diferentemente de ns, jamais cortou das pginas da sua histria as pessoas que o feriam. Sua
calma deixava todos atnitos. Mesmo em face da morte era possvel v-lo governar, com tranqilidade, seus pensamentos. Sua coragem mudou a histria. Como mestre
da mansido, ele conseguiu produzir idias brilhantes num ambiente onde s havia espao para sentir intensa ansiedade. Ao ser amvel com seus inimigos, ele cumpria
as suas palavras sobre dar a outra face. Entretanto, dar a outra face no era nem de longe um sinal de submisso e de fragilidade, mas de fora inigualvel. Os lderes
de Israel tinham insnia por sua causa, embora dormissem em camas confortveis. O mestre do amor dormia tranqilo, embora tivesse o cho como cama e uma pedra como
travesseiro. Que lio de vida! Todos os lderes polticos que usaram a agressividade como ferramenta para impor suas idias mancharam as pginas da histria. A
prpria histria os condenou. Foram esquecidos ou lembrados com repugnncia. O nome de Jesus percorreu todas as geraes como fogo em madeira seca. Quais os motivos?
Muitos. No foi somente pela sua demonstrao de poder, mas muito mais pela sua necessidade de no us-lo. Quem agiu como ele na histria? Jesus mudou a histria
da humanidade pela delicadeza dos seus gestos num ambiente grosseiro e inumano, pelos patamares
75













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

impensveis aos quais chegou sua amabilidade num ambiente em que os homens no sabiam amar.

A primeira sesso de tortura
Aps ter sido gentil com o soldado que lhe espancou o rosto, comeou a sua primeira e angustiante sesso de tortura. Os soldados se amontoaram diante dele, zombaram
e o espancaram impiedosamente. Lucas, embora no cite a casa de Ans, registra que a primeira sesso de tortura de Jesus ocorreu antes do sindrio se reunir e conden-lo,
portanto na casa da Ans21. Os soldados e lderes judeus vendaram-lhe os olhos e diziam: "Profetiza-nos quem  o que te bateu." Os traumas no rosto e no corpo dilatavam
e rompiam os vasos sanguneos perifricos, causandolhe edemas e hematomas. Seu rosto comeava a se desfigurar. Um clima de terror se instalou. Os homens sempre reagem
como animais quando esto coletivamente irados. Toda a agressividade deles foi projetada para o mais amvel dos homens. Embora dissesse a menos de uma hora que tinha
um grande exrcito de anjos  sua disposio, ele no reagiu. Suportou silenciosamente a sua dor.

Um olhar arrebatador
No primeiro livro da coleo "O Mestre dos Mestres" comentei sinteticamente a negao de Pedro. Ela ocorreu justamente na casa de Ans. Devido  relevncia deste
assunto, gostaria de retom-lo e abordar rapidamente alguns pontos que no analisei. Quando Jesus entrou na casa de Ans, Pedro, com a ajuda
76













































































#Rejeitado e Torturado na Casa de Ans

de um discpulo que era conhecido do sumo sacerdote, conseguiu entrar disfarado. Quem  o discpulo que o ajudou a entrar naquele ambiente? No se sabe. Provavelmente
Nicodemos ou Jos de Arimatia, por serem da cpula judaica, ou ainda algum coletor de impostos, tal como Zaqueu ou Mateus, pois embora fossem odiados pelos fariseus,
tinham poder social por servir ao imprio romano. Pedro foi ousado em entrar naquele ambiente perturbador. Os discpulos todos estavam insones em um lugar distante
dali. Pedro nunca mais esqueceria a cena que veria. O seu amado mestre estava sendo ferido fsica e psicologicamente. Pedro entrou em desespero. Aquilo parecia uma
miragem. No podia acreditar na violncia dos homens e nem na passividade do seu mestre diante dos seus agressores. Talvez pensasse: "Jesus era to forte e imbatvel,
como pode se calar diante de tanta violncia? Onde est a sua fora? O que aconteceu com sua coragem?". A mente de Pedro devia parecer um redemoinho borbulhante.
Nunca conhecera algum to forte e nunca vira algum vestir de tal maneira o manto da fragilidade. Pedro conhecia a coragem de Jesus para enfrentar o mundo e fazer
todos se calarem diante de sua sabedoria e poder, mas no conhecia um tipo de coragem que os homens no tm: a coragem para enfrentar em silncio a dor, o desprezo,
a vergonha pblica. Diante dos dramticos sofrimentos do seu mestre e do turbilho de dvidas que solapavam sua mente, o gatilho da memria detonou um medo intenso.
Quando seu mestre fazia milagres e belssimos discursos, tinha orgulho de ser um dos seus discpulos, mas agora tinha medo de estar associado a algum violentamente
agredido e humilhado. O medo travou sua inteligncia. Ento, questionado por
77













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

alguns servos se ele era um seguidor do nazareno, ele negou, no conseguia raciocinar. Questionado outra vez, negou-o mais veementemente. Quando lhe perguntaram
pela terceira vez, negou enfaticamente: "No conheo este homem"22. Por alguns momentos Jesus no era mais seu mestre, mas um homem desconhecido, algum que nunca
vira na vida, um homem do qual se envergonhava. Se estivssemos no lugar de Pedro, quantas vezes o negaramos? O evangelho de Joo  o nico que d margem para interpretarmos
que a primeira e a segunda negao de Pedro ocorreram na casa de Ans e a terceira ocorreu na casa de Caifs23. Se ela ocorreu em dois ambientes, indica que a capacidade
de pensar de Pedro estava totalmente controlada pelo medo. No gerenciava sua emoo como seu mestre, no se refazia imediatamente aps ser atingido pela angstia.
O medo nos controla, o medo de morrer, de ter uma grave doena, de sofrer perdas financeiras, de perder as pessoas que amamos, de encontrar a solido nas curvas
da existncia, de ser rejeitado, de fracassar. Jesus no esperava muito do homem. Estava convicto de que na humanidade no havia gigantes no territrio da emoo.
Sabia que vacilamos. De fato todos temos nossos limites. Quando Pedro o negou pela terceira vez, Jesus se voltou com um olhar cativante e arrebatou seu discpulo
do medo e o fez cair em si. Ento, ele se lembra de que prometera morrer com seu mestre e que este previu que fraquejaria. Se l estivessem os mais ardentes seguidores
de Jesus, o negariam de maneira to ou mais vexatria do que Pedro. Pedro saiu de cena abatido, desesperado. Nunca se sentira to frgil. Nunca trara sua prpria
palavra e de maneira to vergonhosa. Como o mais excelente terapeuta, Jesus novamente
78













































































#Rejeitado e Torturado na Casa de Ans

previra o fracasso de outro dos seus discpulos, no para conden-lo, mas para que ele mesmo no se condenasse, mas conhecesse as suas prprias limitaes. Ento,
Pedro chorou como nunca havia chorado antes. Por andar com algum que via os erros e os fracassos em outra perspectiva, Pedro no saiu mais fraco diante de sua derrota,
mas mais forte. Forte na capacidade de perdoar, de compreender a fragilidade humana, de dar oportunidade aos que erram. Somente os que compreendem as suas prprias
limitaes podem compreender as limitaes dos outros. Os homens mais rgidos e crticos so os que menos conhecem as reas mais ntimas do seu prprio ser. O mestre
da vida era livre, embora atado em cadeias. Frustrado, ainda acolhia. Que seguidor da atualidade vive as pegadas que ele deixou? Ele foi to brilhante que mesmo
se contorcendo de dor conseguia ainda ensinar os que o amavam. Quando silenciado, ensinava com os olhos. Com um olhar penetrante dizia a Pedro que no desistia dele,
que ainda o amava. Com a boca sangrando expressava sem palavras que era justamente por seus erros, tais como o que estava cometendo, bem como os de toda a humanidade,
que estava morrendo. Quem  este homem que ferido e com as mos mutiladas consegue ainda escrever uma carta de amor no corao do ser humano?

79













































































#

















































































































CAPTULO 5

CONDENADO NA CASA DE CAIFS PELO SINDRIO

#CondenadonaCasadeCaifspeloSindrio


ps ter sido torturado na casa de Ans, este o levou manietado  casa de Caifs, o sumo sacerdote naquele ano. L, todo o sindrio reuniu-se. Estavam diante dele
os sacerdotes, os fariseus, os herodianos, os saduceus, os mestres da lei, enfim, toda a liderana judia. Os mais cultos e religiosos homens de Israel reuniram-se
para ver que fim dariam ao mestre de Nazar que alvoroava a nao. No podemos nos esquecer de que ainda era de madrugada. A multido que tanto o amava estava dormindo
ou insone esperando o sol raiar para v-lo. Ningum imaginava que Jesus estava sendo torturado e julgado. A cpula judaica tentou fabricar falsos testemunhos para
condenar Jesus, mas os testemunhos no eram coerentes24. No havia contradio na vida do mestre dos mestres. Eles poderiam rejeitar drasticamente o que ele falava,
mas no poderiam encontrar condutas que rompiam com a tica e o bom senso. A rigidez dos lderes de Israel impediu que eles fizessem
83

A

#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

um julgamento isento de tendencialismo. No se renderam a ele porque no o investigaram. A pressa e o desespero em conden-lo fizeram com que reagissem irracionalmente.

Um silncio glido
Jesus assistia a todos os falsos testemunhos. Paciente, no sentia necessidade nenhuma de se manifestar. Os homens do sindrio estavam apressados, tensos, ansiosos,
mas ele mantinha um silncio glido. Caifs, o mais importante homem da cpula religiosa, estava intrigado e indignado com o silncio de Jesus. Ele o interrogava,
mas no obtinha nenhuma resposta. Todos os homens mostravam um respeito incondicional pela autoridade do sumo sacerdote, mas o carpinteiro de Nazar, ainda que o
respeitasse como ser humano, no atendia o apelo para que respondesse ao seu inqurito. Nada e ningum o obrigavam a falar. A ferramenta do silncio  o estandarte
dos fortes. Somente algum destemido e que tem conscincia de que no deve nada  capaz de usar o silncio como resposta. Por que Jesus no falava? Porque estava
acima de todo aquele julgamento. Os lderes religiosos defendiam o Deus do Pentateuco (os cinco livros de Moiss), dos profetas e dos salmos. Eles eram tcnicos
em matria de Deus, mas, segundo os pensamentos de Jesus, o Deus que eles defendiam e diziam adorar estava diante deles, escondido na pele de um carpinteiro e eles
no o reconheciam. Que contraste impressionante! Eram especialistas em ensinar Deus aos homens, mas no conheciam o Deus que ensinavam. No conseguiam enxergar o
filho de Deus por detrs daquele galileu.
84













































































#CondenadonaCasadeCaifspeloSindrio

Os fariseus faziam longas oraes, pareciam exteriormente espirituais, mas o mestre indicava reiteradas vezes que eles usavam a religio com o objetivo de se promover
socialmente, para ocupar os primeiros lugares nas festas e nos templos judaicos. Imaginem a cena. Jesus dizia ser o filho do Deus altssimo. Entretanto, ao nascer,
preferiu o aconchego de uma manjedoura a beros dos que so tcnicos em Deus. Quando cresceu, preferiu trabalhar com madeira bruta e com martelos a freqentar a
escola dos fariseus. Quando abriu a sua boca, os homens que ele mais desaprovou no foram os pecadores, os imorais, os impuros, mas os homens que diziam adorar o
seu Pai. No h como no se surpreender com esses paradoxos. Certa vez, o mestre disse aos fariseus que eles liam as escrituras, mas no vinham at ele para ter
vida25. Outra vez disse que muitos o honravam com a boca, mas tinham o corao longe dele26. Indicou que todas as vezes que os lderes de Israel recitavam um salmo
ou liam uma passagem dos profetas, eles o honravam com a boca, mas no o conheciam nem o amavam. Quem  este homem que abalou os alicerces dos religiosos de sua
poca?

Fenmeno da psicoadaptao gerando a insensibilidade
Neste texto, gostaria de fazer uma pequena pausa para analisar alguns mecanismos inconscientes que conduziram os fariseus e toda a cpula judaica da poca a desprezar
completamente o mestre dos mestres. No primeiro captulo, comentei os motivos conscientes, principalmente as causas sociais; agora, estudaremos os fatores inconscientes
produzidos
85













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

principalmente pela atuao do fenmeno da psicoadaptao. Os mecanismos aqui descritos podero tambm arejar algumas importantes reas de nossa inteligncia. O
fenmeno da psicoadaptao atua no territrio da emoo e destri sorrateiramente a simplicidade, criatividade, capacidade de aprendizado, a contemplao do belo.
Ao longo de vinte anos tenho estudado a atuao deste fenmeno. Por um lado, ele  importantssimo para o funcionamento normal da mente; por outro, ele pode, se
no bem gerenciado, aprisionar o ser humano num crcere, principalmente os cientistas, executivos, os escritores, os religiosos, os professores, os profissionais
liberais, enfim, os que exercem um trabalho intelectual intenso. Os processos envolvidos na atuao deste fenmeno no sero estudados aqui*. Psicoadaptao, como
o prprio nome indica,  a adaptao da emoo aos estmulos dolorosos ou prazerosos. A freqente exposio aos mesmos estmulos leva, ao longo do tempo,  perda
da sensibilidade a eles. Podemos perder a sensibilidade pela dor, necessidade e fragilidade dos outros. Podemos ainda, perder paulatinamente a capacidade de sentir
prazer na vida, o encanto pelas pessoas mais ntimas, o amor pelo trabalho, a disposio para criar, a habilidade para aprender. Jesus foi o mestre da sensibilidade.
Sabia reciclar o fenmeno da psicoadaptao com grande destreza. Nunca deixava de se encantar com os pequenos estmulos e de ter prazer de viver ainda que o mundo
desabasse sobre sua cabea. Apreciava se relacionar com as pessoas. Mesmo com intensas atividades, ainda achava tempo para fazer as coisas simples, como
* Cury, Augusto J., Inteligncia Multifocal, Editora Cultrix, So Paulo, 1998.

86













































































#CondenadonaCasadeCaifspeloSindrio

jantar na casa de um amigo ou contar uma parbola interessante. O excesso de compromissos no modificou o que ele era por dentro. Infelizmente, somos diferentes.
Quanto mais compromissos, deixamos de fazer as coisas mais simples e que mais amamos.  medida que somos expostos aos estmulos, deixamos de ter prazer neles. Depois
de um ms que compramos um carro, o dirigimos sem grandes emoes. Nas primeiras vezes que o dirigimos, sentimos um prazer mais intenso, mas, com o passar do tempo,
o estmulo visual vai atuando no processo de construo de pensamentos e perdendo, sutilmente, a capacidade de excitar a emoo. O mundo da moda sobrevive porque
as mulheres tambm so vtimas do fenmeno da psicoadaptao. A necessidade de comprar novas roupas ocorre porque aps usar a mesma, a emoo se psicoadapta e deixa
pouco a pouco de sentir o prazer nos mesmos nveis das primeiras vezes. A mdia  perniciosa neste sentido. Ela, sem o perceber, atua no fenmeno da psicoadaptao
gerando uma insatisfao mais rpida e intensa, o que estimula o consumismo. Todos ns temos milhares de experincias nesse sentido. Ao longo da vida nos psicoadaptamos
a pessoas, coisas, situaes ou objetos. Em muitos casos, a atuao deste fenmeno  positiva. Vamos dar dois exemplos. Primeiro, quando conquistamos uma meta, um
diploma, um conhecimento, perdemos pouco a pouco o prazer da conquista.  medida que esta perda se processa existe uma ansiedade normal que  estimulada, que chamo
de "ansiedade vital"*. Tal ansiedade impulsiona inconscientemente a necessidade de transpor a conquista, nos estimulando a ter novas
87













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

idias, novas metas, alavancando, assim, a criatividade. Muitos homens deixam de brilhar porque perderam o encanto para criar. Eles ouvem palestras sobre motivao,
mas nada os estimula. Apegam-se s suas conquistas como se fossem seus tronos. Envelheceram no territrio das idias. Segundo, quando vivenciamos perdas, frustraes,
injustias, o pensamento fica hiperacelerado e a emoo, angustiada. Mas, com a atuao do fenmeno da psicoadaptao, a carga de sofrimento vai diminuindo pouco
a pouco, aliviando a dor emocional. Quem no desacelera o pensamento, no se psicoadapta s perdas, perpetuando, deste modo, a sua angstia. Portanto, nesses dois
sentidos, o fenmeno da psicoadaptao  benfico. Precisamos ficar atentos para a atuao sutil e malfica deste fenmeno inconsciente. Ele pode nos fazer insensveis
 dor dos outros; cultivar a auto-suficincia e nos transformar em pessoas abastadas, prepotentes; gerar a prtica do coitadismo e nos transformar em pessoas sem
auto-estima e com enorme dificuldade de lutar pela vida e por nossos ideais; cristalizar preconceitos e nos fazer discriminar pessoas que so to importantes como
ns. Nesses sentidos ele  muito prejudicial. O mestre da Galilia, embora no citasse o fenmeno da psicoadaptao em seus discursos, demonstrava que o conhecia
muitssimo. Ele estava sempre treinando a emoo dos seus discpulos para que eles no fossem insensveis  dor dos outros, vacinassem-se contra o orgulho, se colocassem
como aprendizes diante da vida, no desistissem de si mesmos por mais defeitos que tivessem e nunca discriminassem ningum que os rodeasse.
* Cury, Augusto J., A Depresso de Freud, Academia de Inteligncia, So Paulo, 2001.

88













































































#CondenadonaCasadeCaifspeloSindrio


A psicoadaptao dos fariseus
Antes de estudar a mente dos fariseus, deixe-me citar o exemplo do holocausto judeu. Um dos motivos inconscientes mais importantes que levou uma parte do povo alemo,
que era um bero de cultura e de idias humanistas, a cometer as atrocidades contra os judeus e outras minorias na Segunda Grande Guerra foi o fenmeno da psicoadaptao.
A propaganda nazista, os fatores sociais e os focos de tenso psquica atuavam sorrateiramente no universo inconsciente dos soldados nazistas fazendo com que desenvolvessem
uma repulsa pela raa judia e uma valorizao irracional pela raa ariana. Nos primeiros anos do nazismo, a maioria dos soldados jamais pensou que seria protagonista
de um dos maiores crimes da histria. Entretanto,  medida que os judeus eram perseguidos e confinados nos campos de concentrao, algo sutil ocorreu nos bastidores
da mente dos soldados alemes. Eles se psicoadaptaram  dor deles. Com o avano da guerra, no mais se comoviam com suas misrias. Nem a dor das crianas judias
expressa pelo temor, corpos emagrecidos, olhos fundos e angstia pela falta dos pais comoviam os nazistas. Quantas lgrimas, gemidos inexprimveis e reaes de medo
no viveram.Um milho de inocentes crianas foram cortadas do direito de existir, viver e brincar. No foram os judeus que perderam suas crianas, mas nossa espcie.
Eu e voc as perdemos. Nunca tantas crianas foram mortas na histria em um s perodo. O mesmo fenmeno da psicoadaptao que contribuiu para quase dizimar o povo
judeu, tambm contribuiu para que os lderes judeus assassinassem Jesus. Tornaram-se auto89

#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

suficientes. Ningum podia ensin-los e contrapor ao que pensavam. Ningum podia penetrar no mundo deles e dizer que estavam errados. Jamais poderiam ser ensinados
por um nazareno que no tinha privilgios sociais. O mestre da vida no podia ser um carpinteiro. Aqueles homens serviam a Deus sem Deus. As chamas do amor do Criador
no aqueciam suas frias emoes. Os homens que cometeram mais atrocidades na histria foram aqueles que tinham menos capacidade de se questionar. Foram aqueles que
tinham menos capacidade para aprender. Eles fecharam as janelas da inteligncia para pensar em outras possibilidades. Quem vive verdades absolutas usa o poder para
dominar os outros. Aqueles que eles no conseguem dominar, eliminam.

Ser que no temos sido os fariseus da era moderna?
Reflito: se fssemos membros do sindrio daquela poca no teramos rejeitado tambm aquele carpinteiro simples, de mos grossas e pele judiada pelo sol? Quantos
homens que se consideram mestres dos textos bblicos da atualidade no teriam engrossado o coro da cpula judaica, condenando aquele que se recusava a fazer milagres
para confirmar sua identidade? Fico pensando se eu no sou um fariseu dos tempos modernos. Quantas vezes ferimos o direito dos outros por nos colocarmos num pedestal
inatingvel! Quantas vezes somos radicais e engessados em nossa maneira de pensar! Exclumos as pessoas que no pensam como ns, ainda que por horas. Temos uma necessidade
doentia de que o mundo se afine com nossas idias. Reagimos sem pensar quando nossos comportamentos no so aprovados.
90













































































#CondenadonaCasadeCaifspeloSindrio

Nenhum rei pode trabalhar em equipe se no sai do seu trono e se coloca no mesmo nvel dos seus sditos. Do mesmo modo, quem se senta no trono da sua empresa, da
sua escola, da sua instituio, nunca ter nada para aprender com as pessoas que o rodeiam. Quem s sabe dar ordens e olhar as pessoas de cima para baixo, nunca
conseguir exercer um trabalho humanizado. Quem no governa seu prprio mundo jamais ser um bom lder dos outros. O mestre de Nazar apesar de ser to sublime na
sua capacidade de pensar no se posicionou acima dos homens, no se tornou um extraterrestre, um corpo estranho em seu meio social. Era um mestre na arte de ouvir,
compreender os sentimentos, estimular a inteligncia e valorizar as pessoas que o rodeavam. Sabia trabalhar em equipe como ningum, pois sabia descer ao nvel das
pessoas. Se ele era Deus, foi de fato um Deus brilhante, digno de ser amado, pois teve a coragem de sair do seu trono. Jesus foi um mestre to encantador que nem
ao menos teve cime de sua posio. Teve a coragem e o desprendimento de dizer aos seus discpulos que eles fariam maiores coisas do que ele fez. Quem se comporta
deste modo? At nos departamentos das universidades tal solidariedade  utopia, pois nela no poucos intelectuais vivem cercados por cime e vaidade. O mestre dos
mestres foi excepcional. Somente algum to grande  capaz de estimular os outros a ultrapass-lo.

Grande, mas pequeno
Alguns podem dizer que Jesus Cristo era absolutista, pois declarava possuir um poder extremo, mas, para nosso espanto, se recusava a us-lo em favor de si. Nunca
nenhum ser humano
91













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

disse possuir as verdades que ele possua. Mas, ao contrrio de ns, no obrigava ningum a segui-las. Sua grandeza reluzia na sua capacidade de se fazer pequeno.
Naqueles ares apareceu um homem convidando as pessoas a beber de uma gua nunca antes bebida, que saciava a sede da emoo, que resolvia o vazio da existncia e
cortava as razes da solido. Entretanto, s bebia dela quem tivesse uma sede espontnea, quem tivesse coragem para reconhecer que faltava algo dentro de si. Quem
no tivesse tal sede, podia seguir seu prprio caminho e esquecer o mestre da vida. Quem se julgava abastado podia ficar girando em torno do seu prprio mundo. Quem
no precisava de mdico e julgava que no tinha feridas em sua alma, podia exclu-lo de sua vida.

Rompendo o silncio
Retornemos  casa de Caifs. Os homens do sindrio estavam bombardeando Jesus com perguntas, mas ele nada respondia. Estavam incomodados com o seu comportamento.
No parecia um ru. Ele estava s portas da morte e sob o risco de mais uma sesso de tortura, mas se portava sem se perturbar. Eles o colocaram como ator principal
de uma falsa pea jurdica. Tudo o que lhe faziam no era novidade. Horas antes, no jardim do Getsmani, gemeu de dor e se preparou para suportar com dignidade os
mais aviltantes sofrimentos e humilhaes. Seu comportamento sereno diante do sindrio refletia a sua exmia capacidade de governar a quase ingovernvel emoo.
Cristo j havia se preparado para morrer. Muitas pessoas dizem que no tm medo da morte. S que fazem esta afirmao quando esto em plena sade. Diante
92













































































#CondenadonaCasadeCaifspeloSindrio

do apagar das luzes da vida, nossa segurana se esfacela. S no sente algum tipo de insegurana diante da morte quem nunca refletiu sobre ela. Tal insegurana,
longe de ser ruim,  uma homenagem  vida. A vida no aceita a morte. Nossas emoes clamam pela continuidade da existncia, nossos pensamentos clamam pela perpetuao
do espetculo da vida. Mesmo os que pensam em suicdio tm fome e sede da vida, s que no suportam a angstia e o desespero que os abate. Se aprenderem a no ser
submissos  sua dor e a navegar no territrio da emoo, ganharo um novo sentido de vida. O sindrio queria terminar o julgamento de Jesus. Caifs insistia para
que ele respondesse s acusaes que lhe faziam, mas ele mantinha-se em silncio. Entretanto, Caifs fez-lhe um pedido que ele no podia deixar de atender. Ele rogou
perante o Deus vivo que Jesus declarasse realmente se era o "Cristo", o filho de Deus. No momento em que Caifs faz este apelo, Jesus, mesmo sabendo que sua resposta
detonaria o gatilho da agressividade dos seus inimigos, rompeu seu silncio. Percorreu com seus olhos o sindrio e fixou-se no sumo sacerdote. Em seguida confirmou
sem margem de insegurana: "tu o disseste" 27. Talvez esperassem uma resposta negativa, um pedido de desculpas e de clemncia, dizendo que tudo que disseram sobre
ele no tinha passado de um grande engano. Mas sua resposta foi positiva. Foi to afirmativa que ele usou as prprias palavras de Caifs para mostrar que ele era
de fato o filho do Altssimo. Jesus declarou que o Deus que os homens do sindrio serviam era seu prprio Pai. E para no deixar dvida alguma sobre sua identidade,
foi muito mais longe. Completou a resposta com uma sentena que deixou seus inimigos atnitos, rangendo os dentes, espumando de dio. Vejamos.
93













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida


Revelando ser a pessoa mais poderosa do universo
Imediatamente aps declarar que era o filho de Deus, ele revela seu status. Diz com toda autoridade e sem meias palavras que tinha a mais alta posio do universo:
"Entretanto, eu vos declaro que desde agora vereis o filho do homem assentado direita do TodoPoderoso,evindo sobreasnuvensdocu"28. As principais tradues dessa
frase carregam o mesmo sentido, algo to grande que beira os limites da linguagem. Gostaria que antes de analis-la, o leitor refletisse sobre ela. O ilustre poeta
Carlos Drumond de Andrade disse: "Quanto mais se tem conscincia do valor das palavras, mais se fica consciente do emprego delas". Se existiu uma pessoa consciente
do emprego das palavras, essa pessoa era Jesus. Era econmico e preciso no falar. Tudo o que falava tinha a preciso de um cirurgio. Seus pensamentos escondiam
verdadeiros tratados. Sabia exatamente o que falava e quais as implicaes de suas palavras. Antes de analisar as reaes dos homens do sindrio, vamos investigar
as dimenses e implicaes do seu pensamento. Os fariseus o consideravam a maior heresia. Ele, ao invs de acalmar os nimos dos que o odiavam, derramou combustvel
em sua ira. Declarou que no era apenas o filho de Deus, mas que todos os homens do sindrio o veriam vindo sobre as nuvens do cu. Que significa isto? Significa
que, embora eles o matassem, ele venceria a morte, estaria vivo e ativo, por isso o veriam vindo sobre as nuvens do cu. O que significa vindo sobre as nuvens do
cu? Significa que, naquele momento, ele estava assentado
94

#CondenadonaCasadeCaifspeloSindrio

no banco dos rus, estava na condio de um simples carpinteiro, um nazareno desprezado e humilhado, mas um dia viria na posio inversa, viria com todo poder para
julgar a humanidade, inclusive os homens que o julgavam. Sua intrigante afirmao no pra por a. Ele teve a ousadia de dizer algo que nunca ningum teve a coragem
e at a inteligncia de dizer. Disse que se assentaria na mais alta posio do universo, uma posio impensvel, inimaginvel, exclusiva, ou seja,  direita do Todo-Poderoso.
Algumas verses dos evangelhos traduzem "TodoPoderoso" como "o Poder". Qualquer que seja a traduo, ela atinge o limite da linguagem. Jesus no disse que estaria
 direita de um poder, mas "do Poder", do poder mximo, sem limites, imensurvel. No  possvel usar outra expresso para definir um ser to grande. Dizer que seu
Pai  Todo-Poderoso significa que Ele pode estar em todo tempo e em todos os lugares. Perscruta os eventos e sabe de tudo antecipadamente. Faz tudo o que quer, quando
quer e do jeito que quer. Ele  to grande que tem caractersticas incompreensveis  mente humana. O tempo, a morte, as limitaes no existem para Ele. No se
submete s leis da fsica, pois todas as leis so obras de sua sabedoria. Nada  impossvel para Ele. Diante de tal poder, podemos perguntar: Se Deus  TodoPoderoso
por que no arranjou um plano menos angustiante para que seu filho pudesse resgatar a humanidade? Se Ele  ilimitado, por que no interveio no caldeiro de injustias
que borbulhou em todas as geraes? Por que h guerras, fome, misrias, morte de crianas? Essas perguntas tratam de um tema de fundamental importncia, que perturba
todos os que pensam. Confesso que durante anos fiquei perturbado tentando
95













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

garimpar algumas respostas. Esse tema ser tratado nos ltimos textos deste livro. Neles abordarei o plano mais ambicioso da histria. Do ponto de vista filosfico,
no cabe mais do que um Todo-Poderoso no universo, pois ao interpretar todas as vertentes semnticas dessa palavra, chegaremos  concluso de que se houver mais
do que um, eles limitariam um ao outro. O carpinteiro de Nazar indicou que no apenas venceria a morte, mas que estaria assentado  direita de Deus. O mais rejeitado
dos homens disse aos membros do sindrio que no estaria nem um milmetro abaixo e nem um milmetro acima do Todo-Poderoso, mas  sua direita. Jesus resgata aqui
sua divindade e revela seu status como "Deus filho". Diz que tem a mesma posio do Todo-Poderoso, portanto, imarcescvel, incriado, eterno. Por isso afirmou reiteradas
vezes que ele e seu Pai so um, possuem a mesma natureza. O mestre da vida  envolvido numa colcha de mistrios. Pesquis-lo  uma grande aventura. Sua histria
vai ao encontro da clebre frase: "H mais mistrios entre o cu e a terra do que sonha nossa v filosofia"*.

Chocando os homens do sindrio
Os homens do sindrio entenderam a mensagem de Jesus e ficaram perplexos com suas palavras. Jamais poderiam acreditar que estariam julgando e torturando o ser mais
importante do universo. No momento em que os judeus ouviram sua resposta, ficaram to escandalizados que rasgaram as suas vestes. Tal
* Shakespeare, William

96













































































#CondenadonaCasadeCaifspeloSindrio

atitude, tpica da cultura judaica, era tomada toda vez que algo muito grave, chocante e inadmissvel acontecia. No podiam estar mais perplexos. Os homens do sindrio
estavam num grande dilema: ou o consideravam a maior verdade do universo ou a maior heresia j proclamada por um homem. Preferiram a segunda opo. Como poderiam
crer num homem que se recusava a fazer milagres em pblico? Se fizesse qualquer milagre, poderia mudar o pensamento da cpula judaica, mas o mestre dos mestres no
mudava os seus princpios. Jamais faria um milagre para se promover. O seu rosto j estava edemaciado, os traumas ainda estavam doloridos, mas, desprezando a sua
dor, revelou sua identidade e escandalizou seus opositores. Que coragem  esta que vai at s ltimas conseqncias? Se ele tivesse se calado, teria evitado mais
uma sesso de tortura. Muitas vezes, simulamos e disfaramos nossas intenes. No creio que haja uma pessoa que no tenha mentido ou simulado seus pensamentos e
intenes diversas vezes na sua vida. Tais reaes derivam do medo de sofrermos conseqncias por nossa honestidade. O mestre preferia ser maltratado fisicamente
a ser pela sua conscincia. Como pode algum, que aparentemente estava derrotado, se mostrar imbatvel e se posicionar como senhor do universo?

Ru de morte
Caifs, como lder mximo dos judeus, foi o primeiro a rasgar a sua veste. Aps tal ato, bradou a plenos pulmes: "Ele blasfemou" 29. Controlado pela raiva, perguntou
aos membros do sindrio qual era o parecer deles. Responderam altissonantes: " ru de morte".
97













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

Os membros do sindrio desejavam ardentemente eliminlo. Suas palavras estavam contagiando todo o povo. Na sua resposta, encontraram o motivo. Para a multido que
amava Jesus nenhuma explicao era necessria para identific-lo, mas para os que o odiavam nenhuma explicao era possvel. Alguns escritores judeus da atualidade
dizem que Jesus era querido no meio da cpula judaica.No  verdade. Nutriam por ele uma rejeio visceral. Por que tamanha rejeio? A matemtica  simples. Se
cressem nele, teriam de mudar completamente a maneira de ver a vida e reagir ao mundo. Teriam de admitir que o Deus de Moiss e dos profetas, que foi proclamado
em verso e prosa nos Salmos, estava diante deles na pessoa de seu filho. Teriam de abandonar sua arrogncia e se dobrar aos seus ps.

A segunda e dramtica sesso de tortura
No momento em que os homens do sindrio bradam que Jesus era ru de morte, detonam o gatilho da agressividade, uma fria incontrolvel se apodera dos soldados sob
seu comando. Eles se aglutinam em torno dele e comeam a esmurr-lo, cuspir no seu rosto, esbofete-lo, chut-lo. Em minutos, multiplicam-se seus edemas e hematomas.
Seu rosto traumatizado desfigura-se ainda mais. O poeta da vida est quase irreconhecvel. Foi uma noite de terror. E, como se no bastasse a violncia fsica, eles
o torturaram psicologicamente. Cobriramlhe o rosto e o esmurraram dizendo: "profetiza quem te feriu" 30. Faziam-no o centro de um espetculo de deboche. Imensas
gargalhadas se ouviam no ptio da casa de Caifs. Todos zombavam do "falso" filho de Deus. Quem suportaria tanta humilhao?
98













































































#CondenadonaCasadeCaifspeloSindrio

Eis o grande paradoxo expresso na histria de Jesus: "Em nome de Deus os homens feriram a Deus, porque no descobriram que Ele estava escondido na pele de um homem".
Se tivssemos o poder que o mestre da vida confessava ter, o que faramos com nossos carrascos? Certamente os teramos agredido com igual violncia. Se o destino
da humanidade dependesse de nossa pacincia, a humanidade seria extinta. Foi um grande teste para Jesus. Ele nada fez. Simplesmente suportou o insuportvel.

Considerado uma escria humana
Um dia, um velho amigo chins me contou uma histria emocionante que ocorreu h muitos sculos na China. Um general chins, que queria destituir o imprio, foi capturado
pelo exrcito do imperador. Este planejou us-lo para que ningum mais se rebelasse contra o imprio. Pensou em coloc-lo diante do povo para humilh-lo publicamente.
O imperador tomou providncias para que o general no se suicidasse antes de dar a lio ao seu povo. O general ficou sabendo da inteno do imperador e considerou
a humilhao pior do que a prpria morte. Ento, antes que comeasse sua tortura, comeou silenciosamente a morder e triturar a sua lngua. Assim, ele comeou a
expelir grande volume de sangue pela boca e, antes que fosse humilhado publicamente, morreu de hemorragia. A grande maioria de ns carrega nos recnditos da alma
algumas pessoas que nos feriram ao longo da vida, que de alguma forma nos desprezaram. A dor da humilhao, ainda mais se for diante dos outros,  quase inesquecvel.
Cala fundo na alma, gera um sentimento de revolta.
99













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

Jesus, mais do que qualquer homem, foi humilhado publicamente. Teve quatro grandes sesses de tortura fsica e psicolgica. Sua humilhao no foi um simples desprezo,
mas um deboche no mais alto grau. Foi considerado uma escria humana, algum de quem as pessoas se envergonham e viram o rosto. Entretanto, no desistiu da vida
e nem se revoltou. Simplesmente suportou. Pouco tempo antes de ser preso, ele entrou em Jerusalm sob o clamor das multides. Estava no auge da fama. Porm, ao entrar
na cidade, chorou 31. Sua reao foi estranha e incomum para algum com altssimo ndice de popularidade. Todavia, no se importava com a fama. Queria o corao
dos homens. Chorou pelos habitantes de Jerusalm. Chorou pela dor das pessoas, pela distncia que seus lderes estavam de Deus. Desejava que eles se aproximassem
dele e conhecessem o mais belo dos caminhos, o caminho da paz. As lgrimas que rolavam pelo rosto do mestre da vida eram um testemunho vivo de que, apesar de ser
contra as prticas dos fariseus, ele os amava. Semanas mais tarde, ele foi preso. Livre, chorou; preso, um outro lquido escorria pelo seu rosto. O que ? So lgrimas?
No, estas j haviam sido derramadas. So gotas de escarro. Que contraste! Os homens cuspiam em seu rosto e um fluido viscoso escorria pela sua pele. A anlise psicolgica
desse ato revela que "cuspir"  smbolo pleno da rejeio. Ao ser cuspido, o mestre dos mestres foi rejeitado ao mximo. Quando chorou, Jesus tinha muitos motivos.
Os homens que falavam de Deus no tinham os atributos de Deus, no conheciam a compaixo, a misericrdia, o perdo. Se ele era Deus, como pde ser escarrado pelas
suas criaturas sem nada fazer? Qual a explicao? No h explicao. O amor  inexplicvel.
100













































































#CondenadonaCasadeCaifspeloSindrio


O topo da mansido no topo da dor
Qualquer pesquisador da psicologia que analisar a personalidade de Cristo ficar impressionado. Ele se comportava como um homem, mas  humanamente impossvel estar
tranqilo onde s havia espao para a ansiedade; estar sereno, onde s cabia o pnico. Ele no era controlado pelo medo. Seu comportamento sereno e tranqilo perturbava
os que o odiavam e os levava  loucura. Mesmo os homens de Pilatos aumentavam o grau de tortura por no v-lo reagir. Jesus, certa vez, deu um ensinamento inusitado
aos seus discpulos. Disse que no temessem o homem, fosse quem fosse, pois por mais violento, poderia, no mximo, tirar a vida do corpo e, depois disso, nada mais
poderia fazer. Completou dizendo que reverenciassem o Criador, pois nas mos dEle estava o destino do corpo e da alma humana32. De fato, nada que os homens pudessem
fazer contra ele o abalava. Somente isso explica por que, no topo da dor, o mestre da vida expressava segurana e brandura. H dois mil anos pisou na terra um homem
que atingiu o apogeu da sade emocional. Certa vez, o mestre da vida fez um convite que a psiquiatria e a psicologia moderna jamais tm coragem de fazer. Disse:
"Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei... Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de corao; e achareis descanso para
as vossas almas" 33. O convite de Jesus nos deixa impressionados. Ele discutia um assunto que estava se iniciando em sua poca e se desenvolveu ao longo dos sculos
e nos tem afetado coletivamente na atualidade. Antes de discorrer sobre sua proposta, vamos analisar nossa qualidade de vida no terceiro milnio.
101

#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

Se um psiquiatra fizer este convite aos seus pacientes, ele tem grande chance de estar tendo um surto psictico. Os psiquiatras tambm so vtimas da ansiedade.
Tambm hiperaceleram seus pensamentos, roubam energia do crtex cerebral e ficam fatigados, cansados, ainda que no tenham feito exerccios fsicos que justifiquem
a dimenso deste cansao. Tenho pesquisado uma nova sndrome psquica, a SPA ou sndrome do pensamento acelerado. O excesso de bombardeamento de informaes no mundo
moderno e a hiperexcitao da emoo atravs da indstria do entretenimento, tais como TV, vdeo, internet, competies esportivas e profissionais, tm gerado a
sndrome SPA. O ponto central desta sndrome  a dificuldade do "eu" em gerenciar o processo de construo de pensamentos, o que se traduz por produo exagerada
e acelerada. Os sintomas da sndrome SPA so: hiperproduo de pensamentos, pensamento antecipatrio, ruminao do passado, ansiedade, dificuldade de ter prazer
na rotina diria, insatisfao existencial, a flutuao emocional, o sono insuficiente, dficit de concentrao e diversos sintomas psicossomticos, tais como cansao
fsico exagerado, cefalia, alterao do apetite. A SPA  a sndrome do homem moderno. Os que exercem um trabalho intelectual mais intenso esto mais expostos a
ela. Nem sempre ela  doentia, pois seus sintomas no chegam a ser incapacitantes, mas ela pode predispor o homem a ter ansiedade patolgica, depresso, sndrome
do pnico, transtornos obsessivos, doenas psicossomticas. Os juzes, advogados, os mdicos, os psiclogos, os executivos, os jornalistas e os professores tm freqentemente
e, em diversos nveis de intensidade, a SPA. Eles no conseguem
102













































































#CondenadonaCasadeCaifspeloSindrio

desacelerar o pensamento e poupar energia fsica e psquica. Gastam mais do que repem, por isso acordam fatigados. Os professores de escolas primrias e secundrias
de todo o mundo tm enorme dificuldade para ensinar, manter o silncio em sala de aula e conquistar o respeito dos alunos, porque muitos deles tambm so portadores
desta sndrome. Os alunos de um sculo atrs pensavam num ritmo bem mais lento do que os da atualidade. Por serem insatisfeitos, ansiosos e com enorme dificuldade
de se colocar no lugar dos outros, a escola virou uma priso para eles. Os alunos e a escolas esto em mundos e em ritmos diferentes. Se o mestre de Nazar j detectava
que os homens de sua poca tinham uma pssima qualidade de vida, estavam cansados, estressados e sobrecarregados, imagine como estamos no terceiro milnio. A vida
tem sido um espetculo onde h mais ansiedade do que tranqilidade. Todos somos candidatos ao stress. J ajudei diversos psiclogos e percebi claramente que muitos
sabem lidar com as dores dos outros, mas, como qualquer ser humano, tambm tm grande dificuldade de gerenciar suas emoes, principalmente nos focos de tenso.
Os psiquiatras, por tratarem das mazelas da alma, se psicoadaptam aos pequenos estmulos prazerosos da rotina diria e, sorrateiramente, se entristecem, perdem o
brilho da juventude. Envelhecem precocemente num lugar em que jamais deveriam envelhecer, no territrio da emoo. Por isso muitos deles se deprimem. H muitos psiquiatras
experientes, mas  raro encontrar um psiquiatra com mais de quinze anos de profisso contemplando o belo; alegre, solto, livre, vivendo cada dia como um novo dia.
Os antidepressivos tratam da depresso, mas no
103













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

produzem prazer. Os ansiolticos tratam da ansiedade, mas no produzem a serenidade. No sabemos como produzir um homem alegre e tranqilo. Mas h dois milnios
apareceu um homem que fez um convite nico para a humanidade. Propunha que os homens viessem a ele e aprendessem o que nenhuma escola ensina: tranqilidade, descanso
emocional, um pensamento desacelerado e lcido, um prazer existencial estvel. O mundo conspirava contra ele, mas ele ainda caminhava suavemente pela vida. Sabia
antecipadamente sobre a violncia do seu martrio, mas para o nosso espanto, no vivia a sndrome SPA. Tinha todos os motivos para ter insnia, mas dormia at em
ambientes em que todos estavam ansiosos, tal como no episdio do mar agitado. O mestre dos mestres era invariavelmente tranqilo num ambiente turbulento; era alegre
em situaes saturadas de conflitos. Ningum mais teve a ousadia e a eloqncia de proferir as palavras que Jesus proferiu. Era possvel observar com facilidade
os traos de um homem sereno e manso em seu julgamento. Estava no topo da dor fsica e psicolgica, mas se estivssemos presentes na cena, poderamos contemplar
um homem que exalava calma no caos. Que homem  este que governava seus pensamentos e emoes num ambiente em que era quase impossvel gerenciar a inteligncia?
A psicologia e a psiquiatria s no se dobraram aos seus ps porque no tiveram a iniciativa de investig-lo.

Caminhando em direo  casa de Pilatos
Jesus saiu sangrando da casa de Caifs, estava quase sem energia. Cambaleante, fez mais uma angustiante caminhada  fortaleza Antnia, onde se encontrava Pilatos.
Chegou a vez da poltica romana julg-lo.34
104













































































#CondenadonaCasadeCaifspeloSindrio

O sindrio desejava que Pilatos o condenasse velozmente e sem um julgamento formal e, ainda por cima, se responsabilizasse pelo nus da sua morte. Os lderes judeus
no queriam levar a culpa de cessar o flego do escultor da alma humana.35

105













































































#





















































CAPTULO 6









OS HOMENS DO IMPRIO ROMANO NA HISTRIA DE CRISTO: O PANO DE FUNDO

#Os Homens do Imprio Romano na Histria de Cristo: O Pano de Fundo


ntes de comentar o julgamento de Cristo conduzido pela poltica romana, gostaria de fazer uma sntese das caractersticas da personalidade e da atuao poltica
dos mais importantes personagens do imprio romano que participaram direta ou indiretamente de sua histria. Precisamos conhecer algumas reas dos bastidores polticos
do maior imprio da histria e usar este conhecimento como pano de fundo para compreendermos o julgamento do mestre dos mestres.

A

Herodes, o Grande
Herodes, o Grande, era o rei da Judia e da Galilia quando Jesus nasceu. Foi ele quem, movido pela ambio e controlado pelo medo, mandou assassinar o menino Jesus.
Como no tinha a identidade e a localizao exata do menino, enviou soldados para matar todas as crianas do sexo masculino abaixo de dois
109

#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

anos na cidade de Belm. Cometeu, assim, uma das maiores atrocidades da histria. Executou tal ato quando estava velho. Os anos no apaziguaram sua emoo. Herodes,
o Grande, era de famlia nominalmente israelita, mas, na realidade, no era judeu.Era um edomita, pertencia a outra nao. Teve um longo reinado. Reinou de 40 a.C.
a 4.d.C., portanto cerca de 44 anos. Foi o fundador da ltima dinastia judaica. Era filho de Antipater. Este teve uma posio de grande influncia no governo de
Hircano II, ltimo rei judeu e sumo sacerdote asmoneano. Antipater percebeu que o futuro da Judia, onde se encontra a cidade de Jerusalm, estaria nas mos de Roma.
Astuciosamente ganhou a amizade do imperador Pompeu e, depois da morte deste, de Jlio Csar. Auxiliou Jlio Csar com homens e dinheiro em algumas de suas batalhas
em 48 a.C. Este o recompensou, fazendo-o governador da Judia, Samaria e Galilia, territrio sob o domnio nominal de Hircano. Deste modo, a partir de Antipater,
Israel deixou de ter o seu prprio rei, algo inaceitvel para o seu povo. Aps o assassinato de Jlio Csar em 44 a.C., Antipater ganhou a confiana de Cssio, o
lder do partido republicano, o que lhe assegurava estabilidade em seu governo. Herodes, seu filho, seguiu perseverantemente sua poltica. Habilidoso, sabia que
no podia confrontar-se com aqueles que estavam dominando o mundo, por isso se aliou sucessivamente aos imperadores Pompeu, Jlio Csar, Cssio, Antnio e, finalmente,
a Augusto. Aproveitando as oportunidades polticas aps a morte de seu pai, acabou, por fim, tornando-se um rei confederado (rex socius) do imprio romano. Pelo
decreto do senado romano em 40 a.C., tornou-se rei da Judia. Em 37 a.C. casou-se com Mariana, neta do ex-rei
110













































































#Os Homens do Imprio Romano na Histria de Cristo: O Pano de Fundo

Hircano. Corajoso, apoderou-se de Jerusalm com auxlio de duas legies romanas. Herodes tambm era um poltico dotado de pacincia. Gastou nove anos para fortalecer
sua posio at tomar Jerusalm. Na ocasio, seu instinto sanguinrio se revelou. Mandou assassinar quarenta e cinco membros (maioria saduceus) do sindrio, e matou
toda casa asmoneana, linhagem judaica que governava a Judia. Apesar de violento, Herodes se mostrou um grande construtor. Os quatorze anos seguintes empregou na
construo de edifcios pblicos, incluindo o teatro de Jerusalm. Edificou tambm novas cidades, a maior das quais era Cesaria, em homenagem ao imperador. Sua
maior obra foi a reedificao do templo. Entretanto, a guia de ouro, smbolo da supremacia romana, que ele colocou em cima da entrada principal do templo, foi para
o povo judeu uma lembrana amarga e constante da servido imposta por Roma. Herodes teve um reino material privilegiado. Desfrutou de relativa tranqilidade poltica.
Protegeu o comrcio e a agricultura e apresentava socorro social em situaes de calamidade. Entretanto, seus feitos no foram valorizados devido  arrogncia e
s violaes dos direitos humanos. Como acontece com todos os homens agressivos que dominam seu povo com mo de ferro, sua vida estava freqentemente ameaada por
conspiraes. Porm, esmagava e torturava seus inimigos. No poupou nem sua amada esposa, Mariana. Tinha vrias mulheres, mas seu corao era de Mariana, uma judia.
Amava-a intensamente*. Porm, Mariana rejeitava-o por ter matado muitos membros de sua famlia. Toda vez que Herodes chegava fatigado das longas batalhas, procurava
o
* Josefo, Flvio, Histria dos Hebreus, Editora CPAD, Rio de Janeiro, 1990.

111













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

amor e carinho da esposa. Todavia, encontrava uma esposa deprimida, que pouco se importava com seu poder e glria. Mariana era rejeitada por membros da famlia do
rei. Certo dia, influenciado por falsas denncias produzidas por seus parentes, o poderoso Herodes mais uma vez expressou ser pequeno de alma. Era diferente de Jesus,
que aceitava ser abandonado, negado e trado sem nada cobrar de ningum. Mandou assassinar a sua amada por suspeitar que ela conspirara contra ele. Herodes, conhecido
como "o Grande", era infantil na capacidade de compreenso da dor humana. Ao matar quem tanto amava, sua vida se converteu em tormento; sua glria, em maldio.
Vivia para o poder e no viu mais dias felizes. A ambio transformara o poder num crcere. Posteriormente, em 7 a.C., Herodes vai ainda mais longe em sua agressividade.
Influenciado por um dos seus filhos gerados de outra mulher, manda matar os dois filhos que tinha com Mariana, Alexandre e Aristbulo. O motivo era novamente uma
falsa conspirao. Herodes era um rei to frio e inumano que Augusto, o grande imperador romano, chegou a expressar que preferia ser "um dos seus sunos a ser um
dos seus filhos". Herodes no tinha descanso fora nem dentro de si. Houve, de fato, um filho que conspirou contra ele. Na reunio de julgamento, este filho derramou
lgrimas e implorou a compaixo do pai, mas ele no o perdoou. Mandou assassinlo. Jesus, apesar de expressar que era o senhor do mundo, no apenas valorizava os
sentimentos ocultos das pessoas mais simples, mas era capaz de ser dcil at com seus torturadores. Fez da compreenso uma arte e do perdo uma poesia. Conseguia
perdoar homens indesculpveis36. Para o mestre de Nazar, a vida de cada ser humano no
112













































































#Os Homens do Imprio Romano na Histria de Cristo: O Pano de Fundo

tinha preo; para o rei da Judia e da Galilia, no valia quase nada. Herodes queria o poder; Jesus, o corao humano. Herodes se colocava como deus e fazia dos
homens joguete de seus caprichos, Jesus se colocava como um simples carpinteiro, um escultor da alma, capaz de faz-la reencontrar o sentido da vida. Foi neste cenrio,
no final de sua vida, que apareceram alguns magos do oriente em Jerusalm trazendo uma notcia incomum: o nascimento de um menino especial, destinado a ser rei.
A notcia se espalhou como relmpago entre os homens da cidade e chegou at aos ouvidos do ambicioso Herodes. Convocados  sua presena, os magos relataram uma viso
impressionante. Viram uma estrela brilhante, diferente de todas as outras, que indicava o nobre nascimento. Herodes, embora debilitado fisicamente, ficou assombrado
com a notcia. O que se poderia esperar de um homem que assassinou sua esposa e alguns de seus filhos? Novamente sentiu seu reino ameaado. A velhice no lhe trouxe
sabedoria. O medo invadiu-lhe os pores da alma. Demonstrando uma falsa reverncia, pediu aos magos que, aps encontrarem o menino-rei, viessem notific-lo para
que tambm pudesse ador-lo. Quem ama o poder acima da sua conscincia cultiva a poltica com mentiras. Herodes mentiu para esses magos, pois jamais admitiria outro
rei em seu reino. Aps certo tempo, os magos no apareceram. O rei, sentido-se trado, mais uma vez se embriagou de clera. Apesar de abatido por doenas e pela
idade, mandou, como disse, assassinar todas as crianas menores de dois anos. Crianas que mal balbuciavam as primeiras palavras e davam seus primeiros passos nessa
sinuosa existncia foram tolhidas no direito  vida. Sangrando crianas e dilacerando o corao de suas mes, Herodes mostrou que homens de sua estirpe nunca estiveram
113













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

preparados para governar nem para amar. Herodes queria matar quem no conhecia. No sabia os segredos que estavam ocultos naquelas pequenas crianas. O menino Jesus
ao invs de brincar, teve de fugir. Desse modo, no teve o direito  infncia, mal dava os primeiros passos e j sentia na pele a agressividade humana. O calendrio
usado em praticamente todo o mundo estabelece o nascimento de Cristo como marco para a diviso da histria. Todavia houve alguns erros de clculo. Ele nasceu em
torno de 5 a 4 a.C. e no no incio da era crist. Pouco tempo depois de assassinar as crianas, Herodes, o Grande, adoece mortalmente. A histria diz que ele comea
a apodrecer por dentro.  comido por vermes. Tem dores horrveis e nada o alivia. Foi deste modo que seus olhos se fecharam. Quando morreu, seu reino foi dividido
entre seus filhos: Arquelau (Judia e Samaria), Herodes Antipas (Galilia e Peria), Felipe (parte da Palestina). Arquelau aprendeu a violar os direitos humanos
como seu pai. Foi um governador violento. Alm disso, aos olhos de Roma foi considerado ineficaz. Em 6 d.C. foi banido para a Glia por Csar Augusto.

Herodes Antipas
Herodes Antipas, filho do rei Herodes, o Grande, permaneceu governando a Galilia at a vida adulta de Jesus. Ele participou do seu julgamento e foi ele quem mandou
matar Joo Batista. Estudaremos em um captulo  parte a ao deste homem na histria do mestre da vida. Ficaremos impressionados com
114













































































#Os Homens do Imprio Romano na Histria de Cristo: O Pano de Fundo

o paralelo entre Herodes Pai (o Grande) e Herodes filho (Antipas).

Tibrio Csar- imperador
Tibrio no teve uma participao direta nos sofrimentos de Cristo. Mas este viveu boa parte da sua infncia e vida adulta quando o mundo era dominado por Tibrio.
Portanto, indiretamente, as aes de Tibrio se refletiram na histria de Jesus e em seu julgamento, principalmente atravs do governador que ele designara para
a Judia, Pilatos. A Efgie de Tibrio estava estampada no denrio, moeda romana paga pelo trabalho de um dia. Usando a imagem estampada nesta moeda, Jesus confundiu
a inteligncia dos seus acusadores, dizendo: "Dai a Csar (Tibrio) o que  de Csar e a Deus o que  de Deus" 37. Tibrio era um imperador tirano. No foi complacente
nem com os senadores romanos. Mandou matar muitos deles. Seu filho Druso, que o substituiria no trono, morreu. Queria, ento, que o filho de Druso, Tibrio neto,
assumisse o imprio depois da sua morte.Contudo, no desejava desprezar seu sobrinho Caio Calgula. Almejava dar-lhe uma oportunidade para assumir o trono, embora
essa no fosse sua preferncia pessoal. Como era muito supersticioso, certa noite consultou os deuses de Roma e disse para si mesmo que aquele (Caio ou Tibrio neto)
que aparecesse primeiro pela manh no palcio e o cumprimentasse seria este o que os deuses queriam que o substitusse. Todavia, deu um jeito para que a vontade
dos deuses fosse idntica  sua. Pediu para que alguns guardas
115













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

procurassem seu neto e o introduzissem primeiro no palcio. Entretanto, o neto, envolvido em festas noturnas, no foi encontrado. Ento, Caio, sem o saber, apareceu
primeiro. Deste modo, tornou-se Csar. Antes de Caio se tornar imperador, Tibrio fez-lhe um grande apelo. Recomendou-lhe que nunca esquecesse o favor que lhe fizera
permitindo que ele o substitusse no trono. Suplicou-lhe que preservasse a vida de Tibrio neto, que jamais lhe fizesse mal. Caio Calgula prometeu, mas esqueceu-se
da promessa. Pouco tempo depois de assumir o imprio, o dcil e frgil Caio revelou sua face inumana. O poder o embriagou. Por temer que o jovem Tibrio neto se
tornasse uma ameaa ao seu poder, pressionou-o para que ele mesmo se matasse na frente do prprio Caio e de outras pessoas. O jovem Tibrio, sabendo que morreria,
se imolou. Cometeu um falso suicdio* Caio foi um imperador algoz, um carrasco da mais alta violncia. Sua agressividade chegava a patamares to altos que no apenas
mandava matar seus inimigos, mas tambm seus prprios amigos. No poucos senadores romanos foram mortos por ele. Por fim, no se contentou em ser imperador. Como
disse no primeiro livro desta coleo "O Mestre dos Mestres", ele chegou ao extremo de querer ser adorado como Deus. Seu reinado durou pouco, cerca de trs anos
e meio. Calgula era to intragvel que foi assassinado pelo chefe de sua prpria guarda, com a conivncia de muitos senadores do imprio. Nunca houve um imprio
to grande e que subsistisse por tantos sculos como o imprio romano. Ele era grande em
* Josefo Flvio, Histria dos Hebreus, Editora CPAD, Rio de Janeiro, 1990.

116













































































#Os Homens do Imprio Romano na Histria de Cristo: O Pano de Fundo

poder, mas tambm grande em corrupo e violncia. A corrupo  um vrus que infecta o poder. Nunca morre, apenas fica latente. Os governos que no o combatem morrem
por dentro.

Pncio Pilatos
Depois que Arquelau, filho do rei Herodes, foi exilado para a Glia em 6 d.C., a dinastia herodiana se extinguiu na Judia e Samaria. Roma deixou de nomear os filhos
de Herodes e passou a estabelecer procuradores que governavam estas regies sob sua influncia direta. Pilatos foi o quinto dos sete procuradores romanos que de
6 a 41 d.C. governaram a Judia e Samaria. Pilatos governou a Judia por nove a dez anos. Muitos pensam que Pilatos era um homem justo. Usam seu famoso gesto do
"lavar as mos" como se este fosse uma reflexo de justia. Entretanto, nem o gesto de Pilatos nem a sua histria expressam justia, mas desumanismo. O historiador
judeu Filo cita uma carta do rei Agripa I, na qual Pilatos  apontado como "um homem inflexvel e de carter irrefletidamente severo... Sua administrao era cheia
de corrupo, violncia, furtos, maus tratos para com o povo judeu, injrias, execues interminveis sem a forma sequer de julgamento, e intolerveis crueldades".
O massacre mencionado no registro de Lucas 13  uma prova da crueldade deste homem38. Na ocasio, alguns galileus foram mortos por soldados de Pilatos enquanto estavam
provavelmente oferecendo sacrifcios no templo. O sangue deles foi misturado com o sangue de seu sacrifcio Pilatos era to arrogante que freqentemente feria os
sentimentos de liberdade religiosa do povo judeu. Liberdade
117













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

que era patrocinada pelo imprio romano, sendo tal patrocnio um dos segredos da sua estabilidade. Pilatos desprezava e provocava a cpula judaica. Estudaremos que
ele, no julgamento de Jesus, o usava para desafiar os homens do sindrio, dizendo: "eis o vosso rei" 39. Israel nunca aceitou o domnio de Roma, por isso fazia constantes
rebelies contra o imprio. Todos os governantes tinham medo de uma revolta do povo judeu, mas Pilatos no se importava com eles. Massacrava as revoltas. S havia
um homem que Pilatos temia, o imperador Tibrio. Tibrio era considerado o senhor do mundo. Pilatos tinha medo de que o imperador pudesse destitu-lo do seu poder.
Seu governo desptico e violento amotinou de tal forma os judeus que Vitlio, governador da Sria, enviou mensagem a Tibrio para dar conta dos seus feitos. Logo
aps a morte do Imperador, seu governo acabou repentinamente. A histria diz que Pilatos, em seguida, suicidou-se.

118













































































#

















































































































CAPTULO 7

O JULGAMENTO PELO IMPRIO ROMANO

#OJulgamentopeloImprioRomano


s leis romanas representavam a mais bela cultura jurdica e o mais belo solo dos direitos humanos da Antiguidade. Elas influenciariam decisivamente o direito moderno.
Todavia, no poucos lderes do imprio distorceram as leis e corromperam o direito. Devemos nos perguntar: Jesus teve um julgamento justo? As leis romanas garantiram
seus direitos fundamentais? Pilatos respeitou a norma da lei ou esfacelou-a? Precisamos compreender por que o julgamento do mais inocente dos homens se converteu
em pena mxima e por que durante o seu processo ele foi afligido.

A

As trs acusaes dos judeus
Os judeus foram apressados a Pilatos. Precisavam convenc-lo a executar Jesus antes que a populao organizasse uma revolta. Atropelar a conscincia do governador
da Judia e faz-lo satisfazer o desejo do sindrio no seria uma tarefa fcil.
121

#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

Lucas registra que Herodes Antipas, o filho do Rei Herodes, sabia que Jesus era famosssimo e, por isso, desejava conhec-lo. Pilatos certamente tambm sabia da
fama de Jesus. Tal tese fica demonstrada pelo seu rpido convencimento de que o mestre era inocente. Estava convicto de que ele no oferecia risco para a estabilidade
do Estado. Os judeus fizeram trs graves acusaes para Pilatos sobre Jesus. Primeira, acusaram-no de agitar a nao. Segunda, de vedar pagar tributo a Csar. Terceira,
de se fazer rei. As trs acusaes eram bem srias, mas falsas.

Primeira acusao: agitar a nao
Jesus magnetizava as pessoas. Seu poder de comunicao era fascinante. Os homens ficavam extasiados ao ouvir suas palavras e pasmados com a grandeza dos seus gestos.
Um carpinteiro causou uma grande revoluo em suas vidas. O homem comum foi levado por ele aos degraus mais nobres da dignidade. O mestre da vida deu profundas lies
aos homens. Despertou o nimo e o sentido da vida deles. Ensinou-os a amar a verdade e a ser fiis  sua conscincia. Lapidou suas inteligncias, os conduziu a pensar
antes de reagir e no impor as idias, mas expor com sabedoria e sem coaes. Vacinou-os contra a competio predatria, o individualismo e a agressividade. Conduziu-os
a pensar na brevidade da vida e a buscar metas que transcendem o tempo. Com seus discursos mpares, o mestre arrebatava as multides, mas no tumultuava a sociedade.
Acus-lo de agitar e estimular a destrutividade era totalmente falso. Na realidade, ele equilibrava e dava estabilidade  sociedade. Propiciava
122













































































#OJulgamentopeloImprioRomano

condies para que as relaes sociais fossem reguladas pela solidariedade, justia e com os mais nobres sentimentos. No agitava a nao, mas balanava o corao
dos homens. Dizia que era a luz do mundo40. De fato, brilhava onde a luz do sol nunca penetrara. Embrenhava-se pelas frestas da alma, iluminava os becos da emoo,
lanava fora todo temor e irrigava de esperana os abatidos. As multides afluam para ver o fulgor do mestre. Era impossvel ocult-lo. Certa vez, um jovem morava
num poro escuro. Sentiase inseguro e amedrontado no breu. Queria de todos os modos colocar uma lmpada neste poro. Aps ganhar dinheiro, contratou um eletricista
e satisfez seu desejo. Eis que naquela noite no dormiu, a luz o incomodou.Por qu? Porque iluminou o ambiente e revelou teias de aranhas, baratas e imundcias.
Somente depois de fazer uma boa faxina, ficou tranqilo e adormeceu. Os fariseus viviam na obscuridade. Como no admitiam nem desejavam fazer uma faxina em suas
almas, a luz do mestre os incomodava. Em que soluo pensaram? Preferiram destruir a luz a ser iluminado por ela.

Segunda acusao: vedar pagar tributo a Csar
A mquina do imprio romano era carssima. As mordomias do imperador e dos senadores, bem como os salrios dos exrcitos de dezenas de milhares dependiam dos impostos
do mundo dominado para ser sustentados. O imprio inchou, para sobreviver precisava ser grande.
123













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

Jesus no vedava pagar tributo a Csar. No livro "O Mestre da Sensibilidade"*, comentei este assunto. Ele no queria extinguir o governo poltico nem sua sobrevivncia
atravs dos impostos. Discorria sobre um outro reino, um reino eterno, onde no havia injustia, lgrimas, dores e morte. As pessoas deveriam dar a Csar o que 
de Csar e a Deus o que  de Deus41. Em sua convicta opinio, o homem deveria procurar em primeiro lugar o reino de Deus. Deveria perceber que a vida humana, embora
seja bela, se evapora como uma gota de gua no calor do dia. A conscincia da brevidade da vida deveria colocar colrios em seus olhos e faz-lo enxergar um mundo
que ultrapassa a esfera material, alm dos limites fsicos. O mestre da vida no queria que o homem deixasse de ser ambicioso, mas ambicionasse acumular um tesouro
que a traa no corri e nem os ladres roubam. O tributo pago a Csar dependia do suor do trabalho. O tributo pago a Deus no dependia do dinheiro, bastava um corao
simples e disposto a amar.

Terceira acusao: fazer -se rei
O mestre de Nazar no queria se fazer rei, embora tivesse todos os atributos para ser o mais brilhante rei. Era lcido, sbio, perspicaz, eloqente, justo, amvel,
afvel, sereno, equilibrado, mas no queria o trono poltico. As pessoas queriam faz-lo rei, mas ele rejeitou esta proposta. Nem mesmo o trono do imperador romano
o seduzia. Indicava que nem o trono nos cus, uma dimenso incompreensvel ao pensamento humano, o satisfazia.
* Cury, Augusto J., Anlise da Inteligncia de Cristo- O Mestre da Sensibilidade, Academia de Inteligncia, So Paulo, 2000.

124













































































#OJulgamentopeloImprioRomano

O mundo ficava embasbacado com seu poder. As pessoas ficavam paralisadas com os seus discursos. Tinha o que todo poltico sonhava, mas nem o auge da fama o animava.
Queria ser rei no nico lugar em que no reinava: no corao humano. Preferia o amor de pessoas simples ao ribombar dos aplausos da multido.

A cpula judaica pressiona Pilatos
As acusaes feitas pelos judeus eram srias. A pena de morte dos judeus era por apedrejamento42. A crucificao era uma prtica fencia, que depois foi adotada
pelos gregos e posteriormente incorporada pelo imprio romano. Roma s crucificava escravos e criminosos atrozes. Cristo por quatro vezes havia predito que seria
crucificado. A quarta e ltima vez foi predita pouco tempo antes de morrer, alguns dias antes da pscoa judia43. O carpinteiro de Nazar sabia que no morreria apedrejado.
 incomum algum prever a maneira pela qual sua vida ser extirpada e mais incomum ainda  ver algum, tal como Jesus, dirigir seu prprio julgamento com gestos,
palavras e momentos de silncio. A morte por apedrejamento  rpida, enquanto a por crucificao  lenta e angustiante. Esquivou-se do apedrejamento, pois queria
morrer como o mais vil dos homens. Almejava passar em todos os testes de suplcio. A histria de Jesus  saturada de enigmas. Ns diariamente nos desviamos da dor;
ele, mostrando uma emoo inabalvel, foi ao encontro dela. A liderana judia ponderou nas conseqncias sociais de apedrejar o mais amvel e admirado dos homens
de Israel. Arquitetaram, ento, usar a poltica romana para executar a
125













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

inteno escusa. Decidiram que Roma condenaria aquele que ela considerava o mais insolente blasfemador. Livres da responsabilidade da morte de Jesus, os fariseus,
os escribas e os sacerdotes manipularam o povo, levaram-no a desprez-lo e a v-lo como um agitador poltico. Assim, essa brilhante nao no o investigou detalhadamente
at hoje. Quem sabe este livro propicie condies para que alguns judeus investiguem a histria do mestre dos mestres.

A estabilidade do imprio romano era devido  tolerncia
Um dos motivos da fragilidade dos regimes socialistas foi a falta de tolerncia e respeito pela cultura e prticas religiosas. As democracias capitalistas tm inmeras
doenas, mas um dos segredos de sua razovel estabilidade  a existncia de um bom sistema circulatrio de liberdade de expresso e de pensamento.  possvel aprisionar
os corpos e algemar as mos, mas no  possvel encarcerar os pensamentos. Ao tentar aprisionar o pensamento das pessoas, os regimes ditatoriais construram uma
poderosa arma contra si mesmo. At nas doenas psquicas o encarceramento do pensamento explode de ansiedade e se volta contra o corpo como inmeros sintomas psicossomticos.
Roma devia ter cerca de 750 anos (anno urbis) de fundao quando nasceu Jesus. No incio era um povoado tmido, mas com o passar do tempo, Roma se desenvolveu e
se tornou um vasto imprio, que durou muitos sculos. Antes de muitas sociedades modernas, ela descobriu que sua sobrevivncia como imprio s poderia ter razovel
estabilidade se respeitasse a
126













































































#OJulgamentopeloImprioRomano

cultura e as prticas religiosas. Portanto, no havia sentido a cpula judaica conduzir o mestre de Nazar a Pilatos, pois o conflito existente era uma questo cultural,
espiritual, de liberdade de conscincia. Portanto, no competia a Roma julgar tais assuntos. Pilatos sabia disto, por isso no queria julgar o caso. O governador
tinha conscincia de que os judeus o estavam entregando por inveja44. Na primeira parte do julgamento, interrogou Jesus por duas vezes. Na primeira vez que o entrevistou,
no conseguia achar crime algum passvel de morte. Por isso insistia em que o sindrio o julgasse segundo a lei dos judeus. Perspicazes, eles se esquivaram, dizendo
que no lhes era lcito matar algum. Temiam uma convulso social. O ru interrogando Pilatos Como os judeus no queriam sujar suas mos, Pilatos retorna ao pretrio,
 sala de julgamento e pergunta a Jesus se ele era o rei dos judeus. Jesus, para espanto de Pilatos, comea a interrog-lo, perguntando de quem partia aquela pergunta.
Com a mesma ousadia com que interrogou Ans, o mestre interroga o governador da Judia. O mestre da vida estava estimulando Pilatos a pensar. Queria que ele sasse
do clima de tenso, fizesse um julgamento isento de nimo, fora da influncia da cpula judaica. Mas o governador no entendeu. Estava dominado pelo clima tenso
e respondeu asperamente a Jesus dizendo que ele no era judeu. Disse pejorativamente que "a tua prpria gente"  que o estava entregando para ser julgado.
127













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida


Uma resposta perturbadora
Diante da arrogncia de Pilatos, Jesus entra em cena e diz algumas palavras que abalam os alicerces deste rspido governador. Fala que o seu reino no era deste
mundo e que se fosse deste mundo os seus ministros empenhar-se-iam para que ele no fosse entregue aos judeus. Pilatos entendeu a mensagem intrigante. Por isso,
emenda em seguida: "Logo, tu s rei" 45. Ao que Jesus responde: "eu para isso nasci e para isso vim ao mundo". O governador no podia acreditar no que estava ouvindo.
As implicaes das palavras de Jesus beiram ao inimaginvel. Ele diz que seu reino no  deste mundo. Infere que h um outro mundo. A cincia s consegue perceber
e estudar os fenmenos fsicos de um mundo material, ainda que estes fenmenos aconteam em galxias distantes, a bilhes de anos luz. Entretanto, Jesus declara
que h um mundo alm dos fenmenos fsicos, um mundo to real que possui um reino. Neste reino, ele  rei. Embora rei de um outro mundo ele disse textualmente que
nasceu para ser rei, no um rei poltico, mas, como disse, do interior do homem. No queria subjugar e dominar o homem, mas mesclar-se com sua alma e ensin-lo a
viver. Como pode um homem ferido, que mal se agentava de p, dizer que nasceu para ser um grande rei? Jesus declara sem meias palavras que seu nascimento foi diferente
de todos os outros nascimentos. Foi direcionado e previamente planejado. Planejado por quem? No por Maria e Jos. Seus pais eram muito simples, embora especiais
por dentro. Foi planejado pelo Autor da vida. Tinha uma misso especial.
128

#OJulgamentopeloImprioRomano

Mas diferente de todo filho de um rei rejeitou o conforto de um palcio e as iguarias dos prncipes. Pilatos ficou perturbadssimo ao ouvi-lo. Pilatos no era rei,
apenas um governador preposto, mas um simples carpinteiro estava  sua frente dizendo que era rei de um outro mundo e que nasceu com um propsito incompreensvel
 sua mente. Quem estava diante do governador, um ru sangrando ou o herdeiro do mais poderoso trono?

O menino e o adulto
Herodes, o Grande, queria matar o menino Jesus, porque soubera que ele nascera para ser rei. Todavia, o menino cresceu em estatura e sabedoria. Todos queriam estar
ao seu lado. Sua inteligncia superou a de todos os homens. Sua didtica como contador de histria, estimulador da arte da dvida e da arte de pensar superou a de
Piaget e a de todos os educadores.Seu poder suplantou o dos imperadores, sua amabilidade e preocupao com o bem estar dos outros superou a todos os homens que defendem
os direitos humanos. Portanto, ele tinha tudo para ser o maior rei da terra. Teve a mais bela humanidade. O adulto Jesus no inspirava qualquer temor em Pilatos,
mas o menino Jesus colocou Herodes em pnico. Quando algo desconhecido bate  porta da alma, o primeiro a atender  a imaginao. Herodes, o Grande, imaginou o menino
crescendo e destruindo seu reino. Pilatos, apesar de sanguinrio, por conhecer o homem Jesus, o admirava e queria solt-lo. Que contraste! Quem sempre d flor contamina-se
com seu perfume. Pilatos, embora fosse um poltico injusto, aspirou um pouco o perfume do inusitado ru, daquele que s sabia dar flores.
129













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

Aps dizer que nasceu para ser rei, ele continua dizendo que veio para dar testemunho da verdade. Com tais palavras deixou mais confuso o governador da Judia. Inferiu
que entrou no mundo fsico no para fundar uma corrente de pensamento, mas para dar testemunho da verdade. E, com a maior segurana, completa dizendo:"Todoaquelequedaverdadeouveam
inhavoz" 46. A mente de Pilatos travou.  a primeira vez que um ru o deixa sem palavras. S conseguiu balbuciar: "O que  a verdade?". No espera a resposta de
Jesus, fica to perturbado que sai imediatamente de cena. Vai mais uma vez aos homens do sindrio intercedendo para solt-lo. A pergunta de Pilatos sobre "o que
 a verdade" no era uma pergunta filosfica, que indaga a natureza, limites e alcance da verdade. Era fruto de sua ansiedade. Pilatos disse qualquer coisa para
disfarar o quanto no compreendia o assunto discorrido por Jesus. Jesus estava livre; Pilatos, controlado pela sua ansiedade. O mestre dos mestres, embora ferido,
conseguia reinar sobre a insegurana do governador da Judia.

Testemunho da verdade
Jesus disse que veio dar testemunho da verdade. Cada frase que proferiu tinha grande significado. Que verdade ele veio testemunhar? No  a verdade lgica que a
cincia procura incansavelmente e no encontra, pois esta  mutvel, evolui com a expanso do conhecimento. Referia-se  verdade essencial,  verdade relacionada
ao Autor da existncia.  a verdade geradora, a fonte da criao, que era capaz de multiplicar pes, curar os leprosos, restaurar a vista aos cegos; a verdade que
entra na esfera da f, uma esfera onde a cincia se cala. Esta verdade, incompreensvel para a
130













































































#OJulgamentopeloImprioRomano

mente humana,  a fonte primeira, o princpio da vida e da existncia. Certa vez, Jesus agradeceu calorosamente seu Pai dizendo que ele ocultou seus mistrios aos
sbios e instrudos e se agradou em revelar-se aos pequeninos. Esta palavra indica que Deus  uma pessoa dotada de vontade e de preferncias. Ele se agrada ou se
aborrece com determinadas caractersticas da personalidade humana. Rejeita o orgulho e a auto-suficincia, mas agrada-se da singeleza e humildade. Para o mestre,
tais caractersticas so nobilssimas. No so expresso do coitadismo nem da auto-piedade, mas de uma disposio incansvel e vibrante de aprender. Agradou ao Pai
revelar-se aos pequeninos. Ser pequenino no quer dizer ser pobre financeiramente nem inculto intelectualmente, mas ser pequeno para perceber e ser ensinado por
aquele que  grande, o mestre da vida. Alguns so cultos ou ricos, mas so simples na maneira de ver a vida. Outros so incultos, mas podem ser arrogantes e impenetrveis.
Temos de tomar cuidado com nossa postura diante da vida. Quem  incapaz de questionar as suas verdades no tem mais nada para aprender. O seu conhecimento se transformou
num crcere. O mestre da vida s conseguia ensinar as pessoas que no estavam entulhadas com velhos conhecimentos, preconceitos cristalizados e verdades absolutas.
Os membros do sindrio, por se julgarem especialistas em Deus, no tinham mais nada para aprender. Ao olhar para o nazareno, no conseguiam enxergar nada alm de
um carpinteiro pretensioso e maltrapilho.
131













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida


Enviado a Herodes Antipas
Ao ameaar solt-lo, Pilatos sofreu grande presso da cpula judaica. A situao estava insustentvel. Ento, ao saber que Jesus era da Galilia, e sabendo que o
governador da Galilia, Herodes Antipas, estava justamente naqueles dias em Jerusalm, resolveu envi-lo a ele. A deciso de Pilatos de enviar Jesus a Herodes era
movida por dois motivos: a- Incapacidade de se safar da presso dos judeus e tomar a deciso no julgamento de Jesus de acordo com sua conscincia; b- Agradar Herodes
e resolver suas pendncias polticas usando o famoso ru. De manh bem cedo, o ru fez mais uma humilhante caminhada a outra autoridade romana. Alguns o viram passar
escoltado e ferido. No dava para reconhec-lo direito. Ansiosos, duvidaram da cena que viram e talvez a si mesmos se perguntaram: " possvel que o prisioneiro
seja aquele que abalou nossos coraes e nos animou a viver?"

132

#

















































































































CAPTULO 8

DOIS HERODES VIOLENTANDO JESUS

#Dois Herodes Violentando Jesus


O pai e o filho
Quando Herodes recebeu Jesus ficou extasiado. Sabia de sua fama. Os seus feitos inimaginveis tinham chegado aos seus ouvidos. Todavia, nunca vira o mestre, pois
este no parara em lugar nenhum. Ia de cidade em cidade, discursando sobre os mistrios da vida. Imaginem a cena. Na vida de Jesus passaram dois Herodes, o pai,
chamado de "o Grande", e o filho chamado de Antipas. O pai queria mat-lo e o filho vai agora julg-lo. O pai o perseguiu fisicamente e o filho iria tortur-lo psicologicamente.
O pai o considerou uma ameaa e o filho, um falso rei. Herodes, o Grande, no conseguiu mat-lo, mas Herodes Antipas conseguiu matar Joo Batista, o seu precursor.
Pelo capricho de uma mulher, Antipas mandou matar impiedosamente o apresentador de Jesus, a voz que clamava no deserto e endireitava as veredas dos homens para que
eles pudessem receber o filho do Altssimo. Herodes Antipas, ao mandar decapitar Joo Batista,
135

#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

mostrou sua face violenta. Ele, certa vez, disse arrogantemente que se tinha mandado matar Joo Batista, certamente abateria o nazareno. Herodes Antipas admirava
Joo Batista, mas, por fim, o matou. Pilatos tambm admirava Jesus, mas o crucificou. Isso indica que, em poltica, a conscincia, que  o leme da inteligncia,
 esmagada por interesses escusos. A vida humana valia pouco nas mos destes homens. Para eles, o ser humano, principalmente o de baixa posio social, no tinha
histria: no chorava, sonhava, inspirava e nem possua o espetculo dos pensamentos e das emoes. Parecia que no pertenciam  mesma espcie. Na realidade, todo
ser humano possui um mundo a ser descoberto. A pessoa mais insignificante socialmente possui uma brilhante histria. S no enxergam isso aqueles que vem o mundo
com seus olhos apenas.

Uma pacincia ilimitada
Jesus sabia que Herodes, o Grande, tinha mandado matlo quando criana. O que era pior, tinha conscincia de que ele sacrificou inmeras crianas inocentes para
tentar assassin-lo. Sabia ainda que Herodes Antipas tambm tinha matado um grande amigo seu, aquele que o apresentara ao mundo. Era por este homem que Jesus estava
sendo julgado. Os judeus estiveram na presena de Herodes e acusavam Jesus de sedio, de conspirar contra o imprio47. Queriam que ele tomasse a atitude que Pilatos
no tomou. Mas o governador da Galilia, por ter ouvido sobre os feitos sobrenaturais de Jesus, estava desejoso de v-lo fazer um de seus milagres. Queria ver um
show. Assim, pressionava de muitas formas para que o
136













































































#Dois Herodes Violentando Jesus

mestre da vida desse um espetculo. Deste modo, demonstrou que nem estava interessado nos anseios dos judeus e nem na histria de Jesus. Mais uma vez o mestre estava
entre a liderana judia e a autoridade romana. Se nos lembrssemos das crianas que morreram e da morte de um amigo, o que faramos em lugar do mestre? Jesus nada
fez. Ante aos apelos de Herodes Antipas para que os alegrasse, manteve um silncio frio. No trocou uma palavra com o governador da Galilia. Devia se lembrar da
lmina sacrificando as crianas, das lgrimas inconsolveis de suas mes. Devia se lembrar do seu amigo degolado. Herodes no teve seu show sobrenatural. Diante
disto, armou um circo e colocou Jesus como personagem principal do seu deboche. Vestiu-lhe um manto aparatoso e estimulou seus soldados a se divertir com ele. Deste
modo, eles o torturaram. Se tivssemos o poder que Jesus demonstrou ter, o que faramos a Herodes se fssemos humilhados? Muitos de ns, num ataque de raiva, o teramos
destrudo. Mas Jesus apenas se calou. O mais dcil e amvel dos homens mais uma vez se calou. O mestre da vida nos deu mais lies preciosas. No usou de violncia
com os seus inimigos. No topo da dor, usou a ferramenta do silncio. Cumpriu, assim, plenamente a sua palavra de ferida uma face dar-se a outra. Os homens o zombavam,
mas ele sabia se proteger, no deixava que a chacota deles lhe ferisse a alma. Seus inimigos no imaginavam que, atravs do seu silncio, ele os estimulava a pensar.
Entretanto, governados pelo dio, abortaram o pensamento. No temos a habilidade de proteger nossas emoes como o mestre da vida. Detonamos facilmente o gatilho
da
137













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

agressividade contra os que nos frustram. No matamos fisicamente, mas psiquicamente. Quantos no eliminamos de nossas vidas por nos ofenderem, nos decepcionarem.
Raramente h algum que no seja agressivo com os outros ou consigo mesmo. Os tmidos no so freqentemente agressivos com os outros, mas so violentos consigo
mesmos, se esmagam com sentimentos de culpa, no suportam errar, permitem que o lixo social invada o territrio de sua emoo. Nossa pacincia tem limites, nossa
trgua tem condies, mas a dele era ilimitada.

Usando a dor do mestre para a reconciliao poltica
Infelizmente, nos bastidores da poltica h muitos conchavos e acertos escusos. s vezes, a misria serve de excelente propaganda para que alguns polticos se promovam
politicamente. Se exterminarem com a indstria da misria muitos deles sero alijados do cenrio social. No campo do uso de drogas, esse fenmeno tambm ocorre.
As drogas no s interessam ao usurio e ao traficante, mas tambm queles que se promovem politicamente em cima da misria dos outros. Todavia, apesar de haver
polticos que maculam a arte de legislar e de governar, h polticos que honram esse ofcio intelectual, so amantes da honestidade. Pilatos e Herodes Antipas no
foram justos no julgamento de Jesus. Alm disso, fizeram conchavos polticos para fazer um acerto de bastidores. Pilatos governava a Judia; Herodes Antipas, a Galilia.
Antigamente essas regies eram governadas por uma s pessoa, o rei Herodes, o pai de Antipas. Com a morte de Herodes, o Grande, seu reino foi dividido
138













































































#Dois Herodes Violentando Jesus

entre seus filhos. A Judia, que inclui a cidade de Jerusalm, foi dada pelo imperador romano a Arquelau. Como disse, devido ao pssimo governo que este fez, seu
governo foi-lhe retirado e passado s mos de outros governadores, fora da dinastia de Herodes. Por fim, aps a Judia passar por alguns governadores, Roma estabeleceu
Pncio Pilatos como seu procurador. Pilatos e Herodes Antipas viviam debaixo de intrigas e contendas. Governavam regies vizinhas, mas no se entendiam. Como fazer
esses dois polticos se reconciliarem? Pilatos, esperto, procurou agradar seu vizinho usando o famoso ru como mercadoria. Herodes brincou com o destino do mestre,
usou-o como objeto de diverso e, assim, aplacou a ira contra Pilatos. Lucas relata que ambos se reconciliaram usando como tapete a dor daquele que jamais usou o
sofrimento dos outros para obter qualquer vantagem. A poltica saiu apaziguada; mas a justia, maculada.

Jerusalm desperta e comea a ver uma cena inacreditvel
Eram entre sete e oito horas da manh. Jesus seria crucificado s nove horas. Diversas pessoas viram uma cena espantosa. Contemplaram Jesus saindo da casa de Herodes,
inchado, com hematomas, cambaleante e vestido com um manto espalhafatoso indo em direo  fortaleza Antnia onde encontrava-se Pilatos. A notcia inacreditvel
j havia comeado a se espalhar na primeira caminhada at Pilatos e na segunda at Herodes. Muitas pessoas j estavam nas ruas. Agora, ao ver Jesus saindo da casa
139













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

de Herodes, os rumores se espalharam como fogo. Uns contavam para os outros. Jerusalm comeava a despertar para o que estava acontecendo. Descobriram que at seus
discpulos o abandonaram. Os habitantes de Jerusalm, bem como os milhares de homens e mulheres que vinham de lugares longnquos para vlo ficaram chocados. No
podiam crer que o mais forte e brilhante dos homens estivesse to frgil e solitrio. No era possvel que o nico homem que pisou nesta terra e ressuscitou mortos
estivesse morrendo. A f das pessoas ficou profundamente abalada. A possvel revolta que poderiam fazer para proteg-lo deu lugar ao espanto. No conseguiam se recompor
e muito menos culpar o sindrio, pois quem estava  frente do julgamento era o poderoso imprio romano. Jesus caminhava em direo a Pilatos. Para seus inimigos,
o seu sofrimento era um espetculo de sarcasmo; para os que o amavam, era um espetculo de dor. Eles morriam por dentro ao v-lo sofrer. Os seus discpulos no dormiram.
Passaram a noite insones, chorando por t-lo abandonado, angustiados por saber que o seu amado mestre estava sendo mutilado por seus inimigos. O desespero de Pedro
era grande. Havia contado que o mestre tinha sido drasticamente espancado e que ele o negara trs vezes. Ningum sabia o que dizer. O mundo parecia desabar sobre
eles. Foi uma noite inesquecvel.

140













































































#





















































CAPTULO 9









TROCADO POR UM ASSASSINO. OS AOITES E A COROA DE ESPINHOS

#Trocado por um Assassino. Os Aoites e a Coroa de Espinhos


Trocado por um assassino
Ao retornar  fortaleza Antnia, Pilatos rene os principais judeus e diz que no achara crime algum nele e nem tampouco Herodes, pois o havia devolvido. Portanto,
o governador se disps a solt-lo. E para aplacar-lhes um pouco a ira, disse que o aoitaria. Os judeus no aceitaram o veredicto de Pilatos. Solto, o fenmeno Jesus
se tornaria um perigo para os lderes da religio judaica. Diante da coao dos judeus contrrios  soltura, Pilatos usou sutilmente um precedente cultural para
libert-lo. Na pscoa judia, era costume o governante romano soltar um preso estimado pela populao. Tal atitude expressava benevolncia do imprio para com o povo.
Como era pscoa, Pilatos props entre os presentes soltar um criminoso. Mateus relata que o governador deu-lhes a seguinte opo: Barrabs ou Jesus48. Havia nesta
proposta duas intenes. A primeira era seguir sua conscincia e soltar Jesus, pois o considerava inocente. A segunda era provocar os
143

#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

judeus, pois a opo que lhes deu foi vexatria. Barrabs era um assassino, matou algum de sua prpria gente. Se tivesse assassinado um soldado romano, j estaria
morto, crucificado. O sindrio, portanto, teria de decidir: ou soltaria um assassino ou o carpinteiro da Galilia. Pilatos no deu escolha para eles, pensou certamente
que os lderes judeus concordariam em soltar Jesus. Contudo, para o espanto de Pilatos, eles no apenas optaram por soltar Barrabs, mas clamaram em coro por ele.
Preferiram um assassino ao poeta da vida. Preferiram algum que derramou sangue do seu povo quele que arrebatava as multides e a conclamava a amar os seus inimigos.
O mestre da vida foi preterido pelos homens que eram tcnicos em Deus. Desconsideraram sua histria, a ternura com que tratava os miserveis e os feridos de alma.
A soltura de Barrabs colocava em risco a vida de algumas pessoas, mas a do carpinteiro colocava em risco as convices e as verdades dos lderes de Israel. Tentaram
conter as chamas de Jesus Cristo, mas no adiantou. Mesmo torturado, humilhado e trocado por um assassino, ele incendiou a histria. Havia uma pequena multido,
algumas centenas de pessoas na presena de Pilatos. Ela era composta dos homens do sindrio, seus serviais e da coorte de soldados que prendeu Jesus. No era uma
grande multido e nem era a mesma multido que amava Jesus, pois esta era enorme e compunha-se de dezenas de milhares de pessoas de Jerusalm e de muitas regies
da Judia, Galilia, Samaria e outras naes. Todos os filmes a que assisti sobre Jesus tm uma grande dvida em relao  sua histria verdica. No resgatam os
fenmenos sociais e psicolgicos que estavam presentes no mago dos homens do sindrio, na multido que o
144













































































#Trocado por um Assassino. Os Aoites e a Coroa de Espinhos

acompanhava, na mente de Jesus e de Pilatos e nem na enorme multido que estava em Jerusalm por causa de Jesus. Jesus era muito famoso, mas como disse, aps ressuscitar
Lzaro, no podia mais circular livremente em Jerusalm. Por qu? Porque todos os dias morriam diversas pessoas. Os seus familiares procuravam desesperadamente por
Jesus para que ele os ressuscitasse. Como muitas dessas pessoas vinham de longe, elas deviam lotar as hospedarias. Todavia Jerusalm no estava preparada para receber
tantos visitantes. Muitos, portanto, deviam dormir ao relento. Jerusalm acordara perturbada. Pouco a pouco a notcia de que Jesus estava sendo julgado e que estava
com o rosto mutilado se espalhara. Os que estavam insones ou dormiam ao relento afluram primeiro em direo  fortaleza Antnia. Todos estavam vidos por mais notcias.
A chama de esperana daquele povo sofrido comeava a se apagar.

Um assassino ovacionado
Enquanto isso, a pequena multido dentro da casa de Pilatos reagia  soltura de Jesus. Influenciada e instigada pelo sindrio, ela gritava: "Barrabs! Barrabs!".
Nunca um assassino foi ovacionado desta maneira. Os homens gritavam a plenos pulmes para que Pilatos soltasse Barrabs. No campo religioso, cientfico, filosfico,
poltico, h uma grande quantidade de pessoas que no tm intimidade com a arte da dvida, por isso nunca duvidam de si mesmas e dos pensamentos daqueles que admiram,
assim no desenvolvem sua conscincia crtica. Defendem suas idias com convico, idias que nunca foram suas, mas plantadas por outros. Talvez algumas pessoas
que clamaram pela crucificao de Cristo
145













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

fossem seus admiradores dias atrs. Mas aps ter sido preso, elas mudaram seu pensamento, foram facilmente manipuladas pelos fariseus. O homem que reage sem pensar
e no pensa antes de reagir ser sempre um joguete nas mos dos mais eloqentes. O mais amvel dos homens ouviu o som estridente de que o trocavam por um assassino.
Jesus, neste momento, sentiu o pice da discriminao, uma discriminao igual ou maior do que a que muitos negros viveram e muitos judeus experimentaram na Segunda
Grande Guerra Mundial. O que sentiramos se estivssemos no seu lugar? O som penetrava em seus tmpanos, percorria seu crtex cerebral e atingia o cerne da sua emoo.
Se ele, juntamente com seu Pai, assinou a autoria da criao humana, ento, pode-se inferir que, neste momento, a criatura traiu drstica e completamente o seu Criador.
Judas j o havia vendido pelo preo de um escravo, agora os homens o trocavam por um homicida. Talvez, por saber antecipadamente que no havia lugar para ele na
humanidade, tenha preferido nascer num desconfortvel curral. Os animais foram mais complacentes com Jesus do que muitos homens. Se Jesus Cristo tinha o mais alto
poder do universo no seria este o momento de desistir da humanidade? Que amor  este que nunca desiste? A dor da rejeio  freqentemente inesquecvel. O fenmeno
RAM (registro automtico da memria) a registra de maneira privilegiada nas reas centrais da memria. Fica sempre disponvel para ser utilizada em novas cadeias
de pensamentos. Por isso, dificilmente algum que foi discriminado deixa, ainda que por momentos, de sentir o seu paladar ao longo da vida. Qualquer pessoa serviria
para ser trocada pelo amvel mestre da vida. Uma pessoa poderia cometer o crime hediondo
146













































































#Trocado por um Assassino. Os Aoites e a Coroa de Espinhos

mais repulsivo e, ainda assim, o sindrio rejeitaria Jesus e aclamaria tal criminoso. Se voc acha que ningum o valoriza, saiba que Jesus foi to rejeitado que
se colocassem voc e ele na frente dos homens do sindrio e da populao que o acompanhava, todos em coro clamariam pelo seu nome. Voc seria unanimemente louvado.
 possvel acreditar que aos olhos daqueles tcnicos em Deus somos mais importantes do que Jesus? Para os fariseus, o mestre dos mestres era indigno de estar vivo.
Barrabs saiu da banalidade para a aclamao, da clandestinidade para o herosmo. Jesus permaneceu em silncio. No se desesperou e nem se indignou com tal rejeio.
O mestre da vida usou a ferramenta do silncio para nos ensinar a no cair nas armadilhas da emoo e a no gravitar em torno do que os outros pensam e falam de
ns.

A violncia dos aoites
Se lermos atentamente palavra por palavra, vrgula por vrgula o procedimento de Pilatos nos quatro evangelhos, teremos a impresso de que ele funcionou como um
cirurgio que abria o corao infectado dos fariseus, infectado pelo orgulho e pela arrogncia. Aps ouvir o clamor da troca fatdica, ficou convicto de que a cpula
judaica queria a morte do nazareno de qualquer maneira e no descansaria enquanto ela no se materializasse. Inconformado, o governador no cedeu. No admitia que
aqueles homens controlassem a sua prpria conscincia. Ento, neste momento, ao invs de crucific-lo, preferiu flagel-lo com aoites. Pilatos, que aparentemente
parecia defender Jesus, mostra aqui sua face sanguinria. Indignado com o sindrio,
147













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

descarrega sua ira no ru. O homem Jesus sangrando no rosto sangraria, agora, nas costas. Os soldados de Pilatos saciam, ento, seu apetite por traumatizar Jesus.
Queriam ver a resistncia do homem que fez milagres impressionantes. Os aoites eram produzidos com um chicote chamado de "fragrum". O fragrum contm diversas tiras
de couro. Nessas tiras, so presos pedaos de ossos ou ferro, de sorte que cada chibatada no apenas causa edema e hematoma sbito, mas tambm ferimentos abertos.
Os homens aoitaram Jesus com dezenas de chibatadas. A pele se abria, os msculos intercostais se expunham. A todos os torturados era dado o direito de gritar, urrar
de dor, reagir com dio, pavor, mas quele que se propunha a ser o cordeiro de Deus para resgatar as injustias da humanidade, no eram admitidas tais reaes. Um
cordeiro sofre silenciosamente. O mestre da vida suportava calado as suas torturas, como uma ovelha muda perante seus tosquiadores49. Ao v-lo mudo, a ira dos seus
carrascos devia aumentar. Batiam-lhe mais forte. Queriam ver seus limites. Assim, o homem Jesus reagia com todas as suas foras para suportar o insuportvel. Certa
vez, uma excelente enfermeira, que havia tido uma crise depressiva, me contou em meu consultrio uma histria sobre o drama da dor dos ferimentos. Ela fazia freqentemente
curativos em feridas abertas. Quando os pacientes reclamavam de dor ou do desconforto da gaze, ela os criticava. Um dia, ela passou por uma cirurgia. A cirurgia
teve contaminao e a pele e msculos se infeccionaram e os pontos se abriram. Toda vez que algum ia fazer curativo nela era um tormento. Colocar uma gaze sobre
a pele aberta era como passar uma lixa sobre o corpo. Ela gritava de dor. Ento, se lembrou
148













































































#Trocado por um Assassino. Os Aoites e a Coroa de Espinhos

dos seus pacientes. Recordou que no tinha pacincia e nem compreendia a dor deles. A partir da, se tornou uma enfermeira muito mais amvel e tolerante. Imaginem
o que Jesus passou com os aoites. As tiras de couro com metais abriam-lhe a pele. Cada chibatada era uma cirurgia sem anestesia. Aps vestir seu manto, o sangue
se misturava com as fibras do tecido, era como se uma lixa roasse a superfcie de sua pele. Nada o aliviava, a no ser a misteriosa relao que mantinha com seu
Pai. A cada momento devia dialogar com Ele sobre sua dor, como o fez aps a ltima ceia. Devia conversar e orar silenciosamente com Ele a cada momento em que era
espancado, esmurrado, cuspido ou flagelado. Havia um ar de mistrio no seu martrio. Ele estava na condio de homem, mas ningum reagiu como ele no pice da dor.
Uma fora incrvel o sustentava. Gerenciava seus pensamentos e suas emoes em situaes impossveis de conservar a lucidez. O mestre de Nazar foi um prncipe no
caos.

Coroado com espinhos
No bastasse o tormento sofrido na casa de Ans, Caifs, Herodes e os aoites impostos por Pilatos, Jesus passou pelo ltimo e mais dramtico sofrimento antes de
carregar a cruz. Os soldados vendo-lhe a resistncia e sabendo que os judeus o acusavam de querer ser rei da nao, vestiram-lhe como a um falso rei. Trajaram-no
com um manto de cor prpura e colocaram sobre a sua cabea uma coroa real, s que feita de espinhos. E para debochar ainda mais do "falso rei", lhe deram um cetro
de segunda categoria, um canio de ferro. Estava pronto o cenrio de terror circense. Neste cenrio,
149













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

comea uma longa sesso de sarcasmo e espancamento. Uma coorte de soldados, cerca de 300 a 600 homens, se aglomera em torno daquele homem debilitado para se divertir.
Imaginem a cena. Jesus estava com o rosto inchado e cheio de hematomas, as suas costas sangravam sem parar. Provavelmente no lhe deram gua a noite toda. Estava
sedento e com o corpo todo dolorido. A sua debilidade no comovia os soldados. Cegoulhes o entendimento e o humanismo. Uma anlise sociolgica do comportamento humano
revela que os homens, quando esto irados e em pblico, reagem como animais. Se desejam chamar a ateno uns dos outros com deboches, cada um procura ser mais irnico
do que o outro. Alguns vo at s ltimas conseqncias. Os textos dizem que vrios soldados ajoelhavam-se aos ps do mestre da vida, querendo prestar-lhe uma falsa
reverncia50. Colocaram Jesus no centro de um picadeiro. Os soldados, rodeando-o, fizeram-no de palhao. Seus olhos deviam estar to edemaciados que mal devia enxergar,
mas via o suficiente para saber que no devia reagir. Jesus no abriu a boca. Talvez este seja o nico caso na histria em que uma pessoa tenha passado pelo topo
da discriminao e, ao mesmo tempo, golpeado pelo pice do deboche e do escrnio. Sua vida pautouse por extremos impensveis. Foi exaltado como rei e como Deus e
foi humilhado como o mais vil dos homens. Enquanto os mais engraados prestavam-lhe a falsa homenagem, ouviam-se longas gargalhadas da platia. Exclamavam: "Salve,
o rei dos judeus"51. Louvam-no com ironia. Deviam empurr-lo e faz-lo cair. Suas quedas excitavam os soldados. Divertiam-se com sua dor.
150













































































#Trocado por um Assassino. Os Aoites e a Coroa de Espinhos

Se escondido na pele do homem Jesus estava o ser mais poderoso do universo, como ele suportou ter sido o personagem central de um teatro de terror? Como permitiu
que os homens o ultrajassem e o fizessem de palhao? Se ns temos reaes agressivas com nossos filhos ou com nossos pais sem grandes motivos, quem de ns, se tivesse
tal poder, prescindiria de uslo para destruir nossos carrascos? Somos mestres da impacincia; ele, o mestre da mansido. Coroa de espinho e bofetadas No h notcia
na histria de que alguns homens tenham humilhado um rei no pleno exerccio do seu poder, e tenham sobrevivido. O rei Herodes no foi um milsimo ameaado pela sua
esposa e seus filhos como o foi Jesus, mas ainda assim os matou. A histria humana tem de ser recontada. Se o mestre da vida era o rei dos reis, se ele se assentava
 direita do TodoPoderoso, ento, dever-se-ia escrever em todos os tratados histricos: humilharam, torturaram e zombaram o maior de todos os reis, mas ele tratou
com brandura seus carrascos. Ningum saiu ferido a no ser ele. No h como no se curvar diante dele. Jesus suportava o sarcasmo humano porque sua emoo tinha
uma estrutura slida. No esperou quase nada dos seus amigos, sabia que eles o abandonariam. Dos soldados, esperava muito menos. No h dvida de que ele sofria
muito, mas por se relacionar com as pessoas com baixssima expectativa, no deixava o lixo de fora entulhar sua emoo. Um dos seus segredos era que ele se doava
muito e esperava pouco. Ns, ao contrrio, por esperarmos muito dos outros,
151













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

ficamos sempre frustrados. Alguns so derrotados com apenas um olhar ou um pequeno comportamento. Tudo os irrita. Os soldados, ao perceberem que Jesus no ia gritar,
no ia reagir nem pedir clemncia, ficaram impacientes e irritados. Para completar a agonia de Jesus, tomaram-lhe o falso cetro e deram-lhe na cabea52. Uma dor
horrvel e aguda permeou sua cabea. Os espinhos cravaram-se no couro cabeludo, uma rea intensamente irrigada. Dezenas de pontos hemorrgicos surgiram. O sangue
escorria por toda a sua face. Era o sangue de um homem. Suportou sua dor como um homem e no como Deus.  medida que o sangue percorria as reentrncias de sua face,
os soldados o esbofeteavam. As mos destes homens eram fortssimas, tinham uma musculatura hipertrofiada pelos exerccios com lanas e espadas. Ao ser esbofeteado,
devia sentir vertigem, tontura. Certamente caa com mais freqncia no cho. Ao cair, batia com a cabea no solo e, deste modo, a coroa de espinho cravava-lhe mais
intensamente. Ao bater as costas no cho, seu manto colava-se na pele esfacelada pelos aoites. Pelos fariseus foi tratado como uma escria humana; pelos romanos,
como um homem imprestvel, um impostor, um falso rei. O nico que rejeitou o trono poltico para reinar no corao humano recebeu como recompensa flagelos e aoites.
Como  difcil governar a alma humana! Mesmo ns no somos lderes de nosso prprio mundo. O mestre de Nazar foi dcil e paciente num ambiente onde s havia espao
para a ira e agressividade. Nunca ningum pagou um preo to alto por amar incondicionalmente o ser humano. A histria do mestre dos mestres abala qualquer um que
a investiga. Felizes no so os que tm alta conta bancria, os
152













































































#Trocado por um Assassino. Os Aoites e a Coroa de Espinhos

assediados pela mdia, os que moram em palcios, mas os que encontram motivos para amar mesmo quando eles no existem. Ele encontrou motivos para nos amar, mesmo
quando estes no existiam.

153













































































#

















































































































C A P  T U L O 10

A LTIMA CARTADA DA CPULA JUDAICA

#A ltima Cartada da Cpula Judaica


"Eis o homem!": uma expresso refletindo o topo da tortura.
Jesus foi aoitado, coroado com espinhos e esbofeteado pela coorte romana fora do ambiente onde estavam os homens do sindrio. Os soldados s no podiam mat-lo,
pois seu julgamento no chegara ao fim. Foram dez ou vinte minutos de espancamento, um tempo enorme para quem estava sendo massacrado por centenas de soldados sem
qualquer proteo. O mestre dos mestres estava literalmente irreconhecvel. No havia o rosto de um homem, mas uma face desfigurada. Como podemos afirmar isso? Pela
expresso usada por Pilatos ao apresentar novamente Jesus aos lderes judeus. Diz: "Eis o homem!"53. Com esta expresso Pilatos quis tocar a emoo dos judeus, faz-los
ter compaixo de Jesus. Parecia que o governador da Judia queria dizer: "eis a um homem acabado, mutilado, destrudo e sem condies de ameaar a vocs e a mim.
Vocs no conseguem enxergar que ele  apenas um pobre e miservel homem?".
157

#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

Ao ouvir a expresso "eis o homem", o sindrio se levanta e d um grande susto em Pilatos. Diz pela primeira vez ao lder romano que queriam mat-lo porque ele disse
ser Deus54, e o autor de tal blasfmia deveria morrer. Ao ouvir tais palavras, Pilatos entra em pnico. Ele sabia que Jesus era misterioso, j se perturbara com
suas palavras e expresses. Sabia que ele era um homem incomum, mas no sabia que ele havia confessado ser divino. Foi provavelmente neste momento que a mulher de
Pilatos entra em cena e lhe diz que tivera um sonho com Jesus e ficara perturbada. O mestre j havia tirado o sono de todos os fariseus, agora tirava o sono da mulher
de Pilatos. Motivado por sua esposa e convencido de que Jesus era inocente, resiste em crucific-lo. Pilatos mais uma vez chama Jesus ao pretrio. Retira-se para
ter com ele uma nova conversa particular. No sabia se o soltava ou se o indagava. O juiz estava confuso diante do ru.

Acusado de ser divino
Pilatos desejava uma resposta clara sobre a identidade de Jesus. Para obt-la usa a sua autoridade de governador conferida pelo imprio romano e diz: "No sabes
que tenho autoridadeparatesoltareautoridadeparatecrucificar?" 55.Jesusestava sob um julgamento romano formal. O imperador romano podia legislar, fazer leis. Aos
governadores sob o controle de Roma cabiam os direitos de executivo e judicirio. Pilatos, portanto, tinha pleno poder no apenas para governar a Judia, mas para
atuar como um grande pretor, um juiz que julgava os homens segundo o direito romano. Para causas pequenas, o governador designava outros pretores, mas as grandes
causas eram julgadas por ele prprio.
158













































































#A ltima Cartada da Cpula Judaica

A autoridade de Pilatos realmente era grande. O destino dos homens na regio sob sua jurisdio estava de fato em suas mos. Esperava, ao pressionar Jesus com sua
autoridade, que ele se intimidasse e revelasse sua identidade. Porm, mais uma vez, o ru o deixou chocado. Ao ouvir tais palavras, Jesus disse que toda autoridade
vinha do alto e nenhuma autoridade ele teria se do alto no fosse permitida. Ao sindrio, Jesus disse que se assentaria  direita do TodoPoderoso, portanto na posio
mais alta do universo. A Pilatos comenta que a autoridade que ele tinha no vinha de Roma, mas era permitida pelo alto. Sobrepondo estas duas frases podemos inferir
algo impensvel na histria do direito e do poder poltico. O ru conferia a autoridade ao Juiz. Que situao impressionante! Atravs de sua afirmao, o mestre
de Nazar queria dizer que h um poder no universo do qual emanam todos os outros poderes. Inferia que o poder poltico era temporariamente permitido e que o que
 permitido ser cobrado. Pilatos considerava que seu poder fosse permitido por Tibrio, o imperador romano. Agora vinha um homem todo edemaciado e cheio de hematomas
sugerindo que todo poder emanava dele. Como isso  possvel? Jesus surpreendia a todos quando estava livre e quando estava preso, quando estava saudvel e quando
destrudo. Queria dizer ao lder romano que tinha poder muito maior do que o dele, que poderia se safar do seu julgamento e morte, mas no o faria. Os lderes de
Israel e Pilatos estavam abalados, mas nada abalava o mestre da vida, nada o amedrontava. Ele mostrava-se imbatvel nas idias quando no havia mais fora em seu
corpo. Nunca um judeu abalou as convices do autoritrio governador.
159













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

O poderoso Pilatos se comportava como uma criana diante do carpinteiro de Nazar. Como pode algum com a cabea sangrando, com o rosto desfigurado e na eminncia
de ser crucificado discorrer que tinha um poder acima do imprio romano? A rejeio e os sofrimentos, ao invs de abat-lo, nutriam a sua capacidade de pensar. As
perdas, ao invs de destru-lo e desanim-lo, o tornavam livre no territrio da emoo. Somente algum que eliminou todas as razes do medo pode ser to livre.

A ltima cartada: traindo a histria e apelando para Tibrio Csar
Pilatos, admirado com o comportamento de Jesus, mais uma vez o traz  presena do sindrio e intercede para solt-lo. Suas idas e vindas mostravam que ele estava
convicto de que o ru era inocente. Pilatos tinha receio de uma revolta dos lderes judeus se soltasse Jesus e estes lderes tinham medo da multido se o fenmeno
Jesus estivesse solto. O perfil psicolgico de Pilatos e suas atitudes indicavam que ele debochava do sindrio. Prova disto, era o fato de apontar diversas vezes
para Jesus e dizer para o sindrio: "eis o vosso rei" 56. O governador da Judia s temia uma autoridade: Tibrio Csar, o senhor do mundo, o grande imperador romano.
Portanto, a ltima cartada da liderana judia era denunciar Pilatos ao prprio imperador. Os judeus odiavam ser dominados por Roma, detestavam ser subjugados por
Csar, mas para matar Jesus a nica soluo era mostrar estrita fidelidade a ele. Por isso, disseram altissonantes a Pilatos que somente Csar era o rei deles57
e que no admitiam outro rei.
160













































































#A ltima Cartada da Cpula Judaica

Completaram dizendo que, se Pilatos no crucificasse Jesus, ele estaria admitindo outro rei no solo de Israel, um rei no designado pelo imprio. Deste modo, ameaaram
com todas as vozes e todas as letras que denunciariam Pilatos a Csar58. Precisamos reconstruir o cenrio consciente e inconsciente presente no maior julgamento
da histria.

Traindo o desejo histrico de liberdade
Tibrio Csar era um poderoso imperador. Embora as leis romanas fossem as mais justas e humanas dos tempos antigos, o imperador governava como um ditador. Por que
exercia o poder como um ditador? Porque, alm de exercer o poder executivo e judicirio, tambm tinha poder para legislar. Do ponto de vista da filosofia do direito,
o maior ditador  aquele que executa e julga as leis que ele mesmo elabora. Reunindo o poder executivo com o legislativo, os imperadores romanos tinham o poder de
um semideus. Quando o poder entorpece os homens, no poucos deles almejam o status de imortal. Ao clamar por Tibrio Csar e tom-lo como rei, a cpula de Israel
traiu sua histria. O povo judeu jamais aceitou o controle de qualquer imprio. O desejo de sua independncia estava nas suas razes culturais, presente desde que
Abrao, o pai dos judeus, deixou a terra de Ur dos caldeus. Esse desejo se cristalizou quando Moiss os libertou da servido do Egito e os conduziu  terra de Cana.
Como disse no livro "O Mestre dos Mestres"* , o povo judeu quase passou por um genocdio por ser o nico povo,
* Cury, Augusto J. Anlise da Inteligncia de Cristo- O Mestre dos Mestres, Academia de Inteligncia, So Paulo, 1999.

161













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

segundo Flvio Josefus, a no adorar o sucessor de Tibrio, Caio Calgula, como deus. O relato histrico desta passagem  eloqente*. Mostra a coragem mpar deste
povo em preservar sua identidade e a sede que tinha pela liberdade. Alguns embaixadores dos judeus pediram uma audincia a Caio Calgula porque estavam temerosos
de ser dizimados se no o adorassem. Era uma audincia de conciliao, queriam mostrar-lhe que embora no o adorassem como deus, pois isso feria completamente seus
princpios e tradies, o respeitavam muito e faziam sacrifcios a Deus para levar a bom termo a sua sade e o seu governo. Relutante, Calgula os recebeu, mas com
desprezo. Essa audincia podia determinar o destino dos judeus. Se o imperador os obrigasse a ador-lo, eles no aceitariam e, assim, seriam eliminados no apenas
em seu solo, mas em todas as cidades onde habitavam, tal como em Alexandria. Filom, um dos embaixadores dos judeus, relata que eles estavam profundamente amedrontados
nesta audincia. Dizia que "sentamos o sangue gelar em nossas veias". Durante o encontro, a clera de Calgula diminuiu e, por isso, no os obrigou a ador-lo,
embora no tenha aceitado a argumentao dos judeus. No final da audincia, o imperador desprezou a inteligncia e o destino deles, dizendo: "Essa gente no  to
m quanto infeliz. So insensatos por no acreditar que sou de natureza divina". Os embaixadores judeus saram da presena de Calgula dizendo palavras que muito
lembram o julgamento de Jesus. Disseram: "Foi assim que samos no de um tribunal, mas de um teatro e de uma priso, pois no era deveras uma comdia,
* Josefo Flvio, Histria dos Hebreus, Editora CPAD, Rio de Janeiro, 1990.

162













































































#A ltima Cartada da Cpula Judaica

vermo-nos ridicularizados, motejados, desprezados?". Os judeus sentiram a dor do desprezo e da humilhao provocada pelo imperador. Viram-se no num tribunal, mas
num teatro, num ambiente em que pouco importava o que eles pensavam e sentiam. No julgamento de Jesus aconteceu a mesma coisa, s que de maneira muito mais violenta.
Um julgamento regado aos patamares mais altos da tortura e da humilhao. No importavam as provas nem os sentimentos e os pensamentos do ru. Ele tinha de morrer
e o mais depressa possvel, nem que para isso os lderes judeus tivessem, por alguns momentos, de trair a sua histria e clamar que Csar era seu nico rei. Desprezaram
Jesus que tinha origem judia e que cuidava dos feridos e dos abatidos de Israel, para tomar o imperador romano como seu grande lder, ainda que ele os explorasse
com pesados impostos.

Condenando Jesus por medo de perder o poder
Ao ameaar denunci-lo ao imperador, Pilatos deve ter se lembrado de que muitos governadores j haviam passado pela Judia e tinham sido destitudos. Certamente
se lembrou de que nem Arquelau (filho do Rei Herodes, o Grande) foi poupado pelo imperador. Arquelau assumiu o governo da Judia quando seu pai morreu. Entretanto,
cometeu atrocidades contra os judeus. Estes o denunciaram a Csar, o que lhe causou a queda e o ostracismo. Amedrontado e profundamente constrangido, Pilatos cede.
Por medo de perder o poder, condena o mais brilhante e inocente dos rus. Ao passar pelo julgamento formal e ser
163













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

condenado, os criminosos podiam apelar para Csar. Provavelmente os dois criminosos que foram crucificados ao lado de Jesus estavam no final do processo. Seus crimes
j haviam transitado em julgamento. Todos os recursos j haviam se esgotado aps meses de processo. Jesus estava sob o julgamento romano h menos de trs horas.
Se ele apelasse para Csar, provavelmente seu processo seria adiado e julgado em Roma. Todavia, no apelou. No fez nenhuma reivindicao. Apenas aguardou o final
do julgamento.

Lavando as mos
Pilatos cedeu diante da possibilidade de comprometer sua carreira poltica. Cometeu um crime contra a sua prpria conscincia. Talvez seu sono nunca mais tenha sido
o mesmo. Entretanto, para abrandar seu sentimento de culpa, fez um gesto que iria torn-lo famoso na histria: lavou as mos. Muitos pensam que este ato foi digno
de aplausos e no poucos polticos o imitaram ao longo das geraes. O gesto de Pilatos foi um ato tmido e injusto. Lavou as mos, mas no podia limpar a sua conscincia.
A sujeira das mos  retirada com a gua; a da conscincia  retirada reconhecendo erros e aprendendo a ser fiel a ela. Tambm cometemos erros nessa rea, embora
com conseqncias bem menores que as dos homens que julgaram o mestre dos mestres. Lavamos as nossas mos nas relaes sociais. Quantas vezes nos esquivamos de gastar
o ltimo recurso para estender as mos a algum que est ao nosso alcance atolado em seus problemas? Usamos o recurso de lavar as mos como tentativa de nos eximir
de nossas responsabilidades, como procedimento para nos proteger contra o sentimento de culpa diante de atitudes delicadas que deveramos tomar.
164













































































#A ltima Cartada da Cpula Judaica

Sempre que possvel no deveramos lavar as mos. Se temos condies de ajudar algum que no quer ser ajudado, no deveramos desistir dele. Aps esgotarmos nossos
argumentos, no deveramos tentar fazer as pessoas enxergarem o que no querem ou no conseguem ver e muito menos forar nossa ajuda. Ningum consegue abrir as janelas
da mente de algum que se recusa a abri-la. Devemos esperar uma nova oportunidade, um novo momento para ajud-la, ainda que ele demore a chegar. O mestre de Nazar
nunca lavava as suas mos. Era poderoso, mas no subjugava ningum com seu poder, nem quando queria e podia. Esgotava todos os recursos para ajudar os necessitados,
mas sem constrang-los. Esperava o momento certo para arejar os becos escuros de suas vidas. Procurava ensin-los de maneira sbia e agradvel, mas dava tanta liberdade
para as pessoas errarem quanto incontveis oportunidades para elas retornarem. No as punia e nem cobrava delas os seus erros. Estar prximo dele era um convite
a revisar os alicerces da vida. Do ponto de vista humano, o destino de Jesus estava sob a autoridade de Pilatos. Portanto, lavar as mos era se esquivar de assumir
a sua responsabilidade. Ningum queria assumir o nus da morte de Jesus. Os lderes de Israel queriam que o imprio romano assumisse a sua condenao e o imprio,
representado por Pilatos, lavou as mos para que ela recasse sobre eles. O resultado foi que, para Pilatos, o sindrio foi quem condenou Jesus e, para a grande
massa de homens que amava Jesus, quem o condenou foi o imprio romano. O homem que  infiel a si mesmo no v dias tranqilos. Alguns historiadores comentam que
Pilatos suicidou-se. No h como ser livre e feliz se no reconhecermos nossas
165













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

fragilidades, se no procurarmos mudar as rotas de nossas vidas e levarmos em alta conta nossa prpria conscincia. O mestre da vida nos deu profundas lies para
aprendermos o caminho da tranqilidade. Viveu dias tranqilos em ambientes intranqilos. Era livre e sereno mesmo quando estava acorrentado. Estava no auge da fama
e tinha tempo para contemplar os lrios dos campos. Nunca perdeu a singeleza e a liberdade, mesmo no mais escaldante deserto...

A sentena de Pilatos
Aps lavar as mos e se livrar do papel de juiz, Pilatos entregou Jesus para ser crucificado. Entretanto, como a morte por crucificao era uma condenao romana,
o governador tinha de justific-la. Assim lavrou sua sentena baseado nas acusaes dos judeus e no em sua conscincia. A seguir transcreverei a cpia fiel da pea
do processo de Jesus Cristo realizada por Pilatos, que se encontra no Museu da Espanha: "No ano dezenove de TIBRIO CSAR, Imperador Romano de todo mundo. Monarca
invencvel na olimpada cento e vinte... sob o regimento e governador da cidade de Jerusalm, Presidente Gratssimo, PNCIO PILATOS. Regente na baixa Galilia, HERODES
ANTIPAS. Pontfice sumo sacerdote, CAIFS, magnos do Templo, ALIS ALMAEL, ROBAS ACASEL, FRANCHINO CENTAURO. Cnsules romanos da cidade de Jerusalm, QUINTO CORNLIO
SUBLIME E SIXTO RUSTO, no ms de maro e dia XXV do ano presente  EU, PNCIO PILATOS, aqui presidente do Imprio Romano, dentrodopalcioearqui-residentejulgo,condenoesentenciomor
te,Jesus, chamado pela plebe  CRISTO NAZARENO  e Galileu de nao,
166













































































#A ltima Cartada da Cpula Judaica

homemsedicioso,contraaLeiMosaicacontrrioaograndeImperador TIBRIO CSAR. Determino e ordeno por esta, que se lhe d morte nacruz,sendopregadocomcravoscomotodososrus,
porquecongregando eajuntandohomens,ricosepobres,notemcessadodepromovertumultos por toda Galilia, dizendo-se filho de DEUS E REI DE ISRAEL, ameaando com a runa
de Jerusalm e do Sacro Templo, negando os tributos a Csar, tendo ainda o atrevimento de entrar com ramos e em triunfo,comgrandepartedaplebe,dentrodacidadedeJerusalm.Que
sejaligadoeaoitado,equesejavestidodeprpuraecoroadodealguns espinhos, com a prpria cruz nos ombros, para que sirva de exemplo a todos os malfeitores, e que, juntamente
com ele, sejam conduzidos dois ladres homicidas; saindo logo pela porta sagrada, hoje ANTONIANA, e que se conduza JESUS ao Monte Pblico da Justia chamado de CALVRIO,
onde, crucificado e morto, ficar seu corpo na cruz, como espetculoparatodososmalfeitoresequesobreacruzseponha,emdiversas lnguas, este ttulo: JESUS NAZARENUS,
REX JUDEORUN. Mando,tambm,quenenhumapessoadequalquerestadooucondiose atreva,temerariamente,aimpedirajustiapormimmandada,administrada eexecutadacomtodorigor,segundoosDecretoseLe
isRomanas,sobpena de rebelio contra o Imperador Romano. Testemunhas da nossa sentena: Pelas doze tribos de Israel: RABAIM DANIEL, RABAIM JOAQUIM BANICAR, BANBASU,
LAR PETUCULANI. Pelos fariseus: BULLIENIEL, SIMEO, RANOL, BABBINE, MANDOANI, BANCUR FOSSI. Pelo Imprio Romano: LUCIO EXTILO E AMACIO CHILCIO". A sentena de Pilatos
mostra os falsos motivos pelos quais Jesus foi sentenciado  morte, j discutidos. Mostra que muitas pessoas proeminentes do imprio romano e de Israel testemunharam
e aprovaram a sentena condenatria. Todavia, trs verdades saltam dessa pea processual.
167













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida


Primeiro: Jesus, um grande comunicador
Como vimos, Jesus era um homem magnfico. Sua capacidade de comunicao era arrebatadora. Os estudantes de comunicao e jornalismo desconhecem o maior comunicador
da histria. Dei algumas conferncias em universidades sobre o tema "A arte da comunicao do mestre dos mestres". Algumas pessoas tm ficado atnitas com seu poder
de comunicao. Ele fazia uma comunicao honesta e potica. Era econmico no falar, mas preciso nas palavras. Conseguia ser dcil e extremamente seguro. Falava
fitando a menina dos olhos dos seus ouvintes. Seu falar era to penetrante que ele executava um dos mais difceis treinamentos da inteligncia: treinava a emoo
e o pensamento. Treinava seus discpulos a trabalhar em equipe, a no ter medo do medo, a no querer que o mundo se submeta aos seus ps, a pensar multifocalmente
em situaes turbulentas, a ser tolerantes, gentis, agradveis, a torcer uns pelos outros e at a amar uns aos outros. O tom da sua voz no era tmido, mas eloqente.
No tinha medo de chocar seus ouvintes. Seus discursos intrpidos e ousados causavam uma verdadeira revoluo no cerne do esprito e da alma deles. O contedo dos
seus discursos at hoje deixa boquiabertos aqueles que o analisam desprovidos de preconceitos. Multides de pobres e ricos, letrados e iletrados, de homens e mulheres
o seguiam apaixonadamente. Por diversas vezes, as pessoas ao ouvir suas palavras ficaram maravilhadas.
168

#A ltima Cartada da Cpula Judaica


Segundo: Jesus, um grande lder.
Os homens o admiravam tanto que, no seu ltimo retorno a Jerusalm, colocaram ramos de palmeiras e suas prprias vestes no cho para que ele passasse. Todos estavam
extasiados com seu poder e com sua eloqncia. Por momentos, eles se esqueceram de que o imprio romano os controlava atravs da fora de milhares de soldados. Queriam
que o mestre os liderasse. Mas este dizia que o seu reino no era deste mundo. O nico homem que dizia ter todo o poder para dominar a terra virou o mundo de cabea
para baixo ao entrar, no auge da fama, na grande cidade de Jerusalm montado num pequeno e desajeitado animal. Apesar de no querer o trono poltico, sua entrada
em Jerusalm foi triunfal, causou um grande tumulto cerca de um ms antes de ser preso. Pilatos estava certo ao colocar este detalhe na pea processual. Isso prova
que ele acompanhava os passos do mestre de perto antes do seu julgamento. No final de sua sentena, Pilatos deixa claro seu respeito e temor incondicional pelo imperador
Tibrio. Declara que quem afrontasse a sua deciso de crucificar Jesus estaria se rebelando contra o prprio imperador. Na realidade, Pilatos apenas transcreve a
presso que os lderes judeus fizeram contra ele, ameaando de denunci-lo ao imperador se ele no o condenasse. Por submeter-se a esta chantagem, ele deixa claro
na pea processual que Jesus rebelou-se contra o imperador por se fazer rei. O texto de Pilatos dissimula a infidelidade  sua conscincia. O papel mais uma vez
aceitou aquilo que o homem no pensava.
169

#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida


Terceiro: Jesus, o filho de Deus
Pilatos acusa Jesus de ser filho de Deus e querer destruir o Sacro templo. De fato, sua vida era cercada de mistrios. Seus comportamentos e seus sofrimentos eram
humanos, mas suas palavras e sua postura eram incomuns para um homem. Pilatos ficou impressionado com sua postura. Ele se portava como um prncipe no caos. No perdia
sua dignidade quando sofria. Ele no queria destruir o templo fsico, mas transport-lo para dentro do homem. Almejava inaugurar o lugar de adorao a Deus no corao
humano. Ele no declarava abertamente sua identidade, mas em algumas oportunidades disse ter a natureza de filho de Deus e o status do mais alto poder do universo.
O que nos deixa pasmos  que, ao contrrio do nosso comportamento, ele no relatou claramente sua identidade quando estava no auge da fama. Declarou sua identidade
quando estava no auge da derrota, pelo menos aparente: revelou-se quando o mundo desabava sobre sua cabea.

Um espetculo para todos os malfeitores
A psicologia tem de ficar assombrada com Jesus Cristo. Aos demais torturados e que esto s portas da morte  presumvel que vivenciem o medo, o desespero, a ansiedade
e a agitao psicomotora, acompanhada de perda da lucidez e at da conscincia. Entretanto, para nosso espanto, nenhuma dessas reaes assaltaram a sua alma. Na
psicologia, principalmente na rea de recursos humanos, tem-se falado muito do papel da emoo no
170

#A ltima Cartada da Cpula Judaica

desempenho intelectual e na formao da personalidade. Gerenciar a emoo  mais difcil do que governar um pas,  mais complexo do que controlar uma grande empresa.
Entretanto, o mestre da vida foi o mais excelente mestre da emoo. Navegou com exmia habilidade no mar agitado da solido, da incompreenso, da rejeio, da agressividade,
da dor fsica e psicolgica. Jesus era invariavelmente delicado com as pessoas. Nunca expunha os seus erros e nem chamava a ateno delas publicamente.59. Apesar
do mestre dos mestres ter uma gentileza mpar com as pessoas mais rudes, ele foi tratado com uma aspereza sem precedente. No lhe deram descanso nem durante a sua
morte. Pilatos sentenciou-o  cruz e disse que sua morte deveria funcionar como espetculo para os malfeitores. Como pode o mais dcil e amvel dos mestres servir
de exemplo para advertir os homens a no cometer crimes?

Viajando no tnel do tempo
Se viajssemos no tnel do tempo e estivssemos presentes no julgamento do mestre da vida, provavelmente pertenceramos a um dos oito grupos: 1- Grupo dos fariseus
e dos demais homens do sindrio que condenaram Jesus, que no tinham coragem para questionar suas prprias verdades e avaliar se o filho de Deus poderia estar travestido
na pele de um carpinteiro; 2- Grupo dos fariseus que amavam Jesus, representado por Nicodemos, mas que no tiveram ousadia para defendlo pelo medo de tambm serem
punidos; 3- Grupo dos discpulos que o abandonaram, o deixaram a ss, que fugiram desesperadamente quando ele se
171













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

recusou a fazer qualquer milagre para se safar do seu julgamento; 4- Grupo dos que o negaram, representado por Pedro, que embora o amasse intensamente e tivesse
mais coragem que os demais discpulos, ainda era frgil e inseguro, por isso negou toda a histria que com ele viveu quando o viu sendo torturado e espancado; 5-
Grupo da populao que no tinha opinio e nem convices prprias e por isso foi facilmente manipulada pelos que estavam no poder, os fariseus; 6- Grupo dos polticos,
representado por Pilatos, que o considerava inocente, mas permitiu a sua tortura e mandou afligi-lo com aoites e, por fim, para agradar uma minoria de lderes,
lavou suas mos para aliviar a infidelidade  sua conscincia e mandou crucific-lo; 7- Grupo de soldados manipulados pelo sistema religioso e poltico e que foram
agentes da sua tortura e crucificao, achando que prestavam servios aos seus lderes; 8- Grupo das pessoas que encontraram um novo sentido de vida atravs das
suas palavras e que o amavam apaixonadamente, mas que estavam do lado de fora da casa onde ele estava sendo julgado e esperavam ansiosamente o desfecho final deste
julgamento. Reitero, a qual desses oito grupos pertenceramos? No havia ningum ao lado de Jesus. Todos os seus amigos o abandonaram. Se estivssemos l, ser que
no o negaramos como Pedro? Ser que muitos de ns hoje que dizemos amar profundamente Jesus e que estivssemos na casa de Caifs no teramos nos silenciado ante
aquele clima de terror que pairava sobre o mestre da vida? Ser que quando ele
172













































































#A ltima Cartada da Cpula Judaica

fazia seus milagres e inteligentes discursos no estaramos ao seu lado e depois quando preso no seramos controlados pelo medo? Se viajssemos no tnel do tempo
e estivssemos presentes no julgamento de Cristo, provavelmente nenhum de ns o defenderia. Poderamos admir-lo, mas nos calaramos, como Nicodemos. Nossa inteligncia
e capacidade de deciso estariam travadas pelo medo. Hoje Jesus  famosssimo e universalmente amado ou, no mnimo, admirado. Naquela poca, embora ele deixasse
perplexos todos os que o ouviam, estava escondido em um simples ser humano. Hoje  fcil defend-lo. Naquela poca, quando ele resolveu no fazer qualquer milagre
e deixar de lado seus intrigantes discursos, era difcil apoi-lo e dizer: "Estou aqui, ainda que todos te abandonem, no te deixarei". Na realidade, Pedro disse
mais do que isso, mas falhou. O mais forte dos discpulos, apesar de am-lo intensamente, negou-o. Talvez fizssemos o mesmo. Era mais fcil abandon-lo, mas ele
nos compreenderia. Os discpulos estavam chorando na noite do seu julgamento. Tiveram uma longa noite de insnia. Estavam envergonhados e com sentimento de culpa
de ter deixado o seu amado mestre no momento em que ele mais precisava deles. Entretanto, Jesus no cobrou nada deles. Ele os amou incondicionalmente. Ns fazemos
exigncias altas para perdoar as pessoas, ele perdoou e amou sem nenhuma exigncia. A nica coisa que gerava uma reao de intolerncia no mestre da vida era o comportamento
dos fariseus, que se preocupavam com a aparncia exterior e no com o contedo dos seus pensamentos e emoes. Embora no fosse agressivo com eles, foi, entretanto,
contundente em apontar essa grave distoro em seu comportamento.
173













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

Ser tmido como os discpulos, amedrontado como Pedro, omisso como alguns fariseus que o admiravam, no era o pior grupo. O pior deles era ser um fariseu, um tcnico
em Deus, um especialista em divindade, mas que se sentia incapaz de ser ensinado, que no conseguia ver nada alm de seu mundo. Por isso no analisaram a histria,
o viver, as palavras, os gestos do mestre da vida. Eles o julgaram pela sua aparncia exterior. Ns temos de nos perguntar: Se estivssemos l, o conhecimento teolgico
que temos hoje nos faria honr-lo ou envergonharnos dele, am-lo ou distanciar-nos dele? Apesar de ter sido abandonado, negado e rejeitado pelos homens, o mestre
da vida no condenava ningum, nem os fariseus. Ao invs disso, ele queria morrer em favor de todos os homens, mas fez algumas advertncias para expandir nossa "qualidade
de vida interior". Vejamos uma dessas advertncias numa dramtica comparao entre os fariseus e os miserveis da sociedade.

Publicanos e meretrizes precedendo os fariseus
Certa vez, o mestre disse uma palavra chocante aos fariseus, algo que jamais pensariam em ouvir. Comentou que publicanos e meretrizes os precederiam no reino dos
cus. Vamos pensar um pouco. As meretrizes dormiam com muitos homens, viviam em funo de sua sexualidade. Seus comportamentos e dilogos no refletiam moral e espiritualidade.
Os publicanos, por sua vez, eram coletores de impostos, extorquiam o povo, roubavam dos cofres pblicos. Amavam o dinheiro e no se preocupavam com o sofrimento
das pessoas sob o jugo do imprio romano. De outro lado, os
174













































































#A ltima Cartada da Cpula Judaica

fariseus faziam longas oraes, ensinavam as Antigas Escrituras, davam ofertas e tinham um comportamento socialmente aprovvel. Qualquer um que fosse julgar estes
homens, por mais liberal e humanista que fosse, aprovaria os fariseus e colocaria as meretrizes e publicanos em ltimo plano. Ningum teria a coragem de dizer o
que o Jesus disse. Parecia um absurdo dizer que as prostitutas e os corruptos coletores de impostos pudessem ser aprovados por Deus e os religiosos de Israel, desaprovados.
Como isso  possvel? No evangelho de Mateus, ele disse diversas vezes que seu Pai tinha a capacidade de perscrutar a alma humana e ver o que estava em secreto.
Via o que os psiclogos e os psiquiatras no conseguem ver. Penetrava diretamente no mundo psicolgico das pessoas. Aos olhos do mestre de Nazar os fariseus tinham
uma tica insupervel, mas por dentro, suas intenes e pensamentos eram reprovveis. A maquiagem espiritual e tica dos fariseus no convencia o Autor da vida,
no enganava o arquiteto do esprito e da alma humana. Quem pode falar do homem internamente seno aquele que o teceu? Qual a vantagem das meretrizes e dos publicanos
em relao aos fariseus? Os sentimentos ocultos no corao psicolgico. Os fariseus eram orgulhosos, arrogantes, autosuficientes, no precisavam de um mestre e nem
de um mdico para reparar os pilares de suas vidas, por isso baniram drasticamente aquele que dizia ser o filho do Altssimo. De outro lado, as prostitutas e os
publicanos reconheciam seus erros, injustias e fragilidades, por isso amaram intensamente Jesus. No poucos deles choraram de gratido
175













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

pela acolhida carinhosa do mestre da vida. Aquele que teceu o homem amou a todos, mas s conseguiu tratar dos que admitiam que estavam doentes, dos que tiveram a
coragem de se achegar a ele, ainda que com lgrimas. Nestes tempos modernos valorizamos muito mais a esttica do que o contedo. Pioramos em relao aos tempos do
mestre de Nazar.  fcil criticar os erros dos outros, enxergar a arrogncia de Caifs e a violncia dos homens do sindrio. Todavia, precisamos nos perguntar:
Ser que no temos nos escondido atrs de nossa tica e moral? Ser que no estamos saturados de orgulho e arrogncia e no percebemos? Somos especialistas em detectar
os defeitos dos outros, mas pssimos para enxergar os nossos. Quando proclamamos "meu conhecimento teolgico  melhor do que o dos outros", "minha moral  mais elevada
do que a deles", ser que Aquele que v em secreto se agrada desses comportamentos? Talvez alguns miserveis de nossa sociedade, aqueles para quem facilmente apontamos
o dedo, tenham um corao melhor do que o nosso. Com princpios mais sbios dos que os apresentados por socilogos e idelogos polticos, Jesus regulou as relaes
sociais. Disse que com o mesmo critrio que julgarmos os outros seremos julgados. Se empregamos tolerncia e compreenso, o Autor da vida nos compreender e nos
tratar com tolerncia*. E vai mais longe, diz a clebre frase: "Como quereis que os homens vos faam, assim fazei-o vs tambm a eles". Se queremos compreenso,
respeito, gentileza, amabilidade, devemos aprender a ser compreensivos, gentis, amveis. Os que empregam tolerncia compreendem as suas prprias limitaes e, por
conhec-las, enxergam melhor as fragilidades dos outros. A compreenso, a tolerncia e a solidariedade so atributos dos fortes; a arrogncia e a rigidez,
176













































































#A ltima Cartada da Cpula Judaica

dos fracos. Se prestarmos ateno naqueles que criticam continuamente as pessoas que os rodeiam, veremos que eles so estrangeiros em seu prprio mundo, nunca penetraram
em reas mais ntimas de seu prprio ser. Os homens que no se conhecem so especialistas em apontar o dedo para os outros. Se os princpios estabelecidos pelo mestre
da escola da vida fossem vividos pela nossa espcie, os exrcitos seriam extintos; a agressividade, estancada e os soldados estariam desempregados. Mas precisamos
cada vez mais de soldados e presdios. Temos de perceber que algo est errado. O homem que no  juiz de si mesmo nunca est apto para julgar o comportamento dos
outros. Os fariseus da poca de Jesus no estavam aptos a julg-lo, pois eram incapazes de julgar a si mesmos. Eles o trataram como o mais vil criminoso. O seu julgamento
revelou a misria que estava no mago dos homens do sindrio. Por fora eram ticos, mas, quando se sentiram ameaados, foi-se embora a imparcialidade, justia e
serenidade. No levaram em conta a encantadora histria do mestre da sensibilidade. Nunca algum to forte, inteligente, sbio e amvel se deixou passar por um julgamento
to humilhante. Ningum reagiu como ele no final da vida. Seus comportamentos eram mpares. Que segredos escondiam-se no cerne do mestre da vida para que ele derramasse
sua alma na morte? Precisamos penetrar em alguns desses segredos para entender a sua motivao de morrer pela humanidade. Vejamos o plano mais ambicioso da histria!

177













































































#

















































































































CAPTULO 11

O MAIS AMBICIOSO PLANO DA HISTRIA

#O mais Ambicioso Plano da Histria


A psicologia e as cincias da educao
Se os cursos de psicologia introduzissem um estudo srio e aprofundado da personalidade de Jesus, os novos psiclogos teriam uma grande ferramenta para compreender
os transtornos emocionais e adquirir mecanismos para treinar a emoo dos pacientes e torn-la saudvel. Como mestre da escola da vida, ele conseguia abrir as janelas
da sua mente e contemplar o belo em momentos em que s era possvel ser controlado pela ansiedade, travar a inteligncia e reagir por instinto. A psicologia ainda
 uma frgil cincia no processo de investigao do funcionamento da mente. Ela precisa descobri-lo. As cincias da educao tambm precisam descobri-lo. A psicopedagogia
de Cristo no tem precedente. Como contador de histrias, tinha um falar cativante que encantava as pessoas. O tom de voz, o fitar dos olhos, a economia de energia
no discurso dos pensamentos, a autoridade nas palavras, a exposio interrogada e dialogada, a versatilidade e a criatividade usada na comunicao interpessoal faziam
de sua pedagogia uma
181

#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

verdadeira arte de ensinar. Se nas faculdades ensinassem sistematicamente a psicopedagogia do mestre dos mestres, os novos professores revolucionariam o cambaleante
sistema educacional que permeia as sociedades modernas. Sinto-me limitado para descrever a grandeza e os mistrios que cercam a mente de Jesus Cristo. De cada frase
que proferiu poderamos escrever um livro. De cada silncio, uma poesia. De cada controle da emoo, um princpio de vida. Sinceramente, os recursos lingsticos
para descrev-lo so restritos.

O mestre da vida no tinha impulsos suicidas
Gostaria, nestes ltimos captulos, de fazer um questionamento muito srio sobre os motivos que levaram uma pessoa com uma inteligncia to espetacular como a de
Jesus se deixar passar pelo topo do sofrimento. Ele tinha condies de evitar seu julgamento e sua crucificao, mas no o fez. Ningum amava a vida como ele. Tinha
prazer em conviver com as pessoas. Observava o belo nos pequenos eventos da vida. Gostava de crianas. Apreciava relacionar-se socialmente e dialogar com todas as
pessoas. Qualquer pessoa que dele se aproximasse corria grande risco de se tornar seu amigo. Tinha prazer em ser amigo at dos leprosos deformados e que cheiravam
mal. Nele, portanto, no havia rejeio pela vida nem idias ou impulsos suicidas. No entanto, deixou-se morrer, foi cedo cortado da terra dos viventes. Por qu?
Se nele no havia idias de suicdio, por que no fez nada para evitar seu sofrimento e sua morte? Milhes de pessoas
182













































































#O mais Ambicioso Plano da Histria

diro que sofreu e morreu para perdoar o homem. Mas podemos argumentar: No haveria milhares de outras maneiras ou procedimentos para perdoar o homem? Um grande
problema em qualquer tipo de investigao  que no conseguimos conviver com a ansiedade gerada pelas perguntas e pela dvida, por isso somos rpidos e superficiais
em nossas respostas. Temos de perguntar: Se Deus  to inteligente, no poderia arquitetar um plano que exigisse menos de si mesmo? Por que Deus fez o impensvel:
entregou o seu nico filho para morrer pela humanidade? Que amor  este que excede todo entendimento, que implode a lgica? O mestre da vida nunca desprezava as
indagaes dos homens, ao contrrio, apreciava que eles o pesquisassem destitudos de preconceitos. O grande erro dos fariseus foi que o julgaram sem investig-lo.
Gostaria de investigar no apenas as intenes subjacentes do homem Jesus, mas algumas reas da mente de Deus descritas nas Escrituras para compreender o que estava
por detrs do cenrio do julgamento aqui analisado. Jesus era um homem genuno, mas ao mesmo tempo se colocava como o Filho de Deus. Ele era homem e era Deus. Teve
atitudes, comportamentos e sentimentos humanos, mas as causas que o motivavam no eram humanas. No ser possvel compreendermos as ltimas vinte e quatro horas
do homem Jesus se no compreendermos os pensamentos de Deus. Contudo, toda vez que entrarmos nesta rea, o leitor tem de ter conscincia de que no estou discorrendo
sobre uma religio, mas de complexos assuntos escondidos nos textos da biografia de Cristo e nos demais livros do Antigo e Novo Testamento.
183













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida


Questionando a existncia de Deus
Tentarei abordar um assunto muito complexo que perturbou e ainda perturba a mente de muitos telogos, filsofos, pensadores e homens de todas as culturas e raas.
Um assunto que tambm me tirou, durante anos, a tranqilidade. Um tema sobre o qual muitas vezes temos dificuldade ou no temos coragem de falar, que fica represado
em nossa alma, que raramente verbalizamos, mas que mina nossas convices. Questionarei a existncia de Deus sob a perspectiva da sua interveno nos eventos da
humanidade. Ao olhar para tudo o que Jesus passou, temos de questionar por que ele fez to grande sacrifcio. Quem se animaria a fazer o que ele fez? O que motivou
algum que discursou incansavelmente sobre a vida eterna ter preferido a morte mais vexatria? No podemos ter medo de usar nossa inteligncia e indagar: Se Deus
 to criativo por que ele arquitetou uma soluo to angustiante para resgatar a humanidade? Ao olharmos para as lgrimas, desespero, aflio e injustias que macularam
os principais captulos da histria e que ocupam uma parte central do palco de nossas vidas, temos de questionar: Quem  Deus? Onde est Deus? Quais as caractersticas
bsicas da sua personalidade? O que move seus sentimentos? Ao fazer esse questionamento, podemos chegar a trs hipteses: 1a.- Deus no existe,  uma criao do
crebro; 2a - Deus existe, mas abandonou a humanidade, pois a considerou um projeto falido; 3- Deus existe e produziu o mais ambicioso plano da histria para resgat-la.
184

#O mais Ambicioso Plano da Histria


1a. hiptese- Deus no existe: uma imaginao do crebro
No sei se o leitor j questionou a existncia de Deus. J indaguei intensamente. Ao olhar para as misrias humanas, para as injustias sociais e para a histria
da humanidade podemos questionar se h um Deus no universo ou se ele  apenas um fruto espetacular da mente humana. Vamos refletir. Apesar de haver alimentos em
abundncia para alimentar todos os habitantes da terra, a fome destri inmeras vidas. Se Deus existe, por que no intervm nas desculpas polticas que financiam
nosso egosmo e extinge a fome? Mes tiram o po de sua boca para dar aos seus filhos famintos e, ainda assim, muitos deles permanecem caquticos e morrem. Tais
mes, abatidas pela fome, no tm nem lgrimas para chorar a morte de seus pequenos filhos. Onde est Deus? Todos os dias morrem crianas com cncer, embora haja
muitos casos de cura. Elas mal comeam a brincar e j comeam a fechar seus olhos para a existncia. Onde est o Criador? Se Ele existe, por que no intervm no
sofrimento dos pequenos de nossa espcie? Muitos indagam: Ser que ele no intervm por que no existe ou por que desistiu de ns? No d para nos furtarmos de estudar
este assunto, ainda que com respeito. Lembro-me de uma paciente que teve depresso aps a morte de sua filha. Sua pequena criana de sete anos teve um cncer incurvel.
A me entrara em desespero. A criana tinha crises de vmitos constantes antes de falecer. Em sua ltima crise, a criana teve uma atitude inesperada. Sabendo que
estava prxima da morte, a prpria criana pediu para a me retirar-se da sala. No queria que ela sofresse. Vocs podem imaginar
185

#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

uma pequena criana querendo poupar uma me de sofrer por sua morte? A criana estava nos instantes finais de sua vida e desejava ansiosamente a companhia de sua
me, mas poupoua, ficou s com seu mdico. Foi assim que ela fechou seus olhos para a vida. Sua me nunca mais sentiu seu corao pulsar, nunca mais ouviu a sua
voz. Entre ambas, um silncio inaceitvel. Se o Criador existe, por que suas criaturas sofrem tanto? As lgrimas dos pais sempre irrigaram a histria. Eles cuidam
carinhosamente de seus filhos. Apertam suas bochechas, enchem-lhes de beijos, empurram-lhes comidas, preocupam-se com seus comportamentos, sonham com seu futuro.
Vivem para os filhos, mas no querem viver para v-los morrer. Desejam ardentemente que seus olhos se fechem antes que os deles. Por fim, alguns morrem por overdose
de drogas, outros por doenas, outros por acidentes e ainda outros nas guerras. Diversas pessoas cometam: Se h um Deus que  Autor da existncia, por que ele no
estanca as lgrimas dos homens e alivia as suas dores? Observem as doenas da emoo. As pessoas portadoras de depresso vivem o ltimo estgio da dor humana, perdem
o prazer de viver, ficam desmotivadas, sentem uma fadiga excessiva, algumas tm insnia, outras dormem demais, e, ao invs de serem compreendidas, so taxadas de
fracas. Elas tm caractersticas nobres em sua personalidade, s que exageradas: punem-se muito quando erram, preocupam-se excessivamente com a dor dos outros, antecipam
em demasia os acontecimentos do amanh. Entretanto, no poucas vezes, a recompensa que recebem  o desprezo da sociedade e de alguns familiares. Alguns intelectuais
pensam: Se Deus teceu o interior do homem, por que ele no apazigua as guas da emoo e estanca a dor dos que sofrem no recndito da alma? Olhem para as injustias
sociais. Os homens sempre se
186













































































#O mais Ambicioso Plano da Histria

discriminaram. A fina camada de cor da pele, negra ou branca, tem servido de parmetro para discriminar dois seres da mesma espcie. Quantas vezes na histria homens
escravizaram homens, tolheram seus direitos fundamentais e os fizeram de mercadoria que se compra e vende? Alguns questionam: Ser que Deus nunca se importou com
as algemas dos escravos, com a humilhao por serem objetos de barganha? A vida  muito longa para se errar, mas brevssima para se viver. Se os homens refletissem
filosoficamente sobre a temporalidade da vida, tal reflexo estimularia a sabedoria e o amor pelos direitos humanos. Compreenderiam que o intervalo entre a meninice
e a velhice se constitui de alguns instantes. Todavia, desprezam a sabedoria. A sabedoria sempre foi atributo de poucos, de uns "tolos" que se desviaram do sistema.
Por desprezarem a sabedoria, mataram, feriram, escravizaram, estupraram, discriminaram. Se h um Deus Todo-Poderoso, que assiste todos os dias s loucuras humanas,
por que ele no intervm na humanidade e faz rapidamente a justia? Por que ele permitiu inclusive que a pessoa mais dcil que transitou nesta terra, Jesus, morresse
da maneira mais violenta? Alguns ainda argumentam que Deus no existe porque nunca O viram, nunca O perceberam com seu sistema sensorial, Ele nunca abalou os cus
e a terra diante dos seus olhos. Deste modo, considerando todas as misrias humanas e a "aparente" no interveno de Deus nestas misrias, a primeira hiptese que
salta  mente de muitos  a de que Deus  um fruto espetacular do crebro humano. Ele no existe, por isso no intervm. Nesta hiptese, o crebro, por ser to sofisticado,
arquitetou a fantstica idia de Deus por pelo menos dois
187













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

grandes motivos. Primeiro, porque crendo na idia de Deus as intempries da vida seriam mais suportveis. Segundo, para alimentar a esperana da eternidade. Quantos
homens, ao longo dos sculos, entraram em grande conflito existencial perguntando para si mesmos: Ser que Deus  uma imaginao da mente humana ou  a maior verdade
do universo? Agora procurarei provar o contrrio, que Deus existe. Ele  real e fez e faz muito mais pelo homem do que imaginamos, s que tem caractersticas de
personalidades bem definidas que precisam ser conhecidas, caso contrrio, jamais O entenderemos. Mas se Ele existe por que no intervm claramente nos eventos da
humanidade, nas lgrimas dos pais, nas injustias e dores humanas? Antes de entrar neste assunto e discorrer sobre as duas outras hipteses derivadas desse argumento,
gostaria de defender a tese de que Deus no  uma inveno do crebro. Gostaria de comentar sinteticamente que dentro do homem h fenmenos que provam a existncia
de um Criador. Em minha opinio,  medida que a cincia avana para explicar o mundo dentro e fora do homem, ela se depara com lacunas e paradoxos que s Deus pode
explicar.

Deus no  uma inveno do intelecto
Questionar a existncia de Deus  oportuno, pois sabemos que a cincia est cada vez mais se voltando para a espiritualidade. O atesmo, to em moda na primeira
metade do sculo XX, comeou a implodir nas ltimas dcadas. No sculo XXI o homem ter mais tempo e mais sede para questionar e procurar quem  o autor da vida,
quem  Deus. Um dos motivos que promove esta procura  o vazio deixado pela cincia. Nunca a
188













































































#O mais Ambicioso Plano da Histria

cincia avanou tanto, e nunca o homem esteve to exposto aos transtornos emocionais, to vazio e sem sentido de vida. O mundo moderno estimula excessivamente a
emoo humana, mas no produz emoes estveis, ricas e singelas. Nunca os cientistas se voltaram tanto para a idia de Deus. Muitos crem que h um Autor da existncia
por detrs do mundo fsico, que explica seus paradoxos. Para alguns deles, o mundo fsico "matematizvel", ou seja, que pode ser explicado e mensurado pela matemtica
tem muitos fenmenos inexplicveis, que ultrapassam os limites da lgica. H diversos cientistas afirmando que a teoria quntica na fsica concebe a idia de que
h um Deus no universo, uma conscincia csmica, uma causalidade descendente. Os fsicos tm suas razes para crer em Deus. Contudo, os pesquisadores da psicologia,
em minha opinio, se conhecessem mais acuradamente o campo de energia psquica e o processo de construo de pensamentos teriam mais motivos ainda. As maiores evidncias
de que h um Deus no universo no esto no universo fsico, mas na alma humana. Em dois perodos da minha vida, rejeitei a idia da existncia de Deus. Procur-lo
era perder tempo no imaginrio. Entretanto, ao me debruar na pesquisa sobre os fenmenos que constroem cadeias de pensamentos, fiquei pasmado. Encontrei diversas
evidncias claras de que no processo de construo da inteligncia h diversos fenmenos que ultrapassam os limites da lgica, tais como a governabilidade do pensamento,
o fenmeno da psicoadaptao e o fenmeno do autofluxo*. Tais fenmenos s podem ter sido concebidos por um Criador.
* Cury, Augusto J., Inteligncia Multifocal, Editora Cultrix, So Paulo, 1998

189













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

Ns que pesquisamos em alguma rea da cincia amamos a lgica, apreciamos controlar nossos experimentos e os fenmenos que observamos. Procuramos produzir conhecimentos
atravs de teorizar, medir, provar e prever. Entretanto, h um sistema de encadeamento distorcido no processo de construo de pensamentos que nos faz microdistintos
a cada momento. O pesquisador procura controlar o mundo que pesquisa, mas sua construo de pensamentos tem fenmenos incontrolveis. Quem gerencia totalmente a
psique? No apenas dois cientistas, diante de um mesmo fenmeno, produzem conhecimentos micro ou macro-distintos, mas um mesmo cientista produz conhecimentos distintos
de um mesmo fenmeno observado em dois momentos diferentes. Por qu? Porque nunca somos os mesmos. As variveis que esto no palco de nossas mentes e que aliceram
a interpretao, tais como leitura da memria, estado emocional, motivao, nvel de stress, nos tornam distintos a cada momento. Produzimos a lgica da matemtica
e da fsica, mas nossa inteligncia  to espetacular que no cabe dentro de um mundo lgico. Quem a teceu? Um fantstico Criador! O territrio da emoo escapa
ao controle lgico-cientfico. Num instante podemos estar alegres e noutro, apreensivos; num tranqilos e noutro ansiosos. Que tipo de energia constitui nossas emoes
e a faz mudar de natureza em fraes de segundos? s vezes, diante de um pequeno problema reagimos com grande ansiedade e diante de um grande problema reagimos com
tranqilidade. A matemtica da emoo rompe com os parmetros da matemtica numrica, o que nos torna belos e, por vezes, imprevisveis e complicados. A energia
emocional to criativa, livre e imprevisvel pode ser fruto apenas do metabolismo cerebral? No! O metabolismo cerebral  lgico
190













































































#O mais Ambicioso Plano da Histria

demais para explicar o mundo emocional e o sistema de encadeamento distorcido no processo de construo de pensamentos. Quem confeccionou a energia psquica? A teoria
da evoluo de Darwin, apoiada pelas mutaes e variabilidade gentica, pode explicar a adaptao das espcies diante das intempries do meio ambiente, mas no explica
os processos ilgicos que ocorrem nos bastidores da alma humana. Ela  simplista demais para explicar a fonte que gera o mundo das idias e das emoes. A alma humana
precisa de Deus para explic-la... No apenas um pai produz reaes distintas diante de um mesmo tipo de comportamento de um filho observado em dois momentos distintos,
mas os cientistas tambm produzem conhecimentos distintos, ainda que no o percebam, diante dos mesmos fenmenos que observam. Tais processos ilgicos so ruins?
De modo algum. Eles geram a intuio e produzem os saltos criativos, a inspirao, o belo, as novas idias que os cientistas no sabem explicar como surgiram. Einstein
disse, certa vez, que no compreendia como surgiram as inspiraes que contriburam para a descoberta da teoria da relatividade. Se a mente humana fosse lgica,
o mundo intelectual seria engessado, no teramos inventado a roda, nem a escrita. No haveria escritor e nem leitor. Reitero, nunca h um mesmo observador analisando
um mesmo objeto. No apenas o observador mudou, mas o objeto tambm mudou, pois nada no universo  estvel. Tudo no mundo fsico passa por um contnuo processo de
organizao, caos e reorganizao, gerando um belssimo trnsito de mo dupla entre matria e energia. Do mesmo modo, no mundo psquico, cada pensamento produzido
no campo de energia psquica vivencia o caos e se organiza em novos pensamentos. S um Autor magnfico poderia conceber nosso intelecto!
191













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

Observe o mundo das idias, a confeco das cadeias de pensamentos. O mundo fsico  regido por leis. Tais leis governam os fenmenos e as relaes entre si, o que
gera limites. No podemos jogar um objeto para cima e esperar que a terra v at ele. Ele vem at a terra porque  atrado pela sua fora gravitacional. A lei da
gravidade o controla. No podemos transformar um tomo numa molcula e nem um eltron num tomo. Entretanto, no mundo das idias no existem tais limitaes. Podemos
pensar no que queremos, quando queremos e do jeito que queremos. Construmos os pensamentos com incrvel plasticidade e liberdade criativa. Posso transformar um
grande pensamento numa pequena idia. Posso pensar no amanh e viajar no passado, sendo que o amanh no existe e o passado  irretornvel. Como podemos realizar
tais faanhas? Que tipo de energia constitui o mundo dos pensamentos que o faz to livre? Uma energia metafsica! Tenho muito que falar sobre este assunto, pois
o tenho estudado durante vrios anos, mas no  este o objetivo deste livro. S quero concluir que os fenmenos que constroem a inteligncia me convenceram de que
Deus deixou de ser uma hiptese remota e passou a ser uma realidade. H um campo de energia que est dentro do homem que podemos chamar de alma e esprito e que
no pode ser explicado apenas pela lgica do crebro, pela lgica da fsica e muito menos pela lgica da matemtica. A alma humana no  qumica. A "idia de Deus"
no  uma inveno de um crebro evoludo que resiste ao seu fim existencial. H algo em ns que coabita, coexiste e cointerfere intimamente com o crebro, mas que
ultrapassa seus limites. Algo que chamamos de alma, psique e esprito humano. Algo que clama pela continuidade da vida,
192













































































#O mais Ambicioso Plano da Histria

mesmo quando pensa em suicdio, algo que clama pela imortalidade. Numa anlise que tenho feito sobre a personalidade de Freud*, o pai da psicanlise procurava inconscientemente
a eternidade, apesar de ter sido um judeu ateu. O amor atropelou o pensador. O amor intenso de Freud por um dos seus netos, que estava morrendo lentamente de tuberculose
miliar, abalou seus alicerces. Ao v-lo morrer sem ter condies de resgat-lo para a vida, escreveu uma carta a dois amigos que no apenas testemunhavam sua depresso,
mas que evidenciavam que ela representava uma dramtica reao inconsciente diante do fim da existncia. O caos emocional deste ilustre pensador evidencia que a
vida possui fatos inesperados e variveis incontrolveis, revelando que no h gigantes no territrio da emoo, que todos somos eternos aprendizes nesta curta e
sinuosa existncia. Enxergar as flores das primaveras num ambiente em que os invernos desfolharam todas as plantas, como fazia o mestre da vida,  o nosso maior
desafio. A alma humana tem inmeros detalhes que acusam a existncia de um fantstico arquiteto da vida. Alm disso, a anlise da personalidade de Jesus Cristo abriu
as janelas da minha mente, me fez ver a existncia de maneira totalmente diferente de como a via. Ningum poderia criar uma personalidade como a dele. O mestre dos
mestres chegou ao limite da sabedoria, ao pice da tranqilidade, ao topo da serenidade, num ambiente em que imperavam as mais dramticas violncias fsicas e psicolgicas.
Quem na histria foi como ele?
* Cury, Augusto J, A Depresso de Freud, Editora Academia de Inteligncia, So Paulo, no prelo.

193













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida


2a. hiptese: Deus existe, mas a humanidade  um projeto falido
Nesta hiptese, Deus existe, mas alguns crem que a humanidade  uma criao que no deu certo. Todas as injustias e dores humanas se perpetuam porque o Criador
considerou a humanidade um laboratrio falido. Para eles, o Autor da vida ficou farto dos assassinatos, das discriminaes, da intolerncia, da agressividade que
cometemos diariamente nas sociedades. Percebeu que os homens, apesar de construir cincia, criar cultura, produzir tratados de direitos humanos, no conseguem se
livrar das suas misrias e injustias. Homicdios, estupros, discriminaes, guerras incontveis, crise do dilogo, fome, desigualdades sociais esto em todos os
captulos de nossa histria. A humanidade  uma experincia do Criador da qual Ele desistiu. O homem  excessivamente corrupto e destitudo de afetividade. Ele governa
o mundo exterior, mas no administra a si mesmo, por isso no consegue construir um mundo social justo, afetivo e irrigado com solidariedade. Os que crem nesta
hiptese acham que Deus nos abandonou  prpria sorte neste planeta azul, que mais destrumos do que conservamos. Mergulhados no universo, construmos religies
como tentativa de achar o elo perdido entre a criatura e o Criador. Todavia, Ele esqueceu-se desta bela e frgil espcie. Nesta hiptese, o Autor da vida no nos
destruiu, mas encerrou nossos dias em poucos anos de existncia. Depois da morte, o fim do espetculo da vida. Neste caso, o sonho da imortalidade da alma seria
apenas um belssimo delrio religioso, pois a morte nos faria deparar com o drama do "nada", do
194

#O mais Ambicioso Plano da Histria

"silncio eterno", do "caos da inexistncia", da perda irreparvel da conscincia. Com a morte do crebro, as bilhes de experincias de vida que tecem a colcha
de retalhos da identidade da personalidade se tornariam irrecuperveis. Os que defendem esta tese no percebem suas conseqncias psicolgicas e sociais. Os filhos
nunca mais ouviriam a voz dos seus pais, os pais nunca mais reencontrariam os seus filhos, os amigos se separariam para sempre. Tudo aquilo por que lutamos e nos
afadigamos no palco da vida seria em vo, pois,  ultima batida do corao, mergulharamos na mais dramtica solido, a solido da inconscincia existencial: nunca
mais saberamos quem somos, o que fomos e quem foram as pessoas que amamos e com quem convivemos.

3a. hiptese: Deus existe e traou um projeto inimaginvel para resgatar a humanidade
Terceiro, Deus existe, mas criou o homem  sua imagem e semelhana e o colocou na bolha do tempo e lhe deu plena liberdade para agir segundo a sua conscincia. Nesta
hiptese, Deus criou o homem de maneira to elevada que respeita as decises humanas. Deu livre arbtrio para o homem escrever a sua prpria histria. No criou
um rob, mas um ser que pensa, que decide e que pode no apenas agir segundo a sua conscincia, mas amar e rejeitar o prprio Deus. Esta tese revela que o Autor
da vida  grande em poder e maior ainda em dignidade, pois somente algum to grande pode ter a coragem de deixar que os outros o rejeitem. Nessa terceira hiptese,
Deus sabe de todas as injustias, de todos os sofrimentos, de todas as mortes das pequenas crianas, dos sofrimentos dos pais, dos escravos, dos injuriados,
195













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

dos miserveis de nossa espcie. Restaurar a vida, devolver a identidade dos mortais, reorganizar a personalidade das crianas ceifadas pelo fim da vida, aliviar
toda dor, enxugar toda lgrima e a morte no mais existir60. Podemos nos perguntar: mas o tempo demora a passar, por que Deus no estanca logo as dores humanas?
Para ns, o tempo  demorado; para Ele, no. Ns vivemos no parntese do tempo, ele vive fora dos limites do tempo. O tempo no existe para o Eterno! A terceira
hiptese  descrita nos quatro evangelhos como a maior das verdades.  sobre ela que vou discorrer nos prximos textos. Nela, ele traou um plano para resgatar o
homem. Sem compreender este plano, poderamos considerar que seu julgamento e morte foram atos de suicdio, pois s este plano justifica o fato de Jesus revelar
que possui um poder que nenhum homem jamais teve e, ao mesmo tempo, se deixar morrer sem qualquer resistncia. Somente um plano fascinante poderia explicar por que
o mestre da vida se deixou passar pelos patamares mais indignos da dor fsica e emocional. Se tomarmos qualquer parmetro, seja ele filosfico, psicolgico, sociolgico,
psicopedaggico ou teolgico, constataremos que seu plano  o mais espetacular da histria. Vejamos.

O mais ambicioso plano da histria
Todo ser humano  medida que desenvolve sua conscincia quer saber qual o sentido da vida. Procuramos este sentido nos diplomas, nas riquezas, nos projetos filantrpicos,
no bem estar social. Como andarilhos nesta complexa existncia, freqentemente indagamos: Quem somos? Por que existimos?
196













































































#O mais Ambicioso Plano da Histria

Contudo, no poucas vezes, quanto mais procuramos nossas respostas, mais expandimos nossas dvidas. O homem  uma pergunta que por dezenas de anos busca uma resposta.
Quem no se perturba diante dos mistrios que cercam a vida ou est entorpecido pelo sistema social ou nunca usou com profundidade a arte de pensar. Trabalhamos,
compramos, planejamos o futuro, mas no percebemos que somos minsculos pontos inseridos no espao. Olhe para a lua, imagine-se pisando em seu solo. Perceba o quanto
somos pequenos. Parece que somos donos do mundo e entendemos tudo. Ledo engano! No somos donos de nada, nem da vida que pulsa em nossas clulas. No entendemos
quase nada. Em qualquer rea do conhecimento, a cincia produziu conhecimento no mximo sobre cinco ou seis perguntas seqenciais. A cincia  til, mas o conhecimento
que possumos pode se tornar um vu que cobre nossa ignorncia. Tome por exemplo a qumica. Conhecemos a matria, as molculas, os tomos, as partculas subatmicas,
as ondas eletromagnticas. O que conhecemos depois disto? Muito pouco, todavia depois disto h ainda uma escala infinita de eventos. A cincia  inesgotvel e mal
arranhamos a tinta da grande casa do conhecimento. Atados ao tempo e ao espao, queremos entender o mundo e mal sabemos explicar quem somos. Havia um homem que via
o mundo alm do tempo e do espao. Nunca destacaram sua altura, portanto devia ter estatura mediana, menos de 1,80 m. Era fisicamente pequeno como qualquer um de
ns, mas naquele homem se concentrava a fora criadora do universo e de tudo o que h vida, toda a energia csmica. Um dia, quando os fariseus debatiam com o mestre,
ele disse uma palavra que ningum em plena sanidade mental tem
197













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

coragem de dizer. Disse que sabia de onde tinha vindo e para onde iria61. Nenhum de ns sabe de onde viemos e para onde vamos a no ser que usemos a f. A f  a
ausncia da dvida, mas, se usarmos exclusivamente a razo, temos de confessar que a dvida  a mais ntima companheira de nossa existncia. Nunca admire demais
os intelectuais, eles so, como todo mundo, "perguntas vivas" que perambulam por essa misteriosa e momentnea existncia. Como Jesus Cristo podia afirmar que sabia
de onde vinha e para onde ia? So impressionantes os paradoxos que o cercavam. Ao mesmo tempo que previa a sua morte, ele afirmava que antes desta curta existncia
ele existia e, depois dela, ele continuar existindo. Ao ser preso, todos os seus amigos o abandonaram. Ao ser crucificado, seus amigos e inimigos pensaram que ele
havia mergulhado no caos da morte. Mas, ao contrrio da lgica, previa que sabia para onde ia. Expressava que ia alm de um tmulo fechado, escuro e mido. Somos
exclusivistas; ele, inclusivista. Sua misso era surpreendente. No veio para fundar uma nova escola de dogmas e idias. Seu plano era infinitamente maior do que
isto. Veio introduzir o homem na eternidade, traz-lo de volta ao Autor da vida e dar-lhe o seu Esprito. Como fazer isto? Vejamos primeiro os meios para compreendermos
os fins. Se h livros misteriosos, saturados de palavras e de situaes enigmticas so os evangelhos. Nos textos destes livros, h indicao clara de que o nascimento,
o crescimento, o anonimato, a profisso e a misso de Jesus foram estritamente planejados. Nada foi ao acaso. Este planejamento fica claro no texto em que Jesus
descreve seu precursor, aquele que foi encarregado de apresent-lo ao mundo62. Ele descreve que Joo Batista veio
198













































































#O mais Ambicioso Plano da Histria

propositadamente como um homem estranho, com vestes, alimentao e moradia incomuns. Joo vestia pele de camelo, comia gafanhotos e mel silvestre e morava no deserto.
Nada mais estranho. Convenhamos, nenhum apresentador de um rei teria tal comportamento. Jesus disse aos fariseus sobre seu precursor: "O que esperavam? Um homem
com vestes finas?". E continua discorrendo que os que tm vestes finas habitam nos palcios, enquanto ele e Joo Batista optaram por ter uma vida sem privilgios
sociais. Eram comuns por fora, mas ricos por dentro. O Autor da vida no queria que o homem se dobrasse aos seus ps pelo seu poder, mas por seu amor. O poder financeiro
e poltico sempre fascinou mais o homem do que o amor. Mas apareceu algum que at hoje nos deixa perplexos. Poderia ter o mundo aos seus ps se usasse seu poder,
mas preferiu ser amado a ser temido. Por incrvel que parea, o TodoPoderoso veio procurar amigos e no escravos, por isso veio pessoalmente conviver com os homens.
Diferente de Deus, o homem quanto mais conquista poder, mais perde seus amigos. Segundo os textos dos evangelhos, Deus tem plena conscincia de todas as necessidades
humanas. Cada dor, angstia ou aflio tocam sua emoo. Ele nunca esteve alienado ao pranto dos pais que perderam seus filhos. Esteve presente em cada lgrima que
eles derramaram, em cada momento de desespero que viveram. Penetrou em todos os momentos de solido e de descrena da vida que tiveram. Certa vez, ao ver uma viva
da cidade de Nain, que perdera seu nico filho, Jesus ficou profundamente sensibilizado. Ela no precisou dizer nada a ele sobre sua solido. Ficou to emocionado
com sua dor que fez um milagre sem que ela lhe pedisse.
199













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

Apesar de saber de todas as coisas, Deus no intervm na humanidade como gostaramos que ele interviesse e como ele desejaria intervir, caso contrrio, passaria
por cima dos seus prprios princpios. Transgrediria a liberdade que d ao homem em seguir seu prprio destino na pequena bolha do tempo. Observem o comportamento
de Jesus enquanto caminhava na Judia e na Galilia. Ele nunca pressionava o homem a segui-lo, nem mesmo usava seus milagres para subjuglo. Somente isto explica
por que no impediu Pedro de neg-lo nem Judas de tra-lo. Comunicou o que eles iriam fazer e no fez nada para mudar a disposio deles. Nunca algum honrou tanto
a liberdade humana. Discursamos sobre a liberdade nos tratados de direito e de filosofia, mas pouco a conhecemos. Deus no poderia dar menos liberdade queles que
possuem a sua imagem e semelhana do que d para si mesmo. O Autor da vida sempre respeitou a liberdade do homem porque sempre respeitou a sua prpria... s vezes,
o homem anda por caminhos desconhecidos, por trajetrias acidentadas. Tal trajetria gera a necessidade de milhares de dilogos entre ele e Deus e, por fim, tal
comunicao se torna um memorial entre eles. O mestre da vida suportou um sacrifcio to grande para gerar homens livres e felizes e no mquinas humanas por ele
controladas. Um dia as crianas que morreram na mais tenra infncia conquistaro uma personalidade: construiro idias, sentiro, decidiro, tero uma histria.
Ele mesmo disse que o reino dos cus era das crianas, no apenas das de pouca idade, mas principalmente daqueles que no se diplomam na vida, que no se contaminam
com a auto-suficincia63. Por um lado, os homens o julgaram e o odiaram injustamente; por outro, planejou cada passo do seu julgamento
200













































































#O mais Ambicioso Plano da Histria

e morte. Com preciso cirrgica, traou os eventos de sua vida. Por incrvel que parea nada escapou ao seu controle. Os homens planejam construir uma casa, fazer
uma ps-graduao, ter um plano de previdncia, mas ningum planeja seu fim e muito menos o seu caos. Ele disse claramente a Pilatos que tinha vindo  terra com
um propsito especfico. Era um mestre e um maestro da vida. Enquanto traava o seu plano, afinava a emoo dos homens e os ensinava a viver. Todo homem que quer
brilhar em sua histria necessita ser empreendedor, criativo, ter uma dose de ousadia e possuir metas bem elaboradas. Sua criatividade e ousadia para cumprir suas
metas eram fascinantes. Planejou morrer pela humanidade de um modo especfico e num tempo determinado. Amou apaixonadamente uma espcie que no conhecia a linguagem
do amor. Aos olhos dos filsofos, dos pensadores humanistas, dos cientistas sociais e at do senso comum  incompreensvel a morte de Jesus. Porm, se sairmos da
bolha do tempo, do sistema social em que vivemos e das preocupaes da existncia que entorpecem nossa mente, compreenderemos a inteno subjacente do mestre da
vida. Uma luz brilhar em nosso esprito e arejar o palco de nossas mentes. Ento, compreenderemos que ele foi o maior empreendedor de que se tem notcia. Jesus
Cristo no veio inaugurar uma nova escola de pensamento, novos rituais espirituais e nem estabelecer regras de comportamento, embora estabelecesse nobilssimos princpios
de conduta. No era segregacionista, embora inicialmente tivesse vindo abrir as janelas da mente dos judeus. Seu plano inclua todos os homens de todas as religies.
Os
201













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

judeus, os islamitas, os budistas, os industas, os sufistas, os negros, os brancos, os amarelos, os ricos, os miserveis, as prostitutas, os puritanos, os doentes,
os sadios, enfim, todo ser humano de qualquer poca e cultura faz parte do seu projeto. O Criador, atravs do seu unignito, queria dar uma longevidade  humanidade
que a medicina jamais sonhou em dar aos cambaleantes mortais e estabelecer uma justia que os fruns do mundo inteiro jamais imaginaram que existisse. O mais justo
e dcil dos homens veio sangrar pelos homens e causar a maior revoluo da histria da humanidade. Que plano fenomenal! Apesar deste plano ser inigualvel, temos
de indagar: Se h um Criador com infinda sabedoria, por que no arrumou um modo mais fcil para resgatar a humanidade? Por que o filho do Altssimo precisou nascer
num estbulo, crescer de maneira simples, lombar madeira nas costas, dormir ao relento, ser torturado, ter seu corpo coberto por hematomas, ser humilhado publicamente
e, por fim, morrer lenta e dramaticamente cravado numa trave de madeira? Para responder a estas perguntas temos de ler inmeras vezes suas biografias e o tanto quanto
possvel nos esvaziar dos nossos preconceitos e enxergarmos o problema da humanidade com os olhos do mestre. O problema est na essncia do homem e ligado a dois
pontos fundamentais:  debilidade fsica do corpo e  incapacidade do homem de gerenciar seus pensamentos e emoes. Segundo o pensamento de Jesus Cristo, o corpo
e a alma do homem so fragilssimos, mesmo quando os parmetros mdicos e psiquitricos dizem que esto saudveis. Vejamos.
202













































































#O mais Ambicioso Plano da Histria


Um sacrifcio para tornar o mortal em imortal
Desde pequenos estamos acostumados a detectar e resolver problemas. Entretanto, o maior problema humano no pode ser extirpado: a morte. O discurso contnuo e eloqente
de Jesus sobre a vida eterna embutia o conceito de que para ele o corpo humano estava falido. Falido no por doenas clssicas, mas na sua essncia, estrutura fsica,
por isso ele morre. O mestre nunca temeu a morte e nunca a encarou como um processo natural, mas como um problema a ser extirpado da histria humana. Ningum consegue
conter os processos metablicos que conduzem  velhice. A medicina est descobrindo que milhares de genes esto envolvidos no caos da vida. Um beb recm nascido,
apesar de ser to novo,  suficientemente velho para morrer. Quando estamos no pice da sade temos a sensao de sermos imortais, mas morremos todos os dias. Fazemos
seguro de vida, seguro sade, seguro do carro, colocamos grades nas janelas, alarme na casa, mas no impedimos que a vida se esgote no cerne de nosso metabolismo.
Nada neste universo  eterno, estvel. Nenhum planeta, tomo ou estrela dura para sempre. Quem detm os melhores conhecimentos da fsica sabe, como disse, que o
mundo fsico se organiza, passa pelo caos e se reorganiza novamente. Segundo o homem mais misterioso que passou nesta terra, o Autor da vida  o nico que possui
uma vida que no sucumbe ao caos, que no possui princpios de dias e fim de existncia. Este homem era aparentemente um simples carpinteiro, mas disse
203

#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

que era o "po da vida" e que quem dele comesse teria a vida eterna! Seu ambicioso plano visa a dar uma vida infindvel ao temporal. Como isto  possvel? Ele se
tornou um homem para cumprir sua justia no lugar da criatura humana. Diferente de todos os credores, sacrificou-se para pagar o dbito que o homem tinha com seu
Pai. Deste modo, pode dar gratuitamente algo impensvel e invendvel  humanidade, a sua natureza eterna e incriada. Aos seus olhos somente tal natureza pode fazer
o homem transcender a bolha do tempo e sair da condio de criatura para ter o status de filho de Deus. Crer nisto entra na esfera da f. Todavia, em detrimento
da f, no h como no reconhecer a grandeza do seu plano. Tinha todos os motivos para desistir diante de Ans, Caifs, Pilatos e Herodes Antipas e acabar com suas
sesses de tortura, mas no o fez. Pensou em cada um dos seus amigos. Lutou sem desferir golpes em seus adversrios. Lutou at morrer uma luta que no era sua. Levou
seu plano at s ltimas conseqncias. Num ambiente onde s era possvel gritar, urrar de dor, odiar e condenar, optou pelo silncio. Para sintetizar um novo medicamento
que combata doenas e prolongue alguns anos de vida so gastos, muitas vezes, centenas de milhes de dlares. O mestre da vida gastou a energia de cada clula do
seu corpo para tornar realidade o sonho da imortalidade.

Transformando a essncia da alma humana
Jesus Cristo no morreu apenas para tornar realidade o sonho da imortalidade, mas para conduzir o homem a navegar no territrio da emoo e a desenvolver as funes
mais altrustas
204













































































#O mais Ambicioso Plano da Histria

da inteligncia. Ele almejava transformar e enriquecer a natureza da sua alma e de seu esprito. Para ele, por mais que o homem se esforce, no tem um prazer estvel,
no sabe amar, no sabe se doar, no  ntimo da arte de pensar, no sabe ser livre e nem governar suas reaes, principalmente quando aumenta a "temperatura" da
sua emoo, quando vive situaes tensas e estressantes. No apenas o corpo humano  frgil, mas a sua estrutura psicolgica tambm o . Olhe para as reaes que
ocorrem freqentemente no palco de nossas mentes. Quem gerencia plenamente seus pensamentos e emoes? Quem  lder do seu prprio mundo? Dominamos o mundo que nos
cerca, mas somos tmidos no controle de nossas angstias e ansiedades. Facilmente perdemos a pacincia com os outros. O mais calmo dos homens tem seus limites. Sob
determinados focos de tenso pode reagir sem pensar e ferir as pessoas que mais ama. No precisamos fazer esforo algum para sermos egostas e individualistas, tais
caractersticas surgem espontaneamente ao longo do processo de formao da personalidade. Contudo, se quisermos nos doar, trabalhar em equipe e nos preocupar com
o bem estar social precisamos de uma excelente educao e de um esforo dirio para incorporarmos essas caractersticas. Todos amamos o prazer e almejamos viver
dias felizes. Todavia, freqentemente somos nossos principais carrascos. Ns nos entulhamos com pensamentos negativos, preocupaes existenciais e problemas que
ainda no aconteceram. Alm disso, temos baixa capacidade de sentir o prazer com o que temos e de contemplar o belo nos pequenos eventos da vida. Da meninice  velhice
a tendncia natural da emoo humana no  uma escala ascendente de prazer, mas de entristecimento. As
205













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

crianas so mais alegres que os adolescentes, que so mais alegres que os adultos, que so mais alegres que os idosos. Olhe para a sua experincia, voc  mais
alegre hoje ou no passado? Conquistamos dinheiro e cultura, mas pouco a pouco perdemos a singeleza da vida. Embora haja idosos no corpo de jovens e jovens no corpo
de idosos, com o passar do tempo temos tendncia em expandir uma srie de "favelas", "bairros mal iluminados", "lixo", na grande cidade da memria. O fenmeno RAM
(registro automtico da memria) registra involuntariamente todos os conflitos, preocupaes, pensamentos negativos, fobias, ansiedade na memria, entulhando nosso
inconsciente, deteriorando nossa qualidade de vida. Vamos comentar novamente sobre a fome e a injustia social. Temos superabundncia de alimentos, mas milhes de
crianas e de adultos morrem de fome todos os anos. Ser que no h um grupo de lderes polticos que  capaz de estabelecer critrios para se produzir um imposto
mundial no comrcio exterior que subsidie a oferta de alimentos para os miserveis de nossa espcie? Somos brancos, negros, americanos, alemes, franceses, brasileiros,
chineses, mas perdemos o sentido de espcie. No parece que pertencemos  mesma espcie, no somos apaixonados uns pelos outros. Quantos de ns temos prazer de entrar
no mundo das crianas, dos colegas de trabalho e das pessoas ntimas que nos circundam? Uma das maiores gratificaes que tenho como psicoterapeuta  descobrir o
mundo interessante de pessoas que me procuram. Cada ser humano, ainda que viva no anonimato, possui uma histria espetacular, mas ns no nos damos conta disso.
Temos o
206













































































#O mais Ambicioso Plano da Histria

privilgio de ser uma espcie pensante, mas nem sempre honramos nossa inteligncia. O mestre dos mestres da escola da existncia deixou claro em seus pensamentos,
parbolas, reaes e nas crticas dirigidas aos fariseus que a essncia da alma humana estava adoecida. Estava convicto de que o homem era lder do mundo exterior,
mas no do interior. Percebia que a insatisfao e a ansiedade aumentava pouco a pouco  medida que passavam os anos. Por isso convidava as pessoas a beber do prazer
que dele emanava, da sabedoria que dele flua, do amor que dele jorrava, da mansido que dele borbulhava. Almejava mudar a essncia da alma humana. Planejou que
o homem conquistasse uma vida lcida, serena, sbia, alegre, tranqila e saturada de paixo pela existncia. Enxergava longe, queria mudar os paradigmas humanos
e fazer a humanidade alcanar o sucesso de dentro para fora. Objetivava alcanar metas nunca alcanadas pela filosofia e cincias sociais. Os mais excelentes capitalistas
e os mais notveis socialistas ficariam perturbados se compreendessem os detalhes do plano do carpinteiro da vida. Ele veio com a maior de todas as incumbncias,
com a misso de produzir um novo homem: feliz e imortal.

207













































































#





















































CAPTULO 12









A INTELIGNCIA DE DEUS: O TODO-PODEROSO TEM O QUE APRENDER?

#A Inteligncia de Deus: O Todo-Poderoso tem O que Aprender?


A insondvel personalidade do Autor da existncia
Se lermos os evangelhos sob a tica do mestre da vida extrairemos o seguinte pensamento: "O Deus ilimitado vestiu o manto das limitaes humanas no para julgar
o homem, mas para am-lo e compreend-lo". O homem quer ser Deus, mas Deus quis ser um homem... Nenhum homem que viveu os mais sublimes sentimentos chegou a amar
tanto. Se h alguma coisa da qual Jesus possa ser acusado  de no pensar em si mesmo. Quanto mais forte  o amor de um homem, mais coragem ele tem. No conheo
algum que desafiou mais o mundo ao seu redor do que o mestre de Nazar. Como Jesus expressa ter uma natureza divina,  necessrio procurar entender algumas caractersticas
da personalidade de Deus para compreendermos que tipo de esforo Ele fez para cumprir seu plano e quais os meios que empregou para executlo. No pensava em entrar
neste assunto quando me propus a analisar a inteligncia de Cristo. Meu desejo era e ainda  analisar
211

#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

a sua intrigante e bela humanidade. Entretanto, cheguei a um grande impasse. Se no compreendermos minimamente a sua face divina no compreenderemos o que o motivou
a morrer sem nenhum herosmo. Sua morte no objetivava inscrever seu nome nos anais da histria. Ela foi carregada de vexames, vergonha e dor. Ao contrrio do que
muitos pensam, Jesus escolheu a morte mais humilhante, a que poderia apagar para sempre seu nome da histria. O eloqente apstolo Paulo tinha razo quando dizia
que a morte de Cristo na cruz era escndalo para os judeus e loucura para os filsofos. Jesus Cristo abalou o mundo no pela sua morte, mas pelas suas palavras e
gestos proferidos enquanto vivia e morria. Quando o vigor lhe faltou, ele foi ainda mais fascinante. Vamos fazer uma empreitada e investigar agora algumas caractersticas
de Deus descritas no maior best seller de todos os tempos: a Bblia. Antes de descrev-las quero enfatizar que os presentes textos tratam de uma anlise imperfeita
e limitada. Felipe, um dos seus discpulos, certa vez lhe perguntou: "Senhor, mostra- nos o pai e isso nos basta". Jesus fitou-o e disse uma frase que o chocou:
"Felipe, h tanto tempo estou convosco e no me conheces" 64. Em seguida, comeou a dizer que ele e o Pai so um, que seu Pai estava nele e ele estava no Pai. Que
mistrio  este?  difcil, se no impossvel, distinguir o Deus filho e o Deus Pai.  um grande desafio estud-los. Em alguns momentos, o Pai e o filho parecem
separados; em outros, eles so um. Quem quiser entender este assunto deve bater  porta de ilustres telogos. Alguns talvez digam o que conclu em minha investigao:
no temos capacidade intelectual para compreender plenamente a personalidade do Autor da existncia descrita nas Escrituras. Como pode um gro de areia compreender
a
212













































































#A Inteligncia de Deus: O Todo-Poderoso tem O que Aprender?

dimenso do oceano? Se no compreendemos diversos fenmenos que agem em milsimos de segundos para produzir o mais dbil dos pensamentos, como poderemos compreender
a mente daquele que reivindica ter tecido nossa inteligncia? Tenho estudado a personalidade de alguns grandes homens como Vincent Van Gogh, Freud, Machado de Assis
e outros. Estudar a personalidade deles  um desafio, mas no se compara ao desafio de estudar a inteligncia de Cristo, principalmente no que tange sua face sobre-humana.

Onipotente
Deus  Onipotente65, ou seja, pode realizar tudo o que quer, quando quer e do jeito que quer. Como vimos, Ele  TodoPoderoso. A essncia do seu ser concentra um
poder ilimitado. S se submete ao conselho de sua prpria vontade. Tudo que possamos imaginar sobre sua grandeza  apenas uma frao do que Ele . Ns produzimos
conhecimento e executamos tarefas dentro dos limites das leis da biologia, da qumica, da fsica. Mas o carpinteiro de Nazar executava a sua vontade sem qualquer
necessidade de obedec-las. Quem era este homem que subjugava as leis do mundo tangvel? Para curar um leproso, infectado por milhes de bactrias, Ele dava uma
ordem e simplesmente seu organismo ficava restaurado, desrespeitando as leis da biologia. Para ressuscitar uma pessoa morta, Ele ordenava o retorno  vida e o metabolismo
dela, que estava dramaticamente esfacelado pela falta de oxignio e nutrientes, era reorganizado. Por duas vezes Jesus fez milagres que questionam todos os limites
da fsica, todas as possibilidades da teoria quntica e
213













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

da relatividade de Einstein. Ele multiplicou pes, gerou matria, criou algo inexistente, pelo simples desejo de sua vontade. Ou esse fato foi uma iluso coletiva
ou aquele carpinteiro brilhante realmente possua divindade. No podia ser uma iluso coletiva, porque no fez discurso para realizar este milagre e, portanto, no
induziu as pessoas a acreditarem em seu poder. O relato destas passagens revela que a matria simplesmente se multiplicou sem que a multido,  exceo dos discpulos,
se apercebesse do que estava acontecendo. Aquele misterioso homem no se submetia s leis da cincia; as leis da cincia se submetiam a ele66. O Todo-Poderoso no
precisa elaborar processos e calcular energia para executar seus projetos. Seu pensamento consciente no  de natureza virtual como o pensamento humano. Seu pensamento
cria, gera, faz surgir algo novo do nada. O Onipotente no precisa da cincia para atingir suas metas, pois concentra em si mesmo uma energia criadora ilimitada.
 o nico ser que faz tudo o que quer, quando quer e do jeito que quer. S  submisso  sua capacidade de pensar e  sua conscincia!

Onisciente
Deus tambm  Onisciente67. Ele  infinitamente sbio e inteligente, conhece tudo em todas as pocas68. No precisa, como o homem, de tratados e nem de bibliotecas
para conhecer os fenmenos do mundo. Temos de gastar anos pesquisando, avaliando dados, interpretando fenmenos, para conseguir algumas respostas. Entretanto, a
cada dez anos o conhecimento que consideramos verdade  derrubado por "outras verdades". Somos limitados
214













































































#A Inteligncia de Deus: O Todo-Poderoso tem O que Aprender?

em nossa produo cientfica, mas o Onisciente tem cincia de tudo. Sua capacidade de assimilar, produzir e armazenar informaes  ilimitada. No precisa do sistema
sensorial, viso e audio para perceber os fenmenos, pois penetra instantnea e essencialmente em tudo que  visvel e invisvel sem necessidade de pesquis-los.
Os psicoterapeutas precisam gastar meses e anos para penetrar no mundo dos seus pacientes, interpret-los e compreend-los, ainda que parcialmente. O Onisciente
no interpreta os comportamentos, Ele penetra no mago da alma. V, toca e sente a essncia das intenes, dos pensamentos, dos sentimentos. Conhece cada poro do
inconsciente, cada beco da emoo e cada avenida do pensamento de cada ser humano. Entramos nos labirintos da memria e em meio a bilhes de opes resgatamos as
informaes que constituem as cadeias de pensamentos. Cada pensamento  organizado tmporoespacialmente por uma complexa conjugao verbal, inserindo os sujeitos,
substantivos e adjetivos num contexto. Nunca pensamos ou assimilamos dois pensamentos de uma s vez. O Deus Onisciente, ao contrrio, pode produzir infindveis pensamentos
simultaneamente. Sua capacidade de pensar  multiconstrutiva e multidirecional. Diferente da memria humana, que armazena fisicamente as informaes no crtex cerebral
e pode ser afetada por doenas tumorais e degenerativas, a memria dEle  inesgotvel, no depende de arquivos lgicos e sistemticos.

Onipresente
Deus ainda  Onipresente69: est em todo tempo e em todo lugar do universo. Ns lidamos com as variveis do tempo e espao, o Onipresente no est limitado a essas
variveis. O
215













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

tempo e o espao inexistem para Ele, por isso une no mesmo cordel o passado, o presente e o futuro. Habita na aurora e no ocaso. Qual  a origem do Deus Onipresente?
Presos ao tempo, ficamos perturbados querendo saber qual  a origem de Deus. Quantas vezes perguntamos: como e quando Deus nasceu? Muitos telogos e filsofos perderam-se
no labirinto dos seus pensamentos tentando encontrar respostas insolveis. Fiz milhares de vezes essa pergunta. Travei inmeras vezes minha mente buscando respostas
inalcanveis. Sucumbi num mar de dvidas. At que um dia uma luz brilhou no palco da minha mente. Compreendi que o problema no est na resposta, mas na pergunta.
Conclu que as perguntas so frutos do sistema de parmetros existentes em nossa memria temporal. Formamos nossas mentes com coisas que nascem e morrem, que tm
um incio e um fim. No conseguimos compreender um ser que tem vida em si mesmo, que no tem princpio de dias nem fim de existncia70. Nossa mente, por estar atada
ao tempo e espao, no consegue imaginar algum que nunca nasceu, que no teve origem, que no teve um comeo existencial, que sempre foi,  e ser. Um dos nomes
intrigantes do Onipresente nas Escrituras  "Eu Sou": o que era, o que  e o que h de ser. Ele  o Alfa e o mega, portanto, est nas duas pontas do alfabeto grego,
nos extremos de todos os parmetros imaginveis. Ele  a prpria origem criadora do mundo existente. Tudo que existe tem origem nEle. NEle foram criadas todas as
coisas do mundo fsico e metafsico71.
216













































































#A Inteligncia de Deus: O Todo-Poderoso tem O que Aprender?


Um rei que nunca deixou seu trono
Certo rei teve um sonho. Nele, viu as misrias e as aflies que abatiam os seus mais simples sditos. Teve um sono perturbado. Ao amanhecer, brotou em sua alma
um sentimento que nunca tinha tido antes, a compaixo. Condodo com a misria do seu povo, resolveu se disfarar de mendigo e sair bem cedo pelas ruas do seu reino.
Queria compreender de perto as angstias das pessoas. Desejava passar fome, frio, sentir-se rejeitado, viver anonimamente, enfim, viver o que a grande massa do seu
povo vivia. Pensou que somente conhecendo intimamente o seu povo poderia ser um grande rei. Chamou seus ministros, disse-lhes sua inteno e pediu segredo. Comentou
que pretendia ficar um ms longe das mordomias do trono. Os ministros, encantados com sua humildade, o aplaudiram. O rei, revelando uma modstia nunca antes demonstrada,
agradeceu. Travestido de mendigo saiu do palcio ocultamente, antes dos primeiros raios de sol. No se alimentou de seu farto caf. s dez da manh, pediu po numa
casa, recebeu um pedao embolorado. Recusou-se a comer e reclamou do bocado. Pacincia no era uma das suas virtudes, mas o rei procurou se acalmar. No almoo, de
estmago vazio, sentiu um aperto na alma e no peito nunca antes sentido, era a fome. Saindo pelas casas, ganhou restos de comida do jantar da noite anterior. O cheiro
azedo embrulhou-lhe o estmago, no almoou. Aos que lhe negavam comida, esbravejava: "Miserveis!". Os donos das casas nunca tinham visto um pobre to petulante.
 tarde, encontrou alguns mendigos na praa. Puxando
217

#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

assunto, no lhe deram ateno. Insistiu para ser ouvido e no o ouviram, perceberam nele um aroma de arrogncia. Sentindose desprezado, irou-se e levantou a voz.
Em troca, recebeu alguns tapas e safanes. Sabem o que aconteceu? O rei jogou a toalha e retomou imediatamente o seu trono. De volta ao palcio, listou os homens
que o ofenderam e mandou seus guardas encarcer-los. Listou tambm os que lhe negaram alimento fresco e mandou aoit-los. Por que o rei desistiu em menos de vinte
e quatro horas de ser um homem simples, de conhecer as misrias dos seus sditos? Porque enquanto foi "povo", nunca deixou de ser rei.

O desenvolvimento espetacular da humanidade de Jesus
A histria de Jesus est na contramo da histria deste rei. Ele saiu do seu trono, deixou seu imenso poder e pde ser achado entre os miserveis de Israel. Os homens
o zombaram, feriram, mutilaram, mas ele nunca retrocedeu. Conseguia se misturar de maneira to ntima que as pessoas no conseguiam defini-lo. Alguns diziam que
ele era Deus, outros um profeta, outros ainda um simples carpinteiro. O mestre da vida enquanto foi "povo" deixou de ser rei. Sua realeza estava oculta dentro de
si. Quem quisesse enxerg-lo teria de ver o que os olhos no viam. Horas antes de ser preso, clamou ao Pai para que Ele o glorificasse com a glria que tinha antes
que houvesse mundo72 e, quando estava preso, disse aos homens do sindrio que se assentaria  direita do Todo-Poderoso. Quem era este homem? Mateus revela algo esplndido:
o menino que nasceu h dois milnios foi uma criana mpar na histria. Seu nome era
218













































































#A Inteligncia de Deus: O Todo-Poderoso tem O que Aprender?

"Emanuel" 73, que quer dizer, "Deus conosco". Segundo os homens que viveram as pegadas do mestre de Nazar e escreveram as suas quatro biografias, o Deus Onipotente,
Onisciente e Onipresente deixou um dia sua majestade e veio habitar entre os homens. O filho de Deus entrou numa mulher humilde e especial. Usou o material gentico
humano. Viveu uma vida embrionria como qualquer criana. Confinou-se ao mago de uma clula. Esta clula se multiplicou em bilhes de outras, que pouco a pouco
foram diferenciadas pelo DNA. Ganhou tecidos que se tornaram rgos. Assim, como qualquer outro feto, adquiriu um sistema nervoso, cardiocirculatrio, gastrointestinal,
esqueltico. O filho do Altssimo que nunca foi limitado, conquistou um corpo fsico e precisou do sangue de Maria para nutri-lo. O unignito de Deus que nunca se
limitou ao tempo e espao, ficou confinado por nove meses ao pequenssimo espao intrauterino. O tero de sua me humana, por mais tranqilo e confortvel que fosse,
era uma grande priso. Antes de penetrar na humanidade, podia estar em todos os cantos do universo, mas agora seus movimentos se restringiam aos malabarismos que
fazia na piscina de lquido amnitico, como qualquer outra criana. Suportou e se equipou destas experincias. Por isso quando adulto, amou profundamente as crianas.
Sabia cuidar delas como ningum. Sabia educ-las melhor do que qualquer pai. Por isso, quando elas morrem precocemente,  possvel confiar nele como o mestre da
vida, pois no apenas  o Criador, mas tambm um homem que viveu passo a passo todas as etapas do desenvolvimento da infncia. Nas ltimas semanas do desenvolvimento
fetal
219













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

experimentou o processo de nascimento que ele mesmo criou. Cresceu muito como todos os fetos, e, como todos eles, ficou sem espao para se movimentar. Diminuiu seus
movimentos, perdeu a sua liberdade, se encaixou no colo uterino. Deste modo preparou-se para ser expulso e suportar as turbulncias da vida: a fome, a sede, as clicas
intestinais, a luminosidade, os transtornos sonoros. Como Criador, sabia que se as crianas no se encaixassem no colo uterino e no restringissem temporariamente
sua liberdade, teriam mais dificuldades de se adaptar aos estmulos estressantes do mundo extra-uterino. Isso explica por que a maioria das crianas que nasce prematura
se torna hiperativa, ansiosa, mesmo sem traos genticos para tal comportamento. Elas, ao nascerem, por ainda terem um pequeno corpo, gozavam de grande liberdade
para se movimentar dentro do tero. Portanto, no tiveram tempo para aquietar o territrio da emoo e se psicoadaptar adequadamente aos estmulos estressantes sociais
e fsicos que teriam ao ser expulsas do tero materno. Entretanto, a educao e o treinamento da emoo podem lapidar a hiperatividade. Em casos mais graves, determinados
tipos de antidepressivos podem se tornar um excelente auxiliar teraputico para desacelerar a hiperproduo de reaes e pensamentos e propiciar condies para que
o treinamento da emoo as eduque. O mestre da vida adquiriu um corpo fsico de carne e ossos e viveu uma vida humana genuna. Foi massageado pelas contraes uterinas,
expulso do tero e, como qualquer criana, comeou a sofrer. Experimentou clicas geradas pelo funcionamento do aparelho digestivo e pela fermentao de alimentos.
Alimentou-se do suco da vida contido no leito materno. Tempos atrs, o tempo e o espao eram brinquedos em
220













































































#A Inteligncia de Deus: O Todo-Poderoso tem O que Aprender?

suas mos, mas agora est restrito ao pequeno corpo de uma criana. O que se pode inferir  que, para ele, confinar-se ao corpo de um beb  como estar engessado
da cabea aos ps. Para quem sempre foi livre, a falta da liberdade  angustiante. Mas no se importou, pois veio conhecer intimamente a obra prima da sua criao,
a humanidade. Por am-la, suportou todas as limitaes pelas quais passamos. Todavia, deve ter sofrido incomparavelmente mais do que todas as crianas, porque ao
que tudo indica estava consciente de todas as etapas do desenvolvimento de sua humanidade. Por isso, com doze anos de idade, j expressava uma inteligncia que deixava
atnitos os mestres de Israel. Nesta mesma cena, deixou perplexos seus pais, ao dizer que eles no deveriam ficar perturbados, pois ele estava na casa de seu Pai,
que na poca era o Templo de Jerusalm. Quem o ensinou a ler e ter uma sabedoria que superava a dos mestres da lei com to pouca idade? Menino Jesus escondia a sabedoria
de Deus. Maria guardava em segredo as palavras de seu filho, pois sabia que, antes de ser seu filho, ele era o filho de Deus. As crianas nascem inconscientes e
se tornam pouco a pouco conscientes. Ele foi concebido como criana, mas conservou a conscincia de filho de Deus desde pequeno, o que lhe fez aumentar as dores
impostas pelas limitaes fsicas. Tal conscincia sobrenatural aos doze anos indica que ele sempre teve conscincia de sua identidade e de sua misso em todas as
etapas de sua infncia. Desse modo, o embrio, o feto, o beb, o menino Jesus cresceu de modo assombrosamente maravilhoso. O desenvolvimento da humanidade do mestre
da vida foi espetacular. Na esteira deste pensamento, um profeta de Israel, Isaas, comentou que um dia aconteceria um fenmeno incomum na
221













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

terra, um menino diferente de todos os meninos nasceria. Seu nome seria Deus forte, prncipe da paz, Pai da eternidade...74. Como pde Isaas, que viveu muitos sculos
antes do nascimento de Jesus Cristo, descrever no captulo 53 com uma preciso cirrgica algumas caractersticas marcantes de sua personalidade? Os quatro evangelhos
podem ser assim sintetizados: O Autor da vida foi at s ltimas conseqncias para trazer o homem de volta para si. Muitos no sabem, mas esses livros escondem
uma bela histria de amor.

Deus tem o que aprender?
Se h um Deus no universo com as caractersticas descritas no Velho e Novo Testamento, Ele no tem nada para aprender, porque suas caractersticas revelam que Ele
tem todas as informaes de todas as eras e de todos os tempos. Segundo o grande Rei Davi, sua capacidade intelectual  to grande que penetra no mago da alma e
perscruta os pensamentos que ainda no foram processados. As palavras que ainda no foram proferidas em nossa boca, Ele j as conhece todas75. Sob este prisma, Deus
no tem nada para aprender. Entretanto, o Todo-Poderoso tinha o conhecimento das experincias humanas mas nunca as viveu. No sabia o que era dormir ao relento,
fazer do cho frio uma cama e de uma pedra, um travesseiro. Nunca havia sido zombado, humilhado, cuspido no rosto; nem sabia o que era passar fome e sede. Nunca
havia sido desafiado, maltratado, rejeitado, nem experimentado hematomas, traumas e dores fsicas. Os relatos dos evangelhos expressam que Ele se tornou um homem
e em sua humanidade aprendeu a passar por todas essas experincias, at aquelas que a grande maioria de ns nunca passaremos. Como homem, Ele se tornou o grande
mestre da vida e ns, lentos aprendizes.
222













































































#A Inteligncia de Deus: O Todo-Poderoso tem O que Aprender?

Todos gostamos de nos aquecer com um aconchegante cobertor. Quem poderia imaginar o Deus eterno dormindo ao relento? A noite se tornou seu lenol, enquanto o vento
frio roava seu corpo. Ele tinha pele, msculos e fibras nervosas. Sentiu as mais dramticas dores, principalmente em seu julgamento e crucificao. Mas no reclamou,
ao invs disso, era satisfeito e ainda tinha flego para aquecer a emoo dos homens. Ao ter sede e fome no se revoltou, mas se colocou como po e gua da vida.
Conversei com um cientista da Espanha, Phd em cincias da educao e que orienta muitos doutorandos, sobre minhas pesquisas relacionadas  construo do pensamento
e  analise da inteligncia de Cristo. Ele ficou muito interessado e me perguntou se tinha detectado nele alguma doena psquica. Disse que tentei, mas no consegui.
Mostrei-lhe que sua humanidade tinha sido invariavelmente saudvel sob todos os ngulos psicolgicos e sociolgicos. Ele ficou meio desapontado e me disse que se
Jesus tivesse tido alguma doena emocional seria mais fcil nos espelharmos nele, j que somos sujeitos a tantas doenas ansiosas e estressantes. Comentei que apesar
de no ter diagnosticado nenhuma doena emocional, ele passou por reaes depressivas e ansiosas momentneas da mais alta intensidade. Passou por um concentrado
de situaes estressantes que deveriam afetar completamente sua sade psquica, mas soube super-las. Comentei que mesmo para algum que rejeita a idia de Deus,
no h como deixar de ficar assombrado com sua sade psquica e com seu projeto transcendental. E acrescentei que todos os que lem a sua histria podem aprender
profundas lies e realizar um refinado treinamento da emoo capaz de contribuir para gerar uma alta qualidade de vida.
223













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

O mestre da vida virou o mundo de cabea para baixo, estilhaou todos os conceitos que o homem poderia ter sobre o Criador. Era de se esperar que Jesus Cristo revelasse
um Deus frio, distante e que reivindicasse reverncia absoluta dos homens e exigisse que todos eles se prostrassem aos seus ps, mas, ao invs disso, Ele prostrou-se
aos ps dos homens. Ningum pode acusar o Autor da vida de no se importar com as mazelas humanas, pois quando todos pensavam que Ele estivesse infinitamente distante
da humanidade, estava jantando com leprosos, acariciando os miserveis, tratando dos deprimidos, dos ansiosos, dos feridos de alma. Vejamos no prximo captulo a
manifestao da sua humanidade e algumas de suas lies mpares.

224













































































#





















































CAPTULO 13









AS LIES E TREINAMENTO DA EMOO DO MESTRE DA VIDA

#As lies e Treinamento da Emoo do Mestre da Vida


Mapeando a alma humana
O filho de Deus apareceu sorrateiro num estbulo, cresceu de modo simples. Ningum percebia claramente quem ele era. Desejava respirar o mesmo ar que eles, toc-los
e conviver sem barreiras. Aprendeu cedo o ofcio da carpintaria. Para aquele que se colocou como autor do mundo era um verdadeiro teste construir telhados. Para
aquele que disse ter a mais alta posio do universo, escalar casas e encaixar peas de madeira era uma grande limitao, mas no se importou, no teve vergonha
do seu humilde trabalho. Embora tivesse a mais elevada cultura de todos os tempos, teve a humildade de ser criado por pais humanos e freqentar a escola da vida.
Foi um grande mestre porque aprendeu a ser um grande aluno. O carpinteiro de Nazar tinha dois grandes ofcios. O primeiro era trabalhar com a madeira e construir
telhados; o segundo, o mais importante, o que escondia sua verdadeira misso, era mapear a alma humana. Veio compreender as razes
227

#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

mais ntimas do universo consciente e inconsciente do ser humano. O mestre da vida mapeou o mundo dos pensamentos e das emoes humanas como nenhum pesquisador da
psiquiatria e da psicologia. Enquanto encaixava e pregava as peas de madeira e os raios de sol queimavam-lhe o rosto, atuava como o mais excelente observador do
comportamento humano. Joo, seu discpulo, escreveu que ningum precisava dar relatos para ele sobre o que era ser homem e quais suas intenes subjacentes, pois
ele mesmo se tornou um homem e como tal analisava atentamente a natureza humana. Perscrutava embevecidamente cada expresso facial e cada gesto das pessoas76. Transcendia
a cortina do comportamento e investigava com exmia habilidade os fundamentos de cada reao humana. Enquanto fazia calos nas mos, ele compreendia as dificuldades
do ser humano em lidar com as perdas, crticas, ansiedades, frustraes, solido, sentimento de culpa, fracassos. Enquanto visitava seus amigos e andava pelas ruas
da pequena Nazar, analisava a ira, a inveja, o cime, a impacincia, a instabilidade, a simulao, a prepotncia, o desnimo, a baixa auto-estima, a angstia, tudo
que consumia diariamente a vida das pessoas. Ningum imaginava que escondido na pele de um carpinteiro se encontrava o mais excelente mestre da vida. Ningum poderia
imaginar que um homem que bateu martelos estava fazendo uma anlise detalhadssima da humanidade. Qual foi o resultado de tantos anos de investigao e anlise da
alma humana? O resultado no poderia ser mais surpreendente. As palavras que ele disse causaram assombro at para um ateu radical. Quando abriu a sua boca ao mundo,
era de se esperar que Jesus Cristo condenasse e punisse com veemncia a humanidade, pois detectou todos os seus defeitos.
228













































































#As lies e Treinamento da Emoo do Mestre da Vida

Todavia, eis que ele bradou com a mais alta eloqncia palavras com doura e brandura como ningum jamais falou, nem antes nem depois dele. O perdo em sua boca
virou uma arte; o amor se tornou poesia; a solidariedade, uma sinfonia; a mansido,um manual de vida. O mestre da vida, por amar intensamente o ser humano e perceber
as falhas contnuas que permeavam sua alma, ao invs de tecer crticas s pessoas, acolheu calorosamente a todos. Sabia que o homem, em sua grande maioria, gostaria
de ser paciente, gentil, solidrio, amvel, mas no tinha estrutura para submeter a energia emocional e o processo de construo de pensamentos ao pleno controle
de sua vontade. Compreendeu que o homem, apesar de ter capacidade de controlar o mundo  sua volta, no conseguia controlar o mundo dentro de si. Quando dizia aos
seus discpulos que eles eram homens de pequena f, muitas vezes no se referia a milagres sobrenaturais, mas ao maior de todos os "milagres naturais" expresso pelo
domnio do medo, da inveja, da ira, da ansiedade, da angstia, do desnimo. Aquele que esquadrinhou o funcionamento da mente humana no considerou a humanidade um
projeto falido, ao contrrio, veio consert-la de dentro para fora, veio trazer mecanismos para resgat-la. Por isso, honrou e valorizou cada ser humano do jeito
que ele , na esperana de poder transformlo.

Treinando e transformando a emoo
Um dia recebi uma ligao diferente em meu consultrio. A no ser em caso de urgncia, peo para no ser interrompido nas consultas. Mas uma pessoa pediu para interromper.
Era
229













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

algum expressando, no um problema, mas uma grande alegria. Queria relatar uma experincia que teve ao ler o segundo livro desta coleo, "O Mestre da Sensibilidade".
Disse-me que possua um grave conflito que o perturbava por dcadas. Comentou que seria um novo Hitler, pois odiava as pessoas que o rodeavam e desejava assassin-las.
No conseguia controlar sua raiva pela sociedade. Alm disso, relatou que tinha desejo constante de suicdio, que a vida no tinha mais qualquer sentido para ele.
Havia passado nas mos de doze psiquiatras, mas sem nenhum sucesso no tratamento. Nenhum medicamento e nenhum procedimento psicoteraputico o ajudou. Porm, aps
compreender como Jesus navegava no territrio da emoo, como lidava com as dores e frustraes da vida, como superava seus focos de tenso e como vivia a arte de
amar, uma revoluo ocorreu em seu ser. Disse-me que a leitura deste livro mudou a sua histria. Comeou a penetrar dentro de si mesmo e a repensar os parmetros
de sua vida. Comeou a se perdoar e a ser afetivo com as pessoas que o rodeavam. Uma paixo pela vida brotou no cerne da sua alma. Sentia-se livre e feliz como nunca
esteve. Comentou que foi o melhor presente que recebeu em seus sessenta anos de idade, por isso insistiu em me dar essa notcia. Fiquei muito feliz por ele, entretanto
estou convicto de que a revoluo que ocorreu em sua vida no foi causada por mim, enquanto escritor, mas pela grandeza do personagem que descrevo. Vrios relatos
semelhantes a esse tm ocorrido. O mestre da sensibilidade mudava completamente a maneira das pessoas de ver o mundo e de reagir nas relaes sociais. Agora, como
mestre da vida, vemos uma outra face do seu ensinamento: as lies de vida e o treinamento da emoo. Muitos tm escrito sobre a emoo influenciando a
230













































































#As lies e Treinamento da Emoo do Mestre da Vida

inteligncia e o comportamento humano, mas no sabem que h dois mil anos houve um mestre especialista em treinar as reas mais difceis e belas da energia emocional.
No imps nenhuma condio para acolher as pessoas77. Por conhecer as dificuldades do homem em administrar suas emoes, ensinava sistematicamente que as relaes
sociais deveriam ser pautadas pela compreenso, solidariedade, pacincia, respeito pelas dificuldades dos outros, amor ao prximo e no pela punio e condenao.
Sabia que sem tais requisitos no era possvel viver uma vida livre e satisfeita nessa sinuosa existncia. As lies de vida e o treinamento da emoo que Jesus
deu aos seus discpulos eram elevadssimos e podem enriquecer a histria de todos ns. Vejamos algumas delas. Ensinou o caminho da simplicidade. Aprender a ser simples
por fora, mas forte, lcido e seguro por dentro era uma lio bsica. Algumas pessoas pagam para sair nas colunas sociais, mas os que andavam em suas pegadas aprendiam
a valorizar aquilo que o dinheiro no compra e o status social no alcana. Certas pessoas parecem humildes, mas tm uma humildade doentia. Recentemente um jovem
deprimido me procurou com um profundo ar de penria. No olhava nos meus olhos. Dizia que era feio, que no tinha cultura, que ningum se importava com ele e que
no tinha inteligncia para realizar nada de digno. Muitos tentaram ajud-lo, mas ningum conseguiu. Observando sua rigidez disfarada de humildade, fitei seus olhos
e disse-lhe: "Voc  um deus". Espantado, ele me perguntou: "Como assim?" Respondi: "Suas verdades so absolutas, ningum consegue penetrar no seu mundo. Voc cr
plenamente naquilo que pensa. S deus pode pensar de maneira to absoluta, sem se questionar".
231













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

Ento, ele comeou a entender que era impenetrvel, que precisava abrir espao para trabalhar seus conflitos e reciclar as suas verdades. Entendeu que, por detrs
da cortina da sua humildade, havia uma pessoa impenetrvel, auto-suficiente, que agia como um carrasco de si mesma. Na psicologia clnica, o "eu passivo e autopunitivo"
 um problema maior do que a prpria doena do paciente. A humildade que Jesus apregoava era um brinde  vida: era inteligente, cativante e saudvel, capaz de deixar
atnitos seus observadores. Amava agir com naturalidade e espontaneidade. No fazia acepo de pessoas. Jantava na casa de qualquer famlia que o convidava e sentia-se
to bem no meio das pessoas que freqentemente se reclinava  mesa. Ensinou a navegar nas guas da emoo. Uma das maiores dificuldades da educao clssica  no
saber como ensinar os jovens a trabalhar com seus fracassos, angstias e medos. O mestre da vida foi muito longe em seu treinamento. Treinou seus seguidores a fazer
dos seus fracassos nutrientes para as suas vitrias; conduziu-os a no se conformar com as suas misrias emocionais e a super-las; levou-os a confrontar e vencer
o medo de doenas, da morte, de ser excludo socialmente, humilhado, incompreendido, abandonado, ferido. Ensinou o caminho da tranqilidade. Treinou seus discpulos
a encontrar a paz interior atravs de perdoar seus inimigos. Ensinou que para am-los era necessrio tirar a trave dos olhos e enxergar a prpria debilidade, assim
teriam maior visibilidade para compreender as causas subjacentes dos comportamentos daqueles que os feriam78. No julgando-os, mas compreendendo-os, detectariam
as razes que os motivaram a desferir seus golpes. Detectando-as, estes golpes deixariam de gerar raiva e produziriam compaixo. Deste modo, os inimigos deixariam
de ser inimigos.
232













































































#As lies e Treinamento da Emoo do Mestre da Vida

Jesus fez da capacidade de compreender e de enxergar o mundo com os olhos dos outros atributos dos fortes. Os fracos no resistem ao mpeto de criticar, mas os fortes
compreendem e amam. O mundo podia desabar sobre o mestre da vida, mas nada lhe roubava a tranqilidade e perturbava-lhe o sono79. Tamanha sabedoria o transformava
no mais tranqilo dos homens, no mais calmo dos torturados, no nico ru que dirigiu seu julgamento. Ensinou a nunca desistir da vida. Na parbola do filho prdigo,
o pai silenciou o filho quando ele comeou a relatar os seus erros. O filho prdigo no precisava de sermes, de punio, de crticas, pois o peso das perdas j
o fizera demasiadamente infeliz. Ele precisava do aconchego do pai, do seu acolhimento, de coragem para no desistir da vida. Por isso, ao contrrio de todos os
pais do mundo, ao invs de dar uma merecida crtica, fez uma grande festa para o filho rebelde, insolente e insensvel. O filho ficou chocado com a amabilidade de
seu pai e por isso aprendeu que o que mais tinha perdido no eram os bens que dizimou, mas a agradvel presena do seu pai. Nesta parbola, o mestre da vida foi
mais longe do que qualquer humanista. Expressou que valorizava mais o homem do que seus erros, mais a vida do que seus percalos. Tambm desta histria extramos
que, para ele, o retorno sempre  possvel, ainda que tenhamos dissipado nossas vidas tolamente e pautado nossa histria com perdas, frustraes e fragilidades.
Nem mesmo Judas escapou da sua gentileza. Jesus tinha todos os motivos para expor publicamente a traio deste discpulo, mas alm de o ter poupado diante dos demais,
o tratou com distino at no ato da traio. Ensinou a chorar quando necessrio. Muitas vezes nossos sentimentos ficam represados. No poucas pessoas sentem a
233













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

necessidade de chorar e no conseguem. O prprio Jesus no teve medo ou vergonha de chorar. Uma das experincias mais importantes de Pedro foi quando ele caiu em
si, reconheceu que estava encarcerado pelo medo e chorou. Ao treinar a emoo de Pedro, ele treinava a emoo de todos ns. Ensinou o caminho da autenticidade. Ao
dizer, momentos antes de ser preso, que sua alma estava profundamente angustiada at a morte, usou sua prpria dor para treinar seus discpulos a ser autnticos,
a no disfarar seus sentimentos, mas aprender a falar dos seus conflitos, ainda que fosse com alguns amigos mais ntimos. Infelizmente, muitos no conseguem abrir
a boca para falar de si mesmos. Ensinou a respeitar o direito de deciso das pessoas. O mestre da vida treinou os impulsivos a pensar antes de reagir e os autoritrios
a expor e a no impor as idias. Seus discpulos aprendiam com ele a no usar de qualquer presso para convencer as pessoas a aderir s suas idias. Apesar de dizer
que tinha a gua e o po que matavam a sede e a fome da alma, nunca obrigava as pessoas a comer e beber dele, apenas as convidava. Ningum era obrigado a segui-lo.
Deu-nos uma lio inesquecvel: o amor s consegue florescer no solo da liberdade. Ensinou a arte da sensibilidade. H pouco tempo, um amigo oncologista disse-me
que ele e alguns de seus colegas mdicos, por tratarem de pessoas com cncer e lidarem constantemente com a morte, estavam perdendo a sensibilidade, sentiam dificuldades
de se comover com a angstia dos outros. De fato, quem observa freqentemente a dor e a morte, tais como os mdicos, os enfermeiros, os policiais, os soldados nas
guerras, pode se psicoadaptar aos sentimentos das pessoas e deixar de se encantar com a existncia, o que conspira contra a qualidade de vida.
234













































































#As lies e Treinamento da Emoo do Mestre da Vida

Ao dar importncia para a histria e para os conflitos de cada pessoa, o mestre da vida treinava a sensibilidade dos seus discpulos. Sua capacidade em se doar era
admirvel. Os discpulos queriam que ele estivesse nos patamares mais altos do poder e da fama, mas ele procurava os doentes, os que estavam deprimidos, ansiosos,
e fatigados pela vida. Nunca algum to castigado pela vida desenvolveu a mais fina arte da sensibilidade. Ensinou o caminho da contemplao do belo. Ao encorajar
seus discpulos a olhar os lrios dos campos e a no gravitar em torno dos problemas do amanh, o mestre treinava seus discpulos a perceber que as coisas mais belas
da vida esto presentes nas coisas mais singelas 80 . Percorremos freqentemente longos e desgastantes caminhos para procurar a felicidade e no percebemos que aquilo
que mais procuramos muitas vezes est mais perto do que imaginamos. Ensinou o caminho para ser uma pessoa socivel e agradvel. Treinou seus discpulos a gostar
do cheiro de gente, a analisar os comportamentos das pessoas, a perceber seus sentimentos mais ocultos, a ser sbios e atraentes em seu falar. Os que conviviam com
o mestre da vida lapidavam sua postura spera e austera e se tornavam serenos, educados e finos. O prprio Jesus era to agradvel que todos queriam estar ao seu
lado. Mulheres, homens, velhos e crianas concorriam para vlo, toc-lo e manter algum dilogo com ele. As lies de vida e o treinamento da emoo de Jesus Cristo
revelam que ele conquistou uma humanidade que atingiu o topo da sabedoria, da mansido, da gentileza, da singeleza, do respeito pelos direitos humanos, da capacidade
de se doar, da preocupao com o destino da humanidade. Por isso, embora nunca tenha tido privilgios sociais, por onde quer que passasse,
235













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

provocava um suspiro prazeroso nas pessoas. Ao encontr-lo, muitos renovavam suas esperanas e reacendiam um novo nimo de vida. Quando ele foi preso, todos estavam
desesperados e impacientes.

O resultado
Sob as lies de vida e o treinamento da emoo produzidos pelo mestre da vida, pescadores rudes e sem qualquer qualificao intelectual, aps sua morte, levaram
adiante a bandeira da maior revoluo da histria. Ele os treinou exteriormente e transformou-os interiormente. Depois que passaram pelo refinado treinamento do
mestre, eles nunca mais foram os mesmos, pois incorporaram pouco a pouco as mais belas e importantes caractersticas da inteligncia, aprenderam a navegar nas guas
da emoo, a superar o medo, a perdoar, a pedir desculpas, a derramar lgrimas, a abrir as portas da criatividade, a refinar a arte de pensar, a esculpir a linguagem
do amor. Tais homens se tornaram uma luz num mundo escuro e, por vezes, inumano. Estudaremos este assunto no livro "O MESTRE INESQUECVEL"* O maior comunicador do
mundo foi o maior educador do mundo, teve o maior plano do mundo, foi o maior empreendedor do mundo, viveu o maior amor do mundo e causou a maior revoluo do mundo.
O resultado  que bilhes de pessoas de todas as raas, culturas, religies e condies sciofinanceiras dizem segui-lo. E a parte do globo que diz no ser crist,
nutre profunda admirao por ele.
* Cury, Augusto J., Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre Inesquecvel, Academia de Inteligncia, So Paulo, a ser publicado em 2002.

236













































































#As lies e Treinamento da Emoo do Mestre da Vida


Final do julgamento: a grande surpresa ao sair da casa de Pilatos
Quando algum perde o seu poder numa sociedade,  colocado em segundo plano e deixa de influenciar o ambiente. Jesus Cristo, ao contrrio, conseguiu um feito extraordinrio.
Quando assumiu plenamente sua condio humana, quando deixou de lado seus feitos sobrenaturais e sua exmia capacidade de argumentao, foi espantosamente ainda
mais fascinante. Livre, ele fez milagres e proferiu discursos com incrvel sabedoria, arrebatando multides. Preso, ele produziu olhares, pequenas frases e gestos
quase imperceptveis, que nos deixam perplexos. Num ambiente onde s havia espao para sentir o medo e o desespero, ele exalou tranqilidade. Numa esfera onde s
era possvel reagir irracionalmente, ele expressou a mais bela afetividade e capacidade de pensar. Agora ele foi julgado e est mutilado. Em menos de doze horas
seus inimigos destruram seu corpo. O filho do homem no tinha mais fora para caminhar... Fizeram com ele o que no fizeram com ningum que enfrentaria o suplcio
da cruz. O mais amvel e poderoso dos homens estava com dezenas de pontos hemorrgicos sobre sua cabea. Sua face estava mutilada e inchada. Os olhos deviam estar
quase invisveis pelos traumas, pelo edema das plpebras. Os msculos do abdome estavam feridos. No conseguia andar direito. A musculatura das pernas estava lesada.
A pele das costas estava aberta pelos aoites. Seu corpo estava desidratado. Jesus ainda est diante de Pilatos e o v lavar as suas mos. Assiste-lhe fazer a vontade
dos judeus e entregar-lhe para ser
237

#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

crucificado. O mestre da vida estava profudamente ferido e sem energia para carregar a cruz. L fora, uma multido de homens e mulheres impassveis queria notcias.
Desejam saber o veredicto romano. De repente, um homem quase irreconhecvel, carregando com enorme dificuldade uma trave de madeira, aparece. A multido ficou chocada.
Parecia uma miragem. No acreditavam na cena. O mais manso dos homens estava profundamente ferido. O homem que fez milagres estarrecedores foi desfigurado. O nico
homem que discursou ser a fonte da vida eterna estava morrendo. O poeta do amor estava sangrando. A cena era impressionante. A angstia tomou conta de milhares de
homens e mulheres. Um cordo humano foi feito para Jesus passar. Fico imaginando o que no se passava na mente daquelas pessoas sofridas que foram cativadas por
ele e ganharam um novo sentido de vida. Fico pensando como o sonho delas se converteu em um grande pesadelo. Perturbadas, talvez cada uma delas fizesse inmeras
perguntas para si mesmas: Ser que tudo o que ele falou no era real? Ser que a vida eterna, sobre a qual ele tanto discursou, inexiste? Ser que nunca mais encontraremos
as pessoas que amamos e que fecharam os olhos para a existncia? Se ele  o filho de Deus, onde est o seu poder? O povo estava estarrecido. Ao contemplarem o mestre
do amor cambaleante e sem energia para carregar a cruz, no suportaram. Todos comearam a chorar. Lucas descreve o desespero incontido daquelas pessoas. A esperana
dos que vieram de to longe para v-lo se evaporou como uma gota d'gua no calor do meio-dia.
238













































































#As lies e Treinamento da Emoo do Mestre da Vida

O sangue escorria pela cabea de Jesus e as lgrimas rolavam pelo rosto dos que o amavam. O sangue e as lgrimas se misturaram num dos mais emocionantes cenrios
da histria. Aparentemente ele era o mais fracassado dos homens, mas, apesar de desfigurado, conseguia ainda causar um grande impacto nas pessoas. Os homens do sindrio
e da poltica romana no imaginavam que ele fosse to querido. Estava to abatido que no tinha foras para carregar aquilo que ele mais queria: a cruz. Ao carreg-la,
caa freqentemente, por isso precisou ser ajudado. Seu corpo todo doa, seus msculos traumatizados mal conseguiam se movimentar. No havia, portanto, condies
fsicas e psquicas para que se preocupasse com mais nada, a no ser consigo mesmo. Entretanto, ao observar as lgrimas dos que o amavam, no suportou. Seu corao
se derreteu... Parou subitamente. Ergueu seus olhos! Conseguiu reunir foras para dizer palavras sublimes para aliviar a inconsolvel multido. As palavras que ele
proferiu, bem como todos os mistrios envolvidos na sua travessia para o Glgota, na sua crucificao e at a ltima batida do seu corao sero analisados no prximo
livro da coleo, "O MESTRE DO AMOR"*.

As lies inesquecveis para nossa vida
Ningum disse o que Jesus disse quando todas as clulas do seu corpo morriam. Ele nos deu lies inesquecveis da aurora ao ocaso de sua vida, enquanto proferia
belssimos discursos at s suas reaes ofegantes. Mostrou-nos que a vida  o maior espetculo do mundo!
* Cury, Augusto J., Anlise da Inteligncia de Cristo- O Mestre do Amor, Academia de Inteligncia, So Paulo, no prelo.

239













































































#Anlise da Inteligncia de Cristo - O Mestre da Vida

A vida que pulsa na criatividade das crianas, na despedida dos amigos, no abrao apertado dos pais, na solido de um doente, no choro dos que perdem seus amados
era para o mestre dos mestres a obra prima do Autor da existncia. Por isso planejou derramar a sua alma na morte para que a vida humana continuasse a pulsar. Quando
voc estiver s no meio da multido, quando errar, fracassar e ningum o compreender, quando as lgrimas que voc nunca teve coragem de chorar escorrerem silenciosamente
em sua emoo e sentir que no tem mais foras para continuar sua jornada, no se desespere! Pare! Faa uma pausa na sua vida! No dispare o gatilho da agressividade
e do auto-abandono! Enfrente seu medo! Faa do seu medo nutriente para sua fora. Destrave a sua inteligncia, abra as janelas da sua mente, areje o seu esprito!
No seja um tcnico na vida, mas um pequeno aprendiz. Permita-se ser ensinado pelos outros, aprenda lies dos seus erros e dificuldades. Liberte-se do crcere da
emoo e dos pensamentos negativos. Jamais se psicoadapte  sua misria! Lembre-se do mestre da vida! Ele nos convidou para sermos livres, mesmo diante das turbulncias,
perdas e fracassos, mesmo sem haver nenhum motivo exterior para nos alegrarmos. Tenha a mais legtima de todas as ambies: ambicione ser feliz! A matemtica da
sua emoo agradece. Recorde que Jesus Cristo passou pelos mais dramticos sofrimentos como um ser humano igual a voc e os superou com a mais alta dignidade. Seja
apaixonado pela vida como ele foi. Lembre-se de que por amar apaixonadamente a humanidade ele teve o mais ambicioso plano da histria. Recorde que, neste plano,
voc no  mais um nmero na multido. A vida que pulsa na sua alma o torna uma pessoa especial,
240













































































#As lies e Treinamento da Emoo do Mestre da Vida

inigualvel, por mais dificuldades que atravesse, por mais conflitos que tenha. Portanto, erga seus olhos e olhe para o horizonte! Enxergue o que ningum consegue
ver! Veja um osis no fim do seu longo e escaldante deserto! Saiba que as flores mais lindas sucedem os invernos mais rigorosos. Tenha convico de que dos momentos
mais difceis de sua vida voc pode escrever os mais belos captulos de sua histria... Nunca desista de voc! D sempre uma chance para si mesmo. Nunca desista
dos outros! Ajude-os a corrigir as rotas de suas vidas. Mas se no conseguir, poupe energia, proteja a sua emoo, aguarde que eles decidam ser ajudados. Enquanto
isso, aceite-os do jeito que eles so, ame-os com todos os seus defeitos. Amar traz sade para a emoo. Jesus encantava as pessoas com suas palavras. As multides,
ao ouvi-lo, renovavam suas foras e reencontravam um novo sentido para viver! Reacendeu a esperana de muitos, mesmo quando no tinha energia para falar. Compreendeu
o que  ser homem e fez poemas sobre a vida at sangrando. Pagou um preo carssimo para lavrar o rido solo de nossas emoes. Brilhou onde no havia nenhum raio
de sol. Nunca mais pisou nesta terra algum to fascinante como o mestre da vida...

* A editora Academia de Inteligncia autoriza a reproduo do todo ou de parte do ltimo tpico deste livro, As lies inesquecveis para nossa vida, para ser distribudo
ou afixado em escolas ou em qualquer outra instituio, desde que citada a fonte.

241













































































#

















































































































NOTAS BIBLIOGRFICAS

#NotasBibliogrficas
1 - Joo 12:19 2 - Mateus 23:4 3 - Lucas 14:5 4 - Lucas 14:12 5 - Mateus 23:14 6 - Joo 7:46 7 - Joo 18:3 8 - Joo 13:27 9 - Mateus 26:50 10 - Joo 18:4 11 - Joo
18:8 12 - Joo 18:8 13 - Joo 18:11 14 - Mateus 26:53 15 - Joo 12:27 16 - Lucas 1:3 17 - Mateus 18:19 18 - Mateus 18:20 19 - Mateus 18:23 20 - Mateus 18:22 21 -
Lucas 22:66 22 - Marcos 14:71 23 - Joo 18:24,25 24 - Lucas 23:2 25 - Joo 5:40 26 - Mateus 15:8 27 - Mateus 26:64 28 - Mateus 26:64 29 - Mateus 26:65 30 - Marcos
14:65 31 - Lucas 19:41 32 - Mateus 10:28 33 - Mateus 11:29 34 - Mateus 27:1 35 - Joo 18:31 36 - Lucas 23:34 37 - Mateus 22:21 38 - Lucas 13:1 39 - Joo 19:14 40
- Joo 8:12 41 - Mateus 22:21 42 - Lv 20:2,27; Dt 13:10; 17:15 43 - Mateus 27:2 44 - Mateus 27:18 45 - Joo 18:37 46 - Joo 18:37 47 - Lucas 23:10 48 - Mateus 27:17
49 - Mateus 27:12 50 - Mateus 27:29 51 - Mateus 27:29 52 - Mateus 27:30 53 - Joo 19:5 54 - Joo 19:7 55 - Joo 19:10 56 - Joo 19:14 57 - Joo 19:15 58 - Joo 19:12
59 - Mateus 26:25 60 - Apocalipse 21:4 61 - Joo 8:14 62 - Lucas 14:9 63 - Mateus 18:3 64 - Joo 14:9 65 - Judas 1:25 66 - Mateus 16:9 67 - Salmo 139 68 - Salmo
139:3,4 69 - Apocalipse 1:18 70 - Apocalipse 22:13 71 - Apocalipse 22:13 72 - Joo 17:5 73 - Mateus 1:23 74 - Isaas 9:6 75 - Salmo 139:4 76 - Joo 2:25 77 -Mateus
5:43 a 45 78 -Mateus 7:3 79 -Mateus 8:24 80 -Mateus 6:28


Foram utilizadas as seguintes verses dos evangelhos: A Bblia de Jerusalm, TEBBblia Ecumnica, Joo Ferreira de Almeida R. A., Kimg James e Recovery Version.

245

#Anlise da Inteligncia de Cristo O MESTRE DOS MESTRES
(editora Academia de Inteligncia, So Paulo, 2000)

O mundo comemora o nascimento de Cristo, mas as pessoas no tm idia de como sua personalidade era intrigante e sofisticada. Ele foi o mestre dos mestres da escola
da existncia, a escola da vida, uma escola na qual muitos psiquiatras, intelectuais e cientistas so pequenos aprendizes. Este livro, ao estudar a inteligncia
de Cristo, resgata uma dvida da Psicologia, que se omitiu at hoje em pesquis-la, trazendo  luz as caractersticas da personalidade Daquele que dividiu a histria
da humanidade. No importa o tipo de cultura, escolaridade, religio, status social e condio financeira que o leitor desse livro tenha. Cristo  universal e investigar
a Sua inteligncia anima o pensamento, rompe o crcere intelectual, expande a inteligncia, estimula a sabedoria e enriquece o prazer de viver. Quem estud-la nunca
mais ser o mesmo.

#Anlise da Inteligncia de Cristo O MESTRE DA SENSIBILIDADE
(editora Academia de Inteligncia, So Paulo, 2000)

Podemos estudar os grandes pensadores, tais como Plato, Descartes, Max Weber, Hegel, Darwin, Freud, todavia ningum teve uma personalidade to complexa, misteriosa
e difcil de ser compreendida como a de Jesus Cristo. Ele no apenas causou perplexidade nos homens mais cultos de sua poca, mas, ainda hoje, Seus pensamentos so
capazes de perturbar a mente de qualquer um que queira estudLo, livre de julgamentos preconcebidos. As sementes que Ele plantou germinaram na mente e no esprito
daqueles galileus e incendiaram o mundo. Ele causou a maior revoluo da Histria, entretanto, no desembainhou uma espada e no usou de qualquer violncia. Foi,
sem dvida, o Mestre da sensibilidade. A vida no O poupou. Do nascimento at  morte, Ele passou pelas mais amargas situaes de sofrimento. Entretanto, para nosso
espanto, Ele era uma pessoa alegre e que irradiava tranqilidade. Tinha uma habilidade mpar para gerenciar Seus pensamentos e trabalhar as Suas angstias. Sua motivao
para cumprir Suas metas era surpreendente. Ao cair da ltima folha do inverno, conseguia ver as flores da primavera. Estudar o Mestre da sensibilidade no apenas
nos encantar, mas nos far revisar as avenidas principais de nossas vidas.

#A PIOR PRISO DO MUNDO
(editora Academia de Inteligncia, So Paulo, 2000)

A PIOR PRISO DO MUNDO  um livro apaixonante, esclarecedor, cujo objetivo  mostrar que a pior priso do mundo  a que aprisiona a nossa emoo e nos impede de
sermos livres e felizes. Diversas doenas, tais como a depresso, a sndrome do pnico, os transtornos obsessivos, as fobias, encarceram a emoo. Entre elas tambm
se encontra a dependncia de drogas ou a farmacodependncia. Nada prejudica tanto a emoo como gravitar em torno dos efeitos de uma droga. Quem  prisioneiro no
mago da sua alma, alm de perder a liberdade de pensar, faz de sua vida um atoleiro de tdio e de angstia. Neste livro, Augusto Cury evidencia que as relaes
entre pais e filhos e entre educadores e alunos precisam passar por uma verdadeira revoluo. Todos dividem o mesmo espao, respiram o mesmo ar, mas vivem em mundos
diferentes. Esto prximos fisicamente, mas distantes interiormente, o que os torna um grupo de estranhos. A PIOR PRISO DO MUNDO interessa aos que desejam compreender
com profundidade o crcere das drogas, os segredos do funcionamento da mente humana, e aos que almejam maior qualidade de vida e ser livres dentro de si mesmos.

#INTELIGNCIA MULTIFOCAL
(editora Cultrix, So Paulo, 1998)

H livros que nos inspiram, que nos emocionam, mas no modificam a nossa histria pessoal. Mas h alguns que revolucionam a Cincia, estilhaam os paradigmas intelectuais
e modificam para sempre a nossa maneira de pensar o mundo e a ns mesmos. Inteligncia Multifocal enquadra-se nesta ltima categoria. Seu autor, o dr. Augusto Jorge
Cury,  um cientista terico, pensador humanista da Psicologia e da Filosofia, psiquiatra, psicoterapeuta e consultor de universidades para o desenvolvimento da
inteligncia multifocal. Suas idias so originais, profundas, eloqentes e crticas. Unindo a Psicologia com a Filosofia, ele abre as janelas da nossa inteligncia,
estimula-nos a desenvolver a arte de pensar e desvenda-nos o complexo funcionamento da mente humana. Atualmente, as teorias de maior impacto que enfatizam a rea
do desenvolvimento da inteligncia so teoria da Inteligncia Emocional, de Daniel Goleman, e a teoria das Inteligncias Mltiplas, de Howard Gardner. Levando em
conta o fato de que todos os processos de construo da inteligncia so multifocais, a teoria proposta pelo dr. Cury tem sobre essas duas teorias e sobre todas
as outras a vantagem de ser muito mais abrangente, pois envolve toda produo intelectual, histrica, cultural, emocional e social criada na trajetria da existncia
humana.

#A DEPRESSO DE FREUD
(editora Academia de Inteligncia, So Paulo, 2001)

O pai da psicanlise foi um dos maiores pensadores do sculo XX. Suas idias influenciaram a psicologia, a pintura, a escultura, a literatura, a filosofia, o cinema
e muitas outras reas da cultura. Era um pensador ousado, lcido e criativo. Entretanto, poucos sabem, mas numa fase avanada de sua vida experimentou o topo da
dor humana: a dor da depresso. Freud tratou de tantas pessoas, cuidou da emoo de muitos pacientes. Contudo, chegou sua vez de enfrentar as guas turbulentas da
emoo e se deparar com o ltimo estgio da dor humana. Neste livro ser analisada uma carta escrita pelo prprio Freud, que revela um perodo importante e catico
de sua vida. O autor usa uma nova e importante teoria para desvendar os segredos da mente de Freud. Seremos ajudados a compreender os mecanismos que produzem os
transtornos emocionais e estimulados a nos autoconhecer e a transitar com sabedoria no solo da existncia. Ficaremos impressionados ao constatarmos que no h gigantes
no territrio da emoo, todos somos eternos aprendizes.

#Opinies de alguns leitores: "O seu livro "ANLISE DA INTELIGNCIA DE CRISTO-vol. 1 e 2  fantstico e est longe de ser um livro de autoajuda,masumlivrodeconscientizaoparanossa
realestrutura ontolgica". B.A.C. " Estou encantada com a obra "ANLISE DA INTELIGNCIA DE CRISTO-vol1- vol2. De fato nunca se ouve falar sobre a profundidade do
ser do Mestre Jesus." N.L. "Ao ler sua obra "ANLISE DA INTELIGNCIA DE CRISTO"vol1 E vol2 ,senti reacender em mim a paixo por Jesus Cristo.Agradeopormimepormilharesdepessoasquel
eramseus livros e sentiram suas vidas mudarem.I.D. "Li a coleo "ANLISE DA INTELIGNCIA DE CRISTO" e a "A PIOR PRISO DO MUNDO" e achei fantsticos.Posso dizer
at que  uma obra rara. Aps ler os livros inicieiimediatamenteaplicandoatravsdeexerccioprticoalgumas desuascolocaes,queestofacilitandosignificativamenteminha
maneiradeencararavidaemtodososcampos,doprofissionalao pessoal." G.P.Z. "Parabnspelasuaobra.Vocumdessesrarosastrosquevoltae meia vem iluminando o caos literrio
que envolve os assuntos de Deus..." R.F. "Soumdicoedesdemeus15anosleioaBblia,maisquequalquer outroassuntoemparticular,mascomseuslivrosdeparei-mecom umpontodevistasobreamentedeJes
usquejamaistinhapercebido eestouperplexo:Jesusfoiemuito,muitomaisimpressionantedo que eu poderia conceber! " H.C.S.

#Prximos lanamentos da editora

"O Crcere da emoo" Coleo "Anlise da Inteligncia de Cristo" "O Mestre do Amor" - vol 4 "O Mestre Inesquecvel" - vol 5

#A Editora Academia de Intelignciaagradeceatodosos leitoresque,comopoetasdavida, tmdifundidonossoslivros aosamigos,parentes,dentrodesua empresaeprincipalmentenasescolas
dopaseatemlivrariaslongnquas. Ns,daeditora,autorizamose encorajamososleitoresadar palestrasnasescolasougrupossociais usandoocontedodesteslivros,desde quecitadaafonte.
Agradecemosatodososleitores quenostmenviado e-mailsemitindosuasopiniesedizendo quesuasvidasganharamnovosignificado a partir da leitura destes livros.

Editora Academia de Inteligncia Contatos: Email: academiaint@mdbrasil.com.br Telefax: (17) 3342-4844 Contatos com o Autor: E-mail: jcury@mdbrasil.com.br

#
